“Se a cobra morder antes de estar encantada, então remédio nenhum haverá no mais hábil encantador” (Eclesiastes, X,11)
No princípio desta década foi lançada em Paris uma reedição do livro de Jean-Marie
Brohm e Marc Perelman, intitulado Le Football - Une Peste Émotionnelle
(Les Éditions de la Passion )[1]. Com menos de 40 páginas, esse livreto
constitui uma preciosidade, um texto admirável e de rara lucidez que aborda
a questão do fanatismo, da alienação, da cretinização e de outras patologias
sociais intrínsecas aos esportes em geral, mas em particular à “orgia populista”
do futebol. Como estamos no princípio de mais uma Copa de Mundo, com os
serviços públicos previamente desativados, com muitos torcedores em surto
e com o planeta inteiro alucinado diante da televisão, parece oportuno
selecionar algumas idéias e colocar em pauta as mais importantes reflexões
nele contidas.
1 - QUANTO À IDEOLOGIA -
Em nome de um pretendido “ideal esportivo”, todos os adeptos do culto da
performance minimizam ou até ocultam sistematicamente as realidades efetivas
do esporte de competição contemporâneo, singularmente do futebol que eles,
contra todas as evidências, insistem em apresentar como um universo de
“fraternidade”, de “paz”, de “encontros amigáveis”, “paixões igualitárias”
e mesmo de “democracia” e de “cultura”. Todos esses zeladores da macroseita
da bola fecham os olhos para a mentira, para a má-fé, para a falsa consciência,
para a prática do doping, da corrupção mercantil, dos interesses mafiosos,
das explosões de violência, do racismo e do ódio do outro que gangrenam
o espetáculo multinacional do futebol. (...) Os ideólogos do futebol que
consagram a maior parte de seu tempo incensando o amor pelo futebol, a
festa, o sonho, a alegria, a cultura e outros slogans da mistificação esportiva,
evidentemente não se preocupam em condenar o escândalo desses mercenários
transnacionais pagos a preço de ouro enquanto os desempregados
e grande parte dos trabalhadores, vegetam na precariedade, na miséria e
na pobreza. Nessa vasta legião familiar que reagrupa todas as tendências
da esquerda e da direita, todas as tribos do jet-set, todos os devotos
da sociedade do espetáculo, a gente reconhece sem dificuldade os farsantes
ordinários do ópio do povo. (...) O “Espetáculo Total, de que fala Bromberger
não é na verdade mais do que o espetáculo da violência social, aquele que
leva centenas de milhares de torcedores a aclamar os gladiadores dopados
do gramado. Quanto “ficção lúdica” do futebol, ela tem um gosto de sangue,
de ódio e de xenofobia...
2 - QUANTO À CULTURA & A ARTE -
Pretender que o futebol participe da cultura é não apenas zombar do mundo,
mas ter uma visão medíocre da cultura, aquela do prêt-à-penser, do fast-thinking
e do zapping que predomina hoje em dia nos meios de comunicação onde atuam
os novos cães de guarda. (...) Contrariamente ao futebol, as obras de arte,
estejam sob nossos olhos ou não, levam a pensar. Se uma partida de futebol
que leva a turba ao delírio impossibilita o sujeito de pensar, a obra de
arte por sua vez faz a pessoa refletir, participa do imaginário, se instala
como alteridade à sombra do cotidiano; ela nos mergulha na fantasia e no
sonho. O futebol não. Pensar no futebol é parar de pensar ou pensar só
nele, isto é, não pensar mais. O projeto do futebol não é outro senão ele
mesmo, um projeto sem projeto. Se com o futebol a percepção e o olhar lançados
aos jogadores não constituem mais que um ritual unilateral, em vez de uma
dialética com a obra, qual é a experiência de liberdade que se experimenta
com esse esporte quando não existe mais do que a
liberdade de uma experiência coisificada? (...) Se por um lado o artista
cria seu espaço mesmo quando é limitado por um quadro, (...) a inteligibilidade
do futebol não pode se ligar a uma história que não chega a ser mais do
que uma coleção de cifras abstratas e a neurose social da estatística e
dos resultados...
3 - QUANTO AOS INTELECTUAIS -
Este dogma pós-moderno que vai da esquerda branchée à direira liberal carnassière
encontrou hoje em dia seu terreno de eleição na apologia cínica do esporte
em geral e do futebol em particular. A Copa do Mundo de 1998 foi, nesse
sentido, um bom revelador da amplitude da lobotomização que tomou conta
dos intelectuais, dos líderes de opinião, particularmente os jornalistas
de esquerda e, principalmente, das legiões de pensamento único esportivo
onde se cruzam vedetes do showbiz, estrelas multimídia, “grandes pensadores”
de nosso tempo, publicitários, apresentadores servis do prêt-à-penser e
outros artistas do realismo. Todos torcedores apaixonados, fetichistas
e loucos pelo futebol, fanáticos do couro e do gramado. (...) A esquerda
plural e seus companheiros de rota esquecem que o futebol, como todas as
outras realidades sociais de massa, é marcado pelas clivagens políticas
e pelas opções ideológicas. Longe de ser neutro, por cima dos conflitos
sociais, o futebol representa o mesmo tipo de doutrinamento totalitário
que impede mesmo os espíritos mais lúcidos de permanecerem críticos ou
até mesmo simplesmente lúcidos. (...) A unanimidade com a qual os intelectuais
de hoje se negam a criticar o futebol, deleitando-se com as delícias da
vibração passional, é uma coisa inquietante, pois a fusão populista com
a embriagues popular por diversas vezes acabou num destino trágico, seja
na aclamação do Führer, do realismo socialista, dos tribunais do povo ou
da revolução cultural. (...) Os ditadores sabem muito bem por que eles
são sempre e em todos os casos a favor do esporte. Quem apóia os esportes
tem as massas a seu lado. É por isso que atualmente todos os governos são
a favor dos esportes e contra a cultura... (...) A estetização da política
que praticavam o fascismo ou o nazismo é substituída pela esportivização
da estética que praticam todas as formas de totalitarismo, inclusive as
democracias mais brandas...
4 - QUANTO AO SEXO
É ao redor da sexualidade, como estrutura de comportamento violento e mesmo
guerreiro, assim como do sadomasoquismo da grande maioria dos jogadores,
que se afirma, em toda a sua plenitude, a economia futebolística. (...)
Para Theodor Adorno e Max Horkheimer, a gente assiste mais ainda na sociedade
atual a uma homossexualização inconsciente de uma estrutura infantil. O
ideal erótico se torna infantil, e isto é perceptível nas situações em
que os jogadores se abraçam, se dão tapinhas na bunda, se jogam no chão
uns sobre os outros, dão piruetas, gritam entre eles (...) A sexualidade
ligada aos esportes, ao futebol, constitui uma degradação da vida erótica
assimilada a um treinamento prévio, ao ato profissional, ao novo tipo de
trabalho que constitui o jogo. A libido investida no processo esportivo
é orientada para atos vulgares e compulsivos (cuspidas, palavrões, gestos
obscenos) e para manifestações de violência sobre o outro. Em seguida e
ao mesmo tempo, a tendência pulsional inerente ao futebol é o desenvolvimento
de comportamentos homossexuais latentes entre os jogadores, sobre a base
de uma cumplicidade, não amorosa, mas de violência compartilhada entre
vencidos e vencedores, na guerra do jogo.
5 – QUANTO À CORRUPÇÃO -
As redes de corrupção, os jogos marcados, os árbitros comprados, os jogadores
contactados, os resultados predeterminados, tudo isto não é uma invenção
de qualquer sociólogo esquerdista. Sócrates, antiga estrela do time brasileiro,
dizia em abril de 2001 na França, ao jornal Libération: Qualquer jogador
da Terceira Divisão deve dividir seu salário com um agente, seu treinador
e os dirigentes do clube. É a mesma coisa em todos os níveis. O futebol
brasileiro se transformou num ambiente completamente prostituído. Hoje
em dia uma meia dúzia de pessoas à frente da federação paulista e da CBF
sugam toda a riqueza do futebol brasileiro. (...) Os jogos trucados do
Campeonato da Inglaterra ilustram a mundialização da corrupção no futebol.
(...) O secretário grego dos esportes afirmava em novembro de 2000 ao Libération:
A arbitragem do futebol está submetida a uma gangue. (...) O futebol da
Malásia está impregnado de corrupção. Oitenta e cinco por cento dos jogos
da liga nacional foram trucados (...) Corrupção no futebol
belga (...) Escândalo e corrupção generalizada no futebol chinês (...)
Escândalo no futebol turco (...) A corrupção vai a galope no futebol francês
(...).
6 – QUANTO À VIOLÊNCIA -
Àqueles que pensam que a violência do futebol não é mais do que um epifenômeno
passageiro ou um detalhe de sua maravilhosa legenda basta mostrar a lista
interminável de vítimas desse esporte: sufocamentos, pisoteamentos, explosões,
cassetetes e punhaladas, tiros, tanto dentro como fora dos estádios. (...)
Na Inglaterra, Alemanha e Holanda os hooligans, na Argentina os barrabravas,
na Itália os teppisti (...) A Fifa indenizou os parentes das 78 vítimas
de 1996 no estádio Mateos-Flores da Guatemala. (...) De 1976 para cá, os
incidentes ligados ao futebol fizeram 53 mortos na Argentina. (...) Por
detrás da tela de sonho se dissimula a maquinaria do futebol com seu impiedoso
princípio de realidade saturado de ódios, de violências, de destruição
e de mortos. (...)
[1] Ainda não publicado no Brasil, o trabalho desses dois sociólogos franceses é mais do que tudo um chamado de alerta e de reflexão para com a velocidade com que a máquina esportiva, sob os mais diversos disfarces, tem interferido nos aspectos mais importantes da sociedade atual, favorecendo, principalmente entre a juventude, a alienação e até mesmo uma espécie de cretinização.
Ezio Flávio Bazzo
Escritor e Doutor em Psicologia Clínica. Autor de Vagabundo na China , Dymphne:
a santa protetora dos loucos ; Ecce Bestia , Blasfematório , A Arte de Cuspir
ou A Dialética dos Porcos , entre outros
eziob@yawl.com.br
http://home.yawl.com.br/hp/eziob/obras.html
![]() |
|||||||||
![]() |
|||||||||