A SOCIEDADE DO ESPECTÁCULO

por Guy Debord

 

Prólogo para a terceira edição francesa de
A Sociedade do Espectáculo

 

A Sociedade do Espectáculo publicou-se pela primeira vez no editorial Buhet-Chastel de Paris em 1967. Os distúrbios de Maio deram-na a conhecer. Desde 1971, o livro, do qual não foi alterada uma única palavra, foi reeditado pelas Editions Champ Libre que, após o assassinato do seu editor em 1984, adoptaram o nome de Gérard Lebovici. As reimpressões sucederam-se regularmente até 1971. Também a presente edição é rigorosamente idêntica à de 1967, e a mesma regra presidirá à edição de todos os livros da Editorial Gallimard.
Uma teoria critica como a contida nesta livro não precisa alteração alguma enquanto não desaparecerem as condições gerais do dilatado período histórico que ela foi a primeira a definir com exactidão. O desenvolvimento subsequente deste período não fez mais que confirmar e ilustrar a teoria do espectáculo cuja exposição, agora repetida, pode também considerar-se como histórica num sentido mais modesto: dá-nos testemunho das posições mais extremas durante as lutas de 1968 e, portanto, vislumbra já o que poderia suceder nesse ano. Os mais iludidos de então, tiveram, entretanto, ocasião de inteirar-se, pelos desenganos da sua existência, do significado de fórmulas como «a negação da vida que se torna visível», «a perda da qualidade» ligada à forma mercantil e à «proletarização do mundo».
Para além disso, com o tempo, foram-se acumulando algumas observações acerca das novidades mais importantes no curso ulterior deste mesmo processo. Em 1979, aproveitando a ocasião que me oferecia um prefácio destinado a uma nova tradução italiana, ocupei-me das transformações ocorridas na própria natureza industrial, tal como nas técnicas de governo, nas quais começava a autorizar-se o uso da força espectacular. Em 1988, meus Comentários sobre a sociedade do espectáculo deixaram claramente estabelecido que a antiga «divisão mundial do trabalho espectacular» entre os impérios rivais de «o espectacular concentrado» e «espectacular difuso» havia acabado com uma fusão que deu lugar à forma comum de «o espectacular integrado».
Esta fusão pode comentar-se sumariamente rectificado a tese 105, a qual, referindo-se ao ocorrido em 1967, distinguia essas duas formas anteriores, assinalando práticas opostas em cada uma delas. Ao haver terminado em reconciliação o Grande Cisma do poder de classe, havia que dizer que as práticas unificadas do espectacular integrado haviam conseguido, nos nossos dias, «transformar economicamente o mundo» e, ao mesmo tempo, «transformar policialmente a percepção» (numa atitude na qual a policia enquanto tal é algo completamente novedoso).O mundo só pôde proclamar-se oficialmente unificado porque previamente se havia produzido esta fusão na realidade económico-política à escala mundial. E, ainda assim, se o mundo tinha necessidade de reunificar-se rapidamente, isso se devia à gravidade que representava um poder separado na situação universal a que havemos chegado. O mundo necessitava participar como um só bloco na mesma organização consensual do mercado mundial, espectacularmente falsificado e garantido. Mas, por fim, não haverá unificação.
A burocracia totalitária, «relevo da classe dominante da economia dominante», nunca confiou demasiado no futuro. Tinha consciência de ser «uma forma subdesenvolvida de classe dominante», e aspirava algo melhor. Fazia já tempo que a tese 58 havia estabelecido o seguinte axioma: «o espectáculo funda as suas raízes numa economia da abundância, e dela procedem os frutos que tendem a dominar finalmente o mercado do espectáculo».
Esta vontade de modernização e unificação do espectáculo é a que levou a burocracia russa a converter-se repentinamente, em 1989 à actual ideologia da democracia: isto é, à liberdade ditatorial do Mercado, moderada pelo reconhecimento dos Direitos do Homem espectador. Ninguém no Ocidente fez o menor comentário crítico acerca do significado e as consequências de tão extraordinário acontecimento mediático, o que prova por si mesmo o progresso da técnica espectacular. A única coisa que se pôde registar foi a aparência de um facto de natureza geológica. Fecha-se o fenómeno, considerando-o suficientemente compreendido, e contentando-se em reter um sinal tão elementar como a queda do muro de Berlim, tão discutível como os restantes sinais democráticos.
Os primeiros efeitos da modernização detectaram-se em 1991, com a completa dissolução da Rússia. Aí vemos exposto com mais clareza que no Ocidente, o desastroso resultado da evolução geral da economia. Os caos não é mais que a sua consequência. Em todas as partes se encontra a mesma terrível pergunta, que desde à dois séculos se faz ao mundo inteiro. Como fazer trabalhar os pobres ali onde se desvaneceu toda a ilusão e toda a força desapareceu?
A tese 111, ao reconhecer os primeiros sintomas do crepúsculo russo a cuja explosão final acabamos de assistir, e antecipando-se à eminente desaparição daquilo que, como diríamos hoje, se borrará de la memoria del ordenador, e enunciava este juízo estratégico, cuja exactidão será fácil de conceder: «A decomposição mundial da aliança da mistificação burocrática é, em última instancia, o factor mais desfavorável ao desenvolvimento da sociedade capitalista».
Este livro deve ler-se tendo em consideração que se escreveu deliberadamente contra a sociedade espectacular. Sem exagero algum.
30 de Junho de 1992
(Tradução portuguesa de Leonel Santos da edição castelhana, ( Valencia, Pre-textos de 1999)

CAPITULO I
A SEPARAÇÃO ACABADA

E sem dúvida o nosso tempo... prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser... O que é sagrado para ele, não é senão a ilusão, mas o que é profano é a verdade. Melhor, o sagrado cresce a seus olhos à medida que decresce a verdade e que a ilusão aumenta, de modo que para ele o cúmulo da ilusão é também o cúmulo do sagrado.
Feuerbach - Prefácio à segunda edição de A Essência do Cristianismo

1
Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espectáculos. Tudo o que era directamente vivido se afastou numa representação.

2
As imagens que se desligaram de cada aspecto da vida fundem-se num curso comum, onde a unidade desta vida já não pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente desdobra-se na sua própria unidade geral enquanto pseudomundo à parte, objecto de exclusiva contemplação. A especialização das imagens do mundo encontra-se realizada no mundo da imagem autonomizada, onde o mentiroso mentiu a si próprio. O espectáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autónomo do nao-vivo.

3
O espectáculo apresenta-se ao mesmo tempo como a própria sociedade, como uma parte da sociedade, e como instrumento de unificação. Enquanto parte da sociedade, ele é expressamente o sector que concentra todo o olhar e toda a consciência. Pelo próprio facto de este sector ser separado, ele é o lugar do olhar iludido e da falsa consciência; e a unificação que realiza não é outra coisa senão uma linguagem oficial da separação generalizada.

4
O espectáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens.

5
O espectáculo não pode ser compreendido como o abuso de um mundo da visão, o produto das técnicas de difusão massiva de imagens. Ele é bem mais uma Weltanschauung tornada efectiva, materialmente traduzida. É uma visão do mundo que se objectivou.

6
O espectáculo, compreendido na sua totalidade, é ao mesmo tempo o resultado e o projecto do modo de produção existente. Ele não é um suplemento ao mundo real, a sua decoração readicionada. É o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares, informação ou propaganda, publicidade ou consumo directo de divertimentos, o espectáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação omnipresente da escolha já feita na produção, e o seu corolário o consumo. Forma e conteúdo do espectáculo são identicamente a justificação total das condições e dos fins do sistema existente. O espectáculo é também a presença permanente desta justificação, enquanto ocupação da parte principal do tempo vivido fora da produção moderna.

7
A própria separação faz parte da unidade do mundo, da práxis social global que se cindiu em realidade e imagem. A prática social, perante a qual se põe o espectáculo autónomo, é também a totalidade real que contém o espectáculo. Mas a cisão nesta totalidade mutila-a ao ponto de fazer aparecer o espectáculo como sua finalidade. A linguagem do espectáculo é constituído por signos da produção reinante, que são ao mesmo tempo a finalidade última desta produção

8
Não se pode opor abstractamente o espectáculo e a actividade social efectiva; este desdobramento está ele próprio desdobrado. O espectáculo que inverte o real é efectivamente produzido. Ao mesmo tempo, a realidade vivida é materialmente invadida pela contemplação do espectáculo, e retoma em si própria a ordem espectacular dando-Ihe uma adesão positiva. A realidade objectiva está presente nos dois lados. Cada noção assim fixada não tem por fundamento senão a sua passagem ao oposto: a realidade surge no espectáculo, e o espectáculo é real. Esta alienação recíproca é a essência e o sustento da sociedade existente.

9
No mundo realmente reinvertido, o verdadeiro é um momento do falso.

10
O conceito de espectáculo unifica e explica uma grande diversidade de fenómenos aparentes. As suas diversidades e contrastes são as aparências desta aparência organizada socialmente, que deve, ela própria, ser reconhecida na sua verdade geral. Considerado segundo os seus próprios termos, o espectáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana, isto é, social, como simples aparência. Mas a crítica que atinge a verdade do espectáculo descobre-o como a negação visível da vida; como uma negação da vida que se tornou visível.

11
Para descrever o espectáculo, a sua formação, as suas funções e as forças que tendem para a sua dissolução, é preciso distinguir artificialmente elementos inseparáveis. Ao analisar o espectáculo, fala-se em certa medida a própria linguagem do espectacular, no sentido em que se pisa o terreno metodológico desta sociedade que se exprime no espectáculo. Mas o espectáculo não é outra coisa senão o sentido da prática total de uma formação económico-social, o seu emprego do tempo. É o momento histórico que nos contém.

12
O espectáculo apresenta-se como uma enorme positividade indiscutível e inacessível. Ele nada mais diz senão que «o que aparece é bom, o que é bom aparece». A atitude que ele exige por princípio é esta aceitação passiva que, na verdade, ele já obteve pela sua maneira de aparecer sem réplica, pelo seu monopólio da aparência.


13
O carácter fundamentalmente tautológico do espectáculo decorre do simples facto de os seus meios serem ao mesmo tempo a sua finalidade. Ele é o sol que não tem poente, no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e banha-se indefinidamente na sua própria glória.

14
A sociedade que repousa sobre a indústria moderna não é fortuitamente ou superficialmente espectacular, ela é fundamentalmente espectaculista. No espectáculo, imagem da economia reinante, o fim não é nada, o desenvolvimento é tudo. O espectáculo não quer chegar a outra coisa senão a si próprio.

15
Enquanto indispensável adorno dos objectos hoje produzidos, enquanto exposição geral da racionalidade do sistema, e enquanto sector económico avançado que modela directamente uma multidão crescente de imagens-objectos, o espectáculo é a principal produção da sociedade actual.

16
O espectáculo submete a si os homens vivos, na medida em que a economia já os submeteu totalmente. Ele não é nada mais do que a economia desenvolvendo-se para si própria. É o reflexo fiel da produção das coisas, e a objectivação infiel dos produtores.

17
A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social levou, na definição de toda a realização humana, a uma evidente degradação do ser em ter. A fase presente da ocupação total da vida social pelos resultados acumulados da economia conduz a um deslizar generalizado do ter em parecer, de que todo o «ter» efectivo deve tirar o seu prestígio imediato e a sua função última. Ao mesmo tempo, toda a realidade individual se tornou social, directamente dependente do poderio social, por ele moldada. Somente nisto em que ela não é, Ihe é permitido aparecer.

18
Lá onde o mundo real se converte em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico. O espectáculo, como tendência para fazer ver por diferentes mediações especializadas o mundo que já não é directamente apreensível, encontra normalmente na vista o sentido humano privilegiado que noutras épocas foi o tacto; o sentido mais abstracto, e o mais mistificável, corresponde à abstracção generalizada da sociedade actual. Mas o espectáculo não é identificável ao simples olhar, mesmo combinado com o ouvido. Ele é o que escapa à actividade dos homens, à reconsideração e à correcção da sua obra. É o contrário do diálogo. Em toda a parte onde há representação independente, o espectáculo reconstitui-se.

19
O espectáculo é o herdeiro de toda a fraqueza do projecto filosófico ocidental, que foi uma
compreensão da actividade, dominada pelas categorias do ver; assim como se baseia no incessante alargamento da racionalidade técnica precisa, proveniente deste pensamento. Ele não realiza a filosofia, ele filosofa a realidade. É a vida concreta de todos que se degradou em universo especulativo.

20
A filosofia, enquanto poder do pensamento separado, e pensamento do poder separado, nunca pode por si própria superar a teologia. O espectáculo é a reconstrução material da ilusão religiosa. A técnica espectacular não dissipou as nuvens religiosas onde os homens tinham colocado os seus próprios poderes desligados de si: ela ligou-os somente a uma base terrestre. Assim, é a mais terrestre das vidas que se toma opaca e irrespirável. Ela já não reenvia para o céu, mas alberga em si a sua recusa absoluta, o seu falacioso paraíso. O espectáculo é a realização técnica do exílio dos poderes humanos num além; a cisão acabada no interior do homem.

21
À medida que a necessidade se encontra socialmente sonhada, o sonho torna-se necessário. O espectáculo é o mau sonho da sociedade moderna acorrentada, que finalmente não exprime senão o seu desejo de dormir. O espectáculo é o guardião deste sono.

22
O facto de o poder prático da sociedade moderna se ter desligado de si próprio, e ter edificado para si um império independente no espectáculo, não se pode explicar senão pelo facto de esta prática poderosa continuar a ter falta de coesão, e permanecer em contradição consigo própria.

23
É a especialização do poder, a mais velha especialização social, que está na raiz do espectáculo. O espectáculo é, assim, uma actividade especializada que fala pelo conjunto das outras. É a representação diplomática da sociedade hierárquica perante si própria, onde qualquer outra palavra é banida. O mais moderno é também aí o mais arcaico.

24
O espectáculo é o discurso ininterrupto que a ordem presente faz sobre si própria, o seu monólogo elogioso. É o auto-retrato do poder na época da sua gestão totalitária das condições de existência. A aparência fetichista de pura objectividade nas relações espectaculares esconde o seu carácter de relação entre homens e entre classes: uma segunda natureza parece. dominar o nosso meio ambiente com as suas leis fatais. Mas o espectáculo não é esse produto necessário do desenvolvimento técnico olhado como um desenvolvimento natural. A sociedade do espectáculo é, pelo contrário, a forma que escolhe o seu próprio conteúdo técnico. Se o espectáculo, considerado sob o aspecto restrito dos «meios de comunicação de massa», que são a sua manifestação superficial mais esmagadora, pode parecer invadir a sociedade como uma simples instrumentação, esta não é de facto nada de neutro, mas a instrumentação mesmo que convém ao seu automovimento total. Se as necessidades sociais da época em que se desenvolvem tais técnicas não podem encontrar satisfação senão pela sua mediação, se a administração desta sociedade e todo o contacto entre os homens já não se podem exercer senão por intermédio deste poder de comunicação instantâneo, é porque esta «comunicação» é essencialmente unilateral; de modo que a sua concentração se traduz no acumular nas mãos da administração do sistema existente os meios que Ihe permitem prosseguir esta administração determinada. A cisão generalizada do espectáculo é inseparável do Estado moderno, isto é, da forma geral da cisão na sociedade, produto da divisão do trabalho social e órgão da dominação de classe.

25
A separação é o alfa e o ómega do espectáculo. A institucionalização da divisão social do trabalho, a formação das classes, tinha construído uma primeira contemplação sagrada, a ordem mítica em que todo o poder se envolve desde a origem. O sagrado justificou a ordenação cósmica e ontológica que correspondia aos interesses dos Senhores, ele explicou e embelezou o que a sociedade não podia fazer. Todo o poder separado foi pois espectacular, mas a adesão de todos a uma tal imagem imóvel não significava senão o reconhecimento comum de um prolongamento imaginário para a pobreza da actividade social real, ainda largamente ressentida como uma condição unitária. O espectáculo moderno exprime, pelo contrário, o que a sociedade pode fazer, mas nesta expressão o permitido opõe-se absolutamente ao possível. O espectáculo é a conservação da inconsciência na modificação prática das condições de existência. Ele é o seu próprio produto, e ele próprio fez as suas regras: é um pseudo-sagrado. Ele mostra o que é: o poder separado, desenvolvendo-se em si mesmo no crescimento da produtividade por intermédio do refinamento incessante da divisão do trabalho na parcelarização dos gestos, desde então dominados pelo movimento independente das máquinas; e trabalhando para um mercado cada vez mais vasto. Toda a comunidade e todo o sentido crítico se dissolveram ao longo deste movimento, no qual as forças que puderam crescer, separando-se, ainda não se reencontraram.

26
Com a separarão generalizada do trabalhador e do seu produto perde-se todo o ponto de vista unitário sobre a actividade realizada, toda a comunicação pessoal directa entre os produtores. Na senda do progresso da acumulação dos produtos separados, e da concentração do processo produtivo, a unidade e a comunicação tornam-se o atributo exclusivo da direcção do sistema. O êxito do sistema económico da separação é a proletarização do mundo.

27
Pelo próprio êxito da produção separada enquanto produção do separado, a experiência fundamental ligada nas sociedades primitivas a um trabalho principal está a deslocar-se, no pólo do desenvolvimento do sistema, para o não-trabalho, a inactividade. Mas esta inactividade não está em nada liberta da actividade produtiva: depende desta, é a submissão inquieta e admirativa às necessidades e aos resultados da produção; ela própria é um produto da sua racionalidade. Nela não pode haver liberdade fora da actividade, e no quadro do espectáculo toda a actividade é negada, exactamente como a actividade real foi integralmente captada para a edificação global desse resultado. Assim, a actual «libertação do trabalho», o aumento dos tempos livres, não é de modo algum libertação no trabalho, nem libertação de um mundo moldado por este trabalho. Nada da actividade roubada no trabalho pode reencontrar-se na submissão ao seu resultado.

28
O sistema económico fundado no isolamento é uma produção circular do isolamento. O isolamento funda a técnica, e, em retorno, o processo técnico isola. Do automóvel à televisão, todos os bens seleccionados pelo sistema espectacular são também as suas armas para o reforço constante das condições de isolamento das «multidões solitárias». O espectáculo reencontra cada vez mais concretamente os seus próprios pressupostos.

29
A origem do espectáculo é a perda da unidade do mundo, e a expansão gigantesca do espectáculo moderno exprime a totalidade desta perda: a abstracção de todo o trabalho particular e a abstracção geral da produção do conjunto traduzem-se perfeitamente no espectáculo, cujo modo de ser concreto é justamente a abstracção. No espectáculo, uma parte do mundo representa-se perante o mundo, e é-lhe superior. O espectáculo não é mais do que a linguagem comum desta separação. O que une os espectadores não é mais do que uma relação irreversível no próprio centro que mantém o seu isolamento. O espectáculo reúne o separado, mas reúne-o enquanto separado.

30
A alienação do espectador em proveito do objecto contemplado (que é o resultado da sua própria actividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do espectáculo em relação ao homem que age aparece nisto, os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que Ihos apresenta.
Eis porque o espectador não se sente em casa em nenhum lado, porque o espectáculo está em toda a parte.

31
O trabalhador não se produz a si próprio, ele produz um poder independente. O sucesso desta produção, a sua abundância, regressa ao produtor como abundância da despossessão. Todo o tempo e o espaço do seu mundo se Ihe tornam estranhos com a acumulação dos seus produtos alienados. O espectáculo é o mapa deste novo mundo, mapa que recobre exactamente o seu território. As próprias forças que nos escaparam mostram-se-nos em todo o seu poderio.

32
O espectáculo na sociedade corresponde a um fabrico concreto de alienação. A expansão económica é principalmente a expansão desta produção industrial precisa. O que cresce com a economia, movendo-se para si própria, não pode ser senão a alienação que estava justamente no seu núcleo original.

33
O homem separado do seu produto produz cada vez mais poderosamente todos os detalhes do seu mundo e, assim, encontra-se cada vez mais separado do seu mundo. Quanto mais a sua vida é agora seu produto, tanto mais ele está separado da sua vida.
34
O espectáculo é o capital a um tal grau de acumulação que se toma imagem.
Guy Debord (A Sociedade do Espectáculo Capitulo I)


CAPÍTULO II
A MERCADORIA COMO ESPECTÁCULO

Porque não é senão como categoria universal do ser social total que a mercadoria pode ser compreendida na sua essência autêntica. Não é senão neste contexto que a reificaçáo surgida da relação mercantil adquire uma significação decisiva, tanto pela evolução objectiva da sociedade como pela atitude dos homens em relação a ela, para a submissão da sua consciência às formas nas quais esta reificaçáo se exprime... Esta submissão acresce-se ainda do facto de quanto mais a racionalização e a mecanização do processo de trabalho aumentam, mais a actividade do trabalhador perde o seu carácter de actividade, para se tornar uma atitude contemplativa.
Lukács - História e consciência de classe

35
Neste movimento essencial do espectáculo, que consiste em retomar em si tudo o que existia na actividade humana no estado fluido, para o possuir no estado coagulado, enquanto coisas que se tomaram o valor exclusivo pela sua formulação em negativo do valor vivido, nós reconhecemos a nossa velha inimiga que tão bem sabe parecer à primeira vista qualquer coisa de trivial e compreendendo-se por si própria, quando, pelo contrário, ela é tão complexa e tão cheia de subtilezas metafísicas, a mercadoria.

36
É o princípio do fetichismo da mercadoria, a dominação da sociedade por «coisas supra-sensíveis embora sensíveis» que se realiza absolutamente no espectáculo, onde o mundo sensível se encontra substituído por uma selecção de imagens que existem acima dele, e que ao mesmo tempo se fez reconhecer como o sensível por excelência.

37
O mundo ao mesmo tempo presente e ausente que o espectáculo faz ver é o mundo da mercadoria dominando tudo o que é vivido. E o mundo da mercadoria é assim mostrado como ele é, pois o seu movimento é idêntico ao afastamento dos homens entre si e face ao seu produto global.

38
A perda da qualidade, tão evidente a todos os níveis da linguagem espectacular, dos objectos que ela louva e das condutas que ela regula, não faz senão traduzir os caracteres fundamentais da produção real que repudia a realidade: a forma-mercadoria é de uma ponta a outra a igualdade consigo própria, a categoria do quantitativo. É o quantitativo que ela desenvolve, e ela não se pode desenvolver senão nele.

39
Este desenvolvimento que exclui o qualitativo está ele próprio submetido, enquanto desenvolvimento, à passagem qualitativa: o espectáculo significa que ele transpôs o limiar da sua própria abundância; isto ainda não é verdadeiro localmente senão em alguns pontos, mas é já verdadeiro à escala universal, que é a referência original da mercadoria, referência que o seu movimento prático confirmou, ao reunir a terra como mercado mundial.


40
O desenvolvimento das forças produtivas foi a história real inconsciente que construiu e modificou as condições de existência dos grupos humanos, enquanto condições de sobrevivência, e alargamento destas condições: a base económica de todos os seus empreendimentos. O sector da mercadoria foi, no interior de uma economia natural, a constituição de um excedente de sobrevivência. A produção das mercadorias, que implica a troca de produtos variados entre produtores independentes, pode permanecer durante muito tempo artesanal, contida numa função económica marginal onde a sua verdade quantitativa está ainda encoberta. No entanto, lá onde encontrou as condições sociais do grande comércio e da acumulação dos capitais, ela apoderou-se do domínio total da economia. A economia inteira tornou-se então o que a mercadoria tinha mostra do ser no decurso desta conquista: um processo de desenvolvimento quantitativo. O alargamento incessante do poderio económico sob a forma da mercadoria, que transfigurou o trabalho humano em trabalho-mercadoria, em salariado, conduz cumulativamente a uma abundância na qual a questão primeira da sobrevivência está sem dúvida resolvida, mas de um tal modo que ela deve sempre reencontrar-se; ela é, cada vez, colocada de novo a um grau superior. O crescimento económico liberta as sociedades da pressão natural que exigia a sua luta imediata pela sobrevivência, mas é então do seu libertador que elas não estão libertas. A independência da mercadoria estendeu-se ao conjunto da economia sobre a qual ela reina. A economia transforma o mundo, mas transforma-o somente em mundo da economia. A pseudonatureza na qual o trabalho humano se alienou exige prosseguir ao infinito o seu serviço e este serviço, não sendo julgado e absolvido senão por ele próprio, obtém, de facto, a totalidade dos esforços e dos projectos socialmente lícitos, como seus servidores. A abundância das mercadorias, isto e, da relação mercantil, não pode ser mais do que a sobrevivência aumentada.

41
A dominação da mercadoria exerceu-se, antes do mais, de uma maneira oculta sobre a economia, que ela própria, enquanto base material da vida social, permanecia desapercebida e incompreendida, como o familiar que apesar de tal não é conhecido. Numa sociedade em que a mercadoria concreta permanece rara ou minoritária, e dominação aparente do dinheiro que se apresenta como o emissário munido de plenos poderes que fala em nome de uma potência desconhecida. Com a revolução industrial, a divisão manufactureira do trabalho e a produção maciça para o mercado mundial, a mercadoria aparece efectivamente como uma potência que vem realmente ocupar a vida social. É então que se constitui a economia política. como ciência dominante e como ciência da dominação. O espectáculo é o momento em que a mercadoria chega à ocupação total da vida social. Não só a relação com a mercadoria é visível, como nada mais se vê senão ela: o mundo que se vê é o seu mundo. A produção económica moderna estende a sua ditadura extensiva e intensivamente. Nos lugares menos industrializados, o seu reino já está presente com algumas mercadorias-vedetas e enquanto dominação imperialista pelas zonas que estão à cabeça no desenvolvimento da produtividade. Nestas zonas avançadas, o espaço social está invadido por uma sobreposição contínua de camadas geológicas de mercadorias. Neste ponto da «segunda revolução industrial», o consumo alienado toma-se para as massas um dever suplementar produção alienada. É todo o trabalho vendido de uma sociedade, que se torna globalmente mercadoria total, cujo ciclo deve prosseguir. Para o fazer, é preciso que esta mercadoria total regresse fragmentariamente ao indivíduo fragmentário, absolutamente separado das forças produtivas operando como um conjunto. É, portanto, aqui que a ciência especializada da dominação deve por sua vez especializar-se: ela reduz-se a migalhas, em sociologia, psicotécnica, cibernética, semiologia, etc., velando à auto-regulação de todos os níveis do processo.

43
Ainda que na fase primitiva da acumulação capitalista «a economia política não veja no proletário senão o operário» que deve receber o mínimo indispensável para a conservação da sua força de trabalho, sem nunca o considerar «nos seus lazeres, na sua humanidade», esta posição das ideias da classe dominante reinverte-se assim que o grau de abundância atingido na produção das mercadorias exige um excedente de colaboração do operário. Este operário, subitamente lavado do desprezo total que lhe é claramente feito saber por todas as modalidades de organização e vigilância da produção, reencontra-se, cada dia, fora desta, aparentemente tratado como uma grande pessoa, com uma delicadeza obsequiosa, sob o disfarce do consumidor. Então o humanismo da mercadoria toma a cargo os «lazeres e humanidade» do trabalhador, muito simplesmente porque a economia política pode e deve dominar, agora, estas esferas, enquanto economia política. Assim, «o renegar acabado do homem» tomou a cargo a totalidade da existência humana.

44
O espectáculo é uma permanente guerra do ópio para fazer aceitar a identificação dos bens às mercadorias; e da satisfação à sobrevivência, aumentando segundo as suas próprias leis. Mas se a sobrevivência consumível é algo que deve aumentar sempre, é porque ela não cessa de conter a privação. Se não há nenhum além para a sobrevivência aumentada, nenhum ponto onde ela poderia cessar o seu crescimento, é porque ela própria não está para além da privação, mas é sim a privação tornada mais rica.

45
Com a automação, que é ao mesmo tempo o sector mais avançado da indústria moderna e o modelo em que se resume perfeitamente a sua prática, é necessário que o mundo da mercadoria supere esta contradição: a instrumentação técnica que suprime objectivamente o trabalho deve, ao mesmo tempo, conservar o trabalho como mercadoria, e único lugar de nascimento da mercadoria. Para que a automação, ou qualquer outra forma menos extrema de aumento da produtividade do trabalho, não diminua efectivamente o tempo de trabalho social necessário, à escala da sociedade, é indispensável criar novos empregos. O sector terciário - os serviços - é o imenso alongamento das linhas de etapas do exército da distribuição e do elogio das mercadorias actuais; mobilização de forças supletivas que encontra oportunamente na própria facticidade das necessidades relativas a tais mercadorias a necessidade de uma tal organização da retaguarda do trabalho.

46
O valor da troca não pode formar-se senão como agente do valor de uso, mas a sua vitória pelas suas próprias armas criou as condições da sua dominação autónoma. Mobilizando todo o uso humano e apoderando-se do monopólio da sua satisfação, ela acabou por dirigir o uso. O processo de troca identificou-se a todo o uso possível e reduziu-o à sua mercê. O valor de troca é o condottiere do valor de uso, que acaba por conduzir a guerra por sua própria conta.

47
Esta constante da economia capitalista, que é a baixa tendencial do valor de uso, desenvolve uma nova forma de privação no interior da sobrevivência aumentada, a qual não está, por isso, mais liberta da antiga penúria, visto que exige a participação da grande maioria dos homens, como trabalhadores assalariados, no prosseguimento infinito do seu esforço; e que cada qual sabe que é necessário submeter-se-lhe ou morrer. É a realidade desta chantagem, o facto de o uso sob a sua forma mais pobre (comer, habitar) já não existir senão aprisionado na riqueza ilusória da sobrevivência aumentada, que é a base real da aceitação da ilusão em geral no consumo das mercadorias modernas. O consumidor real toma-se um consumidor de ilusões. A mercadoria é esta ilusão efectivamente real, e o espectáculo a sua manifestação geral.

48
O valor de uso, que estava implicitamente compreendido no valor de troca, deve estar agora explicitamente proclamado na realidade invertida do espectáculo, justamente porque a sua realidade efectiva é corroída pela economia mercantil superdesenvolvida; e porque uma pseudojustificação se torna necessária à falsa vida.

49
O espectáculo é a outra face do dinheiro: o equivalente geral abstracto de todas as mercadorias. Mas se o dinheiro dominou a sociedade enquanto representação da equivalência central, isto é, do carácter permutável dos bens múltiplos cujo uso permanecia incomparável, o espectáculo e o seu complemento moderno desenvolvido, onde a totalidade do mundo mercantil aparece em bloco como uma equivalência geral ao que o conjunto da sociedade pode ser e fazer. O espectáculo é o dinheiro que se olha somente, pois nele é já a totalidade do uso que se trocou com a totalidade da representação abstracta. O espectáculo não é somente o servidor do pseudo-uso. é já, em si próprio, o pseudo-uso da vida.

50
O resultado concentrado do trabalho social, no momento da abundância económica, toma-se aparente e submete toda a realidade à aparência, que é agora seu produto. O capital não é já o centro invisível que dirige o modo de produção: a sua acumulação estende-o até à periferia, sob a forma de objectos sensíveis. Toda a vastidão da sociedade é o seu retracto.

51
A vitória da economia autónoma deve ser, ao mesmo tempo, a sua perda. As forças que ela desencadeou suprimem a necessidade económica que foi a base imutável das sociedades antigas. Quando ela a substitui pela necessidade do desenvolvimento económico infinito, ela não pode senão substituir a satisfação das primeiras necessidades, sumariamente reconhecidas, por uma fabricação ininterrupta de pseudonecessidades que se reduzem à única pseudonecessidade da manutenção do seu reino. Mas a economia autónoma separa-se para sempre da necessidade profunda, na própria medida em que sai do inconsciente social que dela dependia sem o saber. «Tudo o que é consciente se usa. O que é inconsciente permanece inalterável. Mas uma vez liberto, não cai por sua vez em ruínas?» (Freud).

52
No momento em que a sociedade descobre que ela depende da economia, a economia, de facto, depende dela. Esta potência subterrânea, que cresceu até aparecer soberanamente, também perdeu o seu poderio. Lá onde estava o ça (*) económico deve vir o je (*). O sujeito não pode emergir senão da sociedade, isto é, da luta que está nela própria. A sua existência possível está suspensa nos resultados da luta das classes, que se revela como o produto e o produtor da fundação económica da história.

53
A consciência do desejo e o desejo da consciência são identicamente este projecto que, sob a sua forma negativa, quer a abolição das classes, isto é, a posse directa pelos trabalhadores de todos os momentos da sua actividade. O seu contrário é a sociedade do espectáculo onde a mercadoria se contempla a si mesma num mundo que ela criou .
(*) Mantêm-se o original para referenciar o conceito utilizado por Freud (N.T.)

CAPÍTULO III
UNIDADE E DIVISÃO NA APARÊNCIA

Na frente filosófica, desenrola-se no país uma nova e animada polémica a propósito dos conceitos «um divide-se em dois» e «dois fundem-se num». Este debate é uma luta entre os que são por e os que são contra a dialéctica materialista, uma luta entre duas concepções do mundo: a concepção proletária e a concepção burguesa. Os que sustentam que «um divide-se em dois» é a lei fundamental das coisas, mantêm-se do lado da dialéctica materialista; os que sustentam que a lei fundamental das coisas é que «dois fundem-se num», são contra a dialéctica materialista. Os dois lados traçaram uma nítida linha de demarcação entre si e os seus argumentos são diametralmente opostos. Esta polémica reflecte, no plano ideológico, a luta de classe aguda e complexa que se desenrola na China e no mundo.
A Bandeira Vermelha Pequim, 21 de Setembro de 1964

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O espectáculo, como a sociedade moderna, está ao mesmo tempo unido e dividido. Como esta, ele edifica a sua unidade sobre o dilaceramento. A contradição, quando emerge no espectáculo, é por sua vez contradita por uma reinversão do seu sentido; de modo que a divisão mostrada é unitária, enquanto que a unidade mostrada está dividida.

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É a luta de poderes, que se constituíram para a gestão do mesmo sistema socioeconómico, que se desenrola como a contradição oficial, pertencente de facto à unidade real; isto, à escala mundial assim como no interior de cada nação.

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As falsas lutas espectaculares das formas rivais do poder separado são, ao mesmo tempo, reais naquilo em que traduzem o desenvolvimento desigual e conflitual do sistema, os interesses relativamente contraditórios das classes ou das subdivisões de classes que reconhecem o sistema, e definem a sua própria participação no seu poder. Assim como o desenvolvimento da economia mais avançada é o afrontamento de certas prioridades com outras, a gestão totalitária da economia por uma burocracia de Estado e a condição dos países que se encontraram colocados na esfera de colonização ou da semicolonização são definidas por particularidades consideráveis nas modalidades da produção e do poder. Estas diversas aposições podem exprimir-se no espectáculo, segundo critérios completamente diferentes, como formas de sociedades absolutamente distintas. Mas segundo a sua realidade efectiva de sectores particulares, a verdade da sua particularidade reside no sistema universal que as contém: no movimento único que faz do planeta seu campo, o capitalismo.

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Não é somente pela sua hegemonia económica que a sociedade portadora do espectáculo domina as regiões subdesenvolvidas. Domina-as enquanto sociedade do espectáculo. Lá onde a base material ainda está ausente, a sociedade moderna já invadiu espectacularmente a superfície social de cada continente. Ela define o programa de uma classe dirigente e preside à sua constituição. Do mesmo modo que apresenta os pseudobens a cobiçar, ela oferece aos revolucionários locais os falsos modelos de revolução. O próprio espectáculo do poder burocrático, que detêm alguns dos países industriais, faz precisamente parte do espectáculo total, como sua pseudonegacão geral e seu suporte. Se o espectáculo, olhado nas suas diversas localizações, mostra à evidência especializações totalitárias da palavra e da administração sociais, estas acabam por fundir-se, ao nível do funcionamento global do sistema, numa divisão mundial das tarefas espectaculares.

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A divisão das tarefas espectaculares, que conserva a generalidade da ordem existente, conserva principalmente o pólo dominante do seu desenvolvimento. A raiz do espectáculo está no terreno da economia tornada abundante, e é de Iá que vêm os frutos que tendem finalmente a dominar o mercado espectacular, apesar das barreiras proteccionistas ideológico-policiais, qualquer que seja o espectáculo local com pretensão autárquica.


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O movimento de banalização que, sob as diversões cambiantes do espectáculo, domina mundialmente a sociedade moderna, domina-a também em cada um dos pontos onde o consumo desenvolvido das mercadorias multiplicou na aparência os papéis a desempenhar e os objectos a escolher. As sobrevivência da religião e da família - que permanece a forma principal da herança do poder de classe -, e, portanto, da repressão moral que elas asseguram, podem combinar-se como uma mesma coisa. com a afirmação redundante do gozo deste mundo, este mundo não sendo justamente produzido senão como pseudogozo que conserva em si a repressão. A aceitação beata daquilo que existe pode juntar-se como uma mesma coisa a revolta puramente espectacular: isto traduz o simples facto de que a própria insatisfação se tornou uma mercadoria desde que a abundância económica se achou capaz de alargar a sua produção ao tratamento de uma tal matéria-prima.

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Ao concentrar nela a imagem de um possível papel a desempenhar, a vedeta, a representação espectacular do homem vivo, concentra, pois, esta banalidade. A condição de vedeta é a especialização do vivido aparente, o objecto da identificação à vida aparente sem profundidade, que deve compensar a redução a migalhas das especializações produtivas efectivamente vividas. As vedetas existem para figurar tipos variados de estilos de vida e de estilos de compreensão da sociedade, livres de se exercerem globalmente. Elas encarnam o resultado inacessível do trabalho social, ao arremedar subprodutos deste trabalho que são magicamente transferidos acima dele como sua finalidade: o poder e as férias, a decisão e o consumo, que estão no começo e no fim de um processo indiscutido. Lá, é o poder governamental que se personaliza em pseudovedeta; aqui, é a vedeta do consumo que se faz plebiscitar enfuna-to pseudopoder sobre o vivido. Mas, assim como estas actividades da vedeta não são realmente globais, elas não são variadas.
O agente do espectáculo posto em cena como vedeta é o contrário do indivíduo, o inimigo do indivíduo, tanto em si próprio como, evidentemente, nos outros. Passando no espectáculo como modelo de identificação, renunciou a toda a qualidade autónoma, para ele próprio se identificar com a lei geral da obediência ao curso das coisas. A vedeta do consumo, mesmo sendo exteriormente a representação de diferentes tipos de personalidade, mostra cada um destes tipos como tendo igualmente acesso à totalidade do consumo e encontrando aí, de igual modo, a sua felicidade. A vedeta da decisão deve possuir o stock completo daquilo que foi admitido como qualidades humanas. Assim, entre estas, as divergências oficiais são anuladas pela semelhança oficial, que é o pressuposto da sua excelência em tudo. Khruchtchev tinha-se tornado general para decidir da batalha de Kursk, não no terreno, mas no vigésimo aniversário, quando ele se achava senhor do Estado. Kennedy tinha permanecido orador, ao ponto de pronunciar o seu elogio sobre o próprio túmulo, visto que Théodore Sorensen continuava, nesse momento, a redigir para o sucessor os discursos naquele estilo que tanto tinha concorrido para fazer reconhecer a personalidade do desaparecido. As pessoas admiráveis nas quais o sistema se personifica são bem conhecidas por não serem aquilo que são; tornaram-se grandes homens ao descer abaixo da realidade da mais pequena vida individual, e cada qual o sabe.

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A falsa escolha na abundância espectacular, escolha que reside na justaposição de espectáculos concorrenciais e solidários, como na justaposição dos papéis a desempenhar (principalmente significados e trazidos por objectos), que são ao mesmo tempo exclusivos e imbricados, desenvolve-se numa luta de qualidades fantasmagóricas destinadas a apaixonar a adesão à trivialidade quantitativa. Assim renascem falsas aposições arcaicas, regionalismos ou racismos encarregados de transfigurar em superioridade ontológica fantástica a vulgaridade dos lugares hierárquicos no consumo. Deste modo, recompõe-se a interminável série dos afrontamentos irrisórios, mobilizando um interesse sublúdico, do desporto de competição às eleições. Lá onde se instalou o consumo abundante, uma oposição espectacular principal entre a juventude e os adultos vem no primeiro plano dos papéis falaciosos: porque em nenhum lado existe o adulto. senhor da sua vida, e a juventude, a mudança do que existe, não é de modo nenhum a propriedade destes homens, que são agora jovens, mas a do sistema económico, o dinamismo do capitalismo. São as coisas que reinam e que são jovens; que se deitam fora e se substituem a si próprias.

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É a unidade da miséria que se esconde sob as aposições espectaculares. Se formas diversas da mesma alienação se combatem sob as máscaras da escolha total, é porque elas são todas identificadas sobre as contradições reais recalcadas. Conforme as necessidades do estádio particular da miséria, que ele desmente e mantém, o espectáculo existe sob uma forma concentrada ou sob uma forma difusa. Nos dois casos, ele não é mais do que uma imagem de unificação feliz, cercada de desolação e de pavor, no centro tranquilo da infelicidade.

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O espectacular concentrado pertence essencialmente ao capitalismo burocrático, embora possa ser importado como técnica do poder estatal sobre economias mistas mais atrasadas, ou em certos momentos de crise do capitalismo avançado. A própria propriedade burocrática é efectivamente concentrada, no sentido em que o burocrata individual não tem relações com a posse da economia global senão por intermédio da comunidade burocrática, senão enquanto membro desta comunidade. Além disso, a produção menos desenvolvida das mercadorias apresenta-se, também, sob uma forma concentrada: a mercadoria que a burocracia detém é o trabalho social total, e o que ela revende à sociedade é a sua sobrevivência em bloco. A ditadura da economia burocrática não pode deixar às massas exploradas nenhuma margem notável de escolha, visto que ela teve de escolher tudo por si própria , e que toda outra escolha exterior, quer diga respeito à alimentação ou à música, é já a escolha da sua destruição completa. Ela deve acompanhar-se de uma violência permanente. A imagem imposta do bem, no seu espectáculo, recolhe a totalidade do que existe oficialmente e concentra-se normalmente num único homem, que é a garantia da sua coesão totalitária. Com esta vedeta absoluta, deve cada um identificar-se magicamente, ou desaparecer. Pois trata-se do senhor do seu não-consumo, e da imagem heróica de um sentido aceitável para a exploração absoluta, que é na realidade a acumulação primitiva acelerada pelo terror. Se cada chinês deve aprender Mao, e assim ser Mao, é que ele não tem mais nada para ser. Lá onde domina o espectacular concentrado domina também a polícia.

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O espectacular difuso acompanha a abundância das mercadorias, o desenvolvimento não perturbado do capitalismo moderno. Aqui, cada mercadoria considerada isoladamente está justificada em nome da grandeza da produção da totalidade dos objectos, de que o espectáculo é um catálogo apologético. Afirmações inconciliáveis amontoam-se na cena do espectáculo unificado da economia abundante; do mesmo modo que diferentes mercadorias-vedetas sustentam, simultaneamente, os seus projectos contraditórios de ordenação da sociedade, onde o espectáculo dos automóveis implica uma circulação perfeita, que destrói a parte velha da cidade, enquanto o espectáculo da própria cidade tem necessidade de bairros-museus. Portanto, a satisfação já problemática, que é reputada pertencer ao consume do conjunto, está imediatamente falsificada pelo facto de o consumidor real não poder receber directamente mais do que uma sucessão de fragmentos desta felicidade mercantil, fragmentos dos quais a qualidade atribuída ao conjunto está evidentemente ausente.

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Cada mercadoria determinada luta para si própria, não pode reconhecer as outras, pretende impor-se em toda a parte como se fosse a única. O espectáculo é, então, o canto épico deste afrontamento, que a queda de nenhuma Ílion poderia concluir. O espectáculo não canta os homens e as suas armas, mas as mercadorias e as suas paixões. É nesta luta cega que cada mercadoria, ao seguir a sua paixão, realiza, de facto, na inconsciência algo de mais elevado: o devir-mundo da mercadoria, que é também o devir-mercadoria do mundo. Assim, por uma astúcia da razão mercantil o particular da mercadoria gasta-se ao combater, enquanto a forma-mercadoria tende para a sua realização absoluta.

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A satisfação, que a mercadoria abundante já não pode dar no uso, acaba por ser procurada no reconhecimento do seu valor enquanto mercadoria: uso da mercadoria bastando-se a si próprio; e, para o consumidor, a efusão religiosa para com a liberdade soberana da mercadoria. Vagas de entusiasmo para um dado produto, apoiado e relançado por todos os meios de formação, propagam-se, assim, a grande velocidade. Um estilo de roupa surge de um filme; uma revista lança clubes que lançam panóplias diversas. O gadget(*) exprime este facto de, no momento em que a massa das mercadorias cai na aberração, o próprio aberrante se tomar uma mercadoria especial. Nos porta-chaves publicitários, por exemplo, não mais comprados, mas dons suplementares que acompanham objectos de prestigio vendidos, ou que provêm da troca da sua própria esfera, pode-se reconhecer a manifestação de um abandono místico à transcendência da mercadoria. Aquele que colecciona os porta-chaves que acabam de ser fabricados para serem coleccionados acumula as indulgências da mercadoria, um sinal glorioso da sua presença real entre os seus fiéis. O homem reificado proclama a prova da sua intimidade com a mercadoria. Como nos arrebatamentos dos convulsionários ou miraculados do velho fetichismo religioso, o fetichismo da mercadoria atinge momentos de excitação fervente. O único uso que ainda se exprime aqui é o uso fundamental da submissão.


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Sem dúvida, a pseudonecessidade imposta no consumo moderno não pode ser oposta a nenhuma necessidade ou desejo autêntico, que não seja, ele próprio, modelado pela sociedade e sua história. Mas a mercadoria abundante es;tá lá como a ruptura absoluta de um desenvolvimento orgânico das necessidades sociais. A sua acumulação mecânica liberta um artificial ilimitado, perante o qual o desejo vivo fica desarmado. A potência cumulativa de um artificial independente conduz, em toda a parte à, falsificação da vida social.

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Na imagem da unificação feliz da sociedade pelo consumo, a divisão real está somente suspensa até à próxima não-completa realização no consumível. Cada produto particular que deve representar a esperança de um atalho fulgurante para aceder, enfim, à terra prometida do consumo total, é, por sua vez, apresentado cerimoniosamente como a singularidade decisiva. Mas como no caso da difusão instantânea das modas de nomes aparentemente aristocráticos que se vão encontrar usados por quase todos os indivíduos da mesma idade, o objecto do qual se espera um poder singular não pôde ser proposto à devoção das massas senão porque ele foi tirado num número de exemplares suficientemente grande para ser consumido massivamente. O carácter prestigioso deste qualquer produto não Ihe vem senão de ter sido colocado por um momento no centro da vida social, como o mistério revelado da finalidade da produção. O objecto, que era prestigioso no espectáculo, torna-se vulgar no instante em que entra em casa do consumidor ao mesmo tempo que em casa de todos os outros. Ele revela demasiado tarde a sua pobreza essencial, que retira da miséria da sua produção. Mas é já um outro objecto que traz a justificação do sistema e a exigência de ser reconhecido.

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A própria impostura da satisfação deve denunciar-se ao substituir-se ao seguir a mudança dos produtos e das condições gerais da produção. Aquilo que afirmou, com o mais perfeito descaramento, a sua própria excelência definitiva muda não só no espectáculo difuso, mas também no espectáculo concentrado, e é só o sistema que deve continuar: Estaline, como a mercadoria fora de moda, é denunciado por aqueles mesmos que o impuseram. Cada nova mentira da publicidade é também a confissão da sua mentira precedente. Cada derrocada de uma figura do poder totalitário revela a comunidade ilusória que a aprovava unanimemente e que não era mais do que um aglomerado de solidões sem ilusões.

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O que o espectáculo apresenta como perpétuo é fundado sobre a mudança, e deve mudar com a sua base. O espectáculo é absolutamente dogmático e, ao mesmo tempo, não pode levar a nenhum dogma sólido. Para ele nada pára; é o estado que Ihe é natural e, todavia, o mais contrário à sua inclinação.

72
A unidade irreal que o espectáculo proclama é a máscara da divisão de classe sobre a qual repousa a unidade real do modo de produção capitalista. O que obriga os produtores a participar na edificação do mundo é também o que disso os afasta. O que põe em relação os homens libertos das suas limitações locais e nacionais é também o que os distancia. O que obriga ao aprofundamento do racional é também o que alimenta o racional da exploração hierárquica e da repressão. O que faz o poder abstracto da sociedade faz a sua não-liberdade concreta. (*) Em inglês no original (N. T.).
CAPÍTULO IV
O PROLETARIADO COMO SUJEITO E COMO REPRESENTAÇÃO
O direito igual a todos os bens e aos gozos deste mundo, a destruição de toda a autoridade, a negação de todo o freio moral, eis, se descermos ao fundo das coisas, a razão de ser da insurreição de 18 de Março e a carta da temível associação que Ihe forneceu um exército.
Inquérito parlamentar sobre a insurreição de 18 de Março

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O movimento real, que suprime as condições existentes, governa a sociedade a partir da vitória da burguesia na economia, e de forma visível desde a tradução política dessa vitória. O desenvolvimento das forças produtivas rebentou com as antigas relações de produção e toda a ordem estática se desfaz em pó. Tudo o que era absoluto toma-se histórico.

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É sendo lançados na história, devendo participar no trabalho e nas lutas que a constituem, que os homens se vêem obrigados a encarar as suas relações de uma maneira desiludida. Esta história não tem um objecto distinto daquele que ela realiza sobre si própria, se bem que a última visão metafísica inconsciente da época histórica possa ver a progressão produtiva, através da qual a história se desenrolou, como o objecto mesmo da história. O sujeito da história não pode ser senão o vivo produzindo-se a si próprio, tomando-se senhor e possuidor do seu mundo que é a história, e existindo como consciência do seu jogo.

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Como uma mesma corrente, desenvolvem-se as lutas de classes da longa época revolucionária, inaugurada pela ascensão da burguesia, e o pensamento da história, a dialéctica, o pensamento que já não pára à procura do sentido do sendo, mas que se eleva ao conhecimento da dissolução de tudo o que é; e no movimento dissolve toda a separação.

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Hegel já não tinha que interpretar o mundo, mas a transformação do mundo. Interpretando somente a transformação, Hegel não é mais do que o acabamento filosófico da filosofia. Ele quer compreender um mundo que se faz a si próprio. Este pensamento histórico ainda não é senão a consciência que chega sempre tarde de mais, e que enuncia a justificação post festum. Assim, ela não ultrapassou a separação senão no pensamento. O paradoxo, que consiste em suspender o sentido de toda a realidade ao seu acabamento histórico, e em revelar ao mesmo tempo este sentido constituindo-se a si próprio em acabamento da história, resulta do simples facto de o pensador das revoluções burguesas dos séculos XVII e XVIII não ter procurado na sua filosofia senão a reconciliação com o seu resultado. «Mesmo como filosofia da revolução burguesa, ela não exprime todo o processo desta revolução, mas somente a sua última conclusão. Neste sentido, ela é uma filosofia não da revolução, mas da restauração» (Karl Korsch, Teses sobre Hegel e a revolução). Hegel fez, pela última vez, o trabalho do filósofo, «a glorificação do que existe», mas o que existia para ele já não podia ser senão a totalidade do movimento histórico. A posição exterior do pensamento, sendo de facto mantida, não podia ser encoberta senão pela sua identificação a um projecto prévio do Espírito, herói absoluto que fez o que quis e que quis o que fez, e cuja plena realização coincide com o presente. Assim, a filosofia que morre no pensamento da história já não pode glorificar o seu mundo senão renegando-o, porque para tomar a palavra é-lhe já necessário supor acabada esta história total, à qual ela tudo reduziu, e encerrada a sessão do único tribunal onde pode ser pronunciada a sentença da verdade.

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Quando o proletariado manifesta, pela sua própria existência em actos, que este pensamento da história não foi esquecido, o desmentido da conclusão é igualmente a confirmação do método.

78
O pensamento da história não pode ser salvo senão tomando-se pensamento prático; e a prática do proletariado como classe revolucionária não pode ser menos que a consciência histórica operando sobre a totalidade do seu mundo. Todas as correntes teóricas do movimento operário revolucionário saíram de um afrontamento crítico com o pensamento hegeliano, em Marx como em Stirner e Bakunine.

79
O carácter inseparável da teoria de Marx e do método hegeliano é ele próprio inseparável do carácter revolucionário desta teoria, isto é, da sua verdade. É nisto que esta primeira relação foi geralmente ignorada ou mal compreendida, ou ainda denunciada como o fraco daquilo que se tornava falaciosamente uma doutrina marxista. Bernstein, em Socialismo teórico e Social-democracia prática, revela perfeitamente esta ligação do método dialéctico e da tomada de partido histórico ao deplorar as previsões pouco científicas do Manifesto de 1847 sobre a iminência da revolução proletária na Alemanha: «Esta auto-sugestão histórica, tão errada que o primeiro visionário político aparecido nem sequer poderia encontrar melhor, seria incompreensível num Marx, que à época tinha já seriamente estudado a economia, se não se tivesse de ver nela o produto de um resto da dialéctica antitética hegeliana, de que Marx, não mais que Engels, nunca soube desfazer-se completamente. Nesses tempos de efervescência geral, isso foi-lhe tanto mais fatal».

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A reinversão que Marx efectua, através de um «salvamento por transferência» do pensamento das revoluções burguesas, não consiste em substituir trivialmente pelo desenvolvimento materialista das forças produtivas o percurso do Espírito hegeliano, indo ao seu próprio encontro no tempo, a sua objectivação sendo idêntica à sua alienação, e as suas feridas históricas não deixando cicatrizes. A história tomada real já não tem fim. Marx arruinou a posição separada de Hegel perante o que acontece, e a contemplação dum agente supremo exterior, qualquer que ele seja. A teoria já não tem a conhecer senão o que ela faz. É, pelo contrário, a contemplação do movimento da economia, no pensamento dominante da sociedade actual, que é a herança não-reivindicativa da parte não-dialéctica na tentativa hegeliana de um sistema circular: é uma aprovação que perdeu a dimensão do conceito, e que já não tem necessidade dum hegelianismo para se justificar, porque o movimento que se trata de louvar já não é senão um sector sem pensamento do mundo, cujo desenvolvimento mecânico domina efectivamente o todo. O projecto de Marx é o de uma história consciente. O quantitativo que sobrevêm ao desenvolvimento cego das forças produtivas simplesmente económicas deve transformar-se em apropriação histórica qualitativa. A crítica da economia política é o primeiro acto deste fim de pré-história: «De todos os instrumentos de produção, o maior poder produtivo é a própria classe revolucionária.»

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O que liga estreitamente a teoria de Marx ao pensamento científico é a compreensão racional das forças que se exercem realmente na sociedade. Mas ela é fundamentalmente um além do pensamento científico, onde este não é conservado senão sendo superado: trata-se de uma compreensão da luta ,e de nenhum modo da lei. «Nós só Conhecemos uma ciência: a ciência da história», diz A Ideologia Alemã.

82
A época burguesa, que pretende fundar cientificamente a história, negligencia o facto de que esta ciência disponível teve, antes de mais, de ser ela própria fundada historicamente com a economia. Inversamente, a história não depende radicalmente deste conhecimento senão enquanto esta história permanece história económica. Quanto do papel da história na própria economia - o processo global que modifica os seus próprios dados científicos de base - pôde ser, aliás, neglicenciado pelo ponto de vista da observação científica, é o que mostra a vaidade dos cálculos socialistas que acreditavam ter estabelecido a periodicidade exacta das crises; e desde que a intervenção constante do Estado logrou compensar o efeito das tendências à crise, o mesmo género de raciocínio vê neste equilíbrio uma harmonia económica definitiva. O projecto de superar a economia, o projecto de tomar posse da história, se ele deve conhecer - e trazer a si - a ciência da sociedade, não pode, ele mesmo, ser científico. Nesse último movimento, que crê dominar a história presente através de um conhecimento científico, o ponto de vista revolucionário permaneceu burguês.

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As correntes utópicas do socialismo, embora elas própria fundadas historicamente na crítica da organização social existente, podem ser justamente qualificadas de utópicas na medida em que recusam a história - isto é, a luta real em curso, assim como o movimento do tempo para além da perfeição inalterável da sua imagem de sociedade feliz -, mas não porque eles recusassem a ciência. Os pensadores utopistas são, pelo contrário, inteiramente dominados pelo pensamento científico, tal como ele se tinha imposto nos séculos precedentes. Eles procuram o acabamento desse sistema racional geral: eles não se consideram de nenhum modo profetas desarmados, porque crêem no poder social da demonstrarão científica, e mesmo, no caso do saint-simonismo, na tomada do poder pela ciência. Como, diz Sombart, «quereriam eles arrancar pela luta, aquilo que deve ser provado,?» Contudo, a concepção científica dos utopistas não se alarga a este conhecimento de que os grupos sociais têm interesses numa situação existente, forças para a manter, e, igualmente, formas de falsa-consciência correspondentes a tais posições. Ela permanece, portanto, muito aquém da realidade histórica do desenvolvimento da própria ciência, que se encontrou em grande parte orientada pela procura social resultante de tais factores, que selecciona não só o que pode ser admitido, mas também o que pode ser procurado. Os socialistas utópicos, ao ficarem prisioneiros do modo de exposição da verdade científica, concebem esta verdade segundo a sua pura imagem abstracta, tal como a tinha visto impor-se um estádio muito anterior da sociedade. Como o notava Sorel, é segundo o modelo da astronomia que os utopistas pensam descobrir e demonstrar as leis da sociedade. A harmonia por eles visada, hostil à história, decorre duma tentativa de aplicação à sociedade da ciência menos dependente da história. Ela tenta fazer-se reconhecer com a mesma inocência experimental do newtonismo, e o destino feliz, constantemente postulado, «desempenha na sua ciência social um papel análogo ao que cabe à inércia na mecânica racional» (Materiais para uma teoria do proletariado).

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O lado determinista-científico no pensamento de Marx foi justamente a brecha pela qual penetrou o processo de «ideologização», enquanto vivo, e ainda mais na herança teórica deixada ao movimento operário. A chegada do sujeito da história é ainda adiada, e é a ciência histórica por excelência, a economia, que tende cada vez mais a garantir a necessidade da sua própria negação futura. Mas, deste modo, é repelida para fora do campo da visão teórica a prática revolucionária que é a única verdade desta negação. Assim, importa estudar pacientemente o desenvolvimento económico e nele admitir ainda, com uma tranquilidade hegeliana, a dor, o que no seu resultado permanece «cemitério das boas intenções». Descobre-se que agora, segundo a ciência das revoluções, a consciência chega sempre cedo de mais, e deverá ser ensinada. «A história não nos deu razão, a nós e a todos os que pensavam como nós. Ela mostrou claramente que o estado do desenvolvimento económico do continente estava, então, ainda bem longe de estar amadurecido...», dirá Engels em 1895. Durante toda a sua vida, Marx manteve o ponto de vista unitário da sua teoria, mas o enunciado da sua teoria colocou-se no terreno do pensamento dominante ao precisar-se, sob a forma de criticas de disciplinas particulares, principalmente a crítica da ciência fundamental da sociedade burguesa, a economia política. É esta mutilação, ulteriormente aceite como definitiva, que constitui o «marxismo».

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A carência na teoria de Marx é naturalmente a carência da luta revolucionária do proletariado da sua época. A classe operária não decretou a revolução em permanência, na Alemanha de 1848; a Comuna foi vencida no isolamento. A teoria revolucionária não pôde, pois, atingir ainda a sua própria existência total. Ficar reduzido a defendê-la e a precisá-la na separação do trabalho douto, no British Museum, implicava uma perda na própria teoria. São precisamente as justificações científicas tiradas do futuro do desenvolvimento da classe operária, e a prática organizacional combinada com estas justificações, que se tornarão obstáculos à consciência proletária num estádio mais avançado.

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Toda a insuficiência teórica na defesa cientifica da revolução proletária pode ser reduzida, quanto ao conteúdo assim como quanto à forma do enunciado, a uma identificação do proletariado com a burguesia, do ponto de vista da tomada revolucionária do poder.

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A tendência a fundar uma demonstração da legalidade científica do poder proletário, com o argumento de experimentações repetidas do passado, obscurece, desde o Manifesto, o pensamento histórico de Marx, ao fazê-lo sustentar uma imagem linear do desenvolvimento dos modos de produção, impulsionando lutas de classes que terminariam, de cada vez, «por uma transformação revolucionária da sociedade inteira ou pela destruição comum das classes em luta». Mas na realidade observável da história, do mesmo modo que «modo de produção asiático», como Marx algures o constatava, conservou a sua imobilidade apesar de todos os afrontamentos de classes, também as jacqueries de servos nunca venceram os barões, nem as revoltas de escravos da Antiguidade os homens livres. O esquema linear perde de vista, antes de tudo, o facto de que a burguesia é a única classe revolucionária que jamais venceu; ao mesmo tempo que ela é a única para a qual o desenvolvimento da economia foi causa e consequência do seu poder sobre a sociedade. A mesma simplificação conduziu Marx a negligenciar o papel económico do Estado na gestão de uma sociedade de classes. Se a burguesia ascendente pareceu franquear a economia do Estado, é somente na medida em que o Estado antigo se confundia com o instrumento de uma opressão de classe numa economia estática. A burguesia desenvolveu o seu poderio económico autónomo no período medieval de enfraquecimento do Estado, no momento de fragmentação feudal de poderes equilibrados. Mas o Estado moderno que, pelo mercantilismo, começou a apoiar o desenvolvimento da burguesia, e que finalmente se tornou o seu Estado na hora do «laisser faire, laisser passer», vai revelar-se ulteriormente dotado de um poder central na gestão calculada do processo económico. Marx pôde, no entanto, descrever no bonapartismo este esboço da burocracia estatal moderna, fusão do capital e do Estado, constituição de um «poder nacional do capital sobre o trabalho, de uma força pública organizada para a sujeição social», onde a burguesia renuncia a toda a vida histórica que não seja a sua redução à história económica das coisas, e se presta a «ser condenada ao mesmo nada político que as outras classes». Aqui, estão já colocadas as bases sociopolíticas do espectáculo moderno, que, negativamente, define o proletariado como único pretendente à vida histórica.

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As duas únicas classes que correspondem efectivamente à teoria de Marx, as duas classes puras às quais leva toda a análise no Capital, a burguesia e o proletariado, são igualmente as duas únicas classes revolucionárias da história, mas a títulos diferentes: a revolução burguesa está feita; a revolução proletária é um projecto, nascido na base da precedente revolução, mas dela diferindo qualitativamente. Ao negligenciar a originalidade do papel histórico da burguesia encobre-se a originalidade concreta deste projecto proletário, que nada pode atingir senão ostentando as suas próprias cores e conhecendo «a imensidade das suas tarefas». A burguesia veio ao poder porque é a classe da economia em desenvolvimento. O proletariado não pode ele próprio ser o poder, senão tornando-se a classe da consciência. O amadurecimento das forças produtivas não pode garantir um tal poder, mesmo pelo desvio da despossessão crescente que traz consigo. A tomada jacobina do Estado não pode ser um instrumento seu. Nenhuma ideologia Ihe pode servir para disfarçar fins parciais em fins gerais, porque ele não pode conservar nenhuma realidade parcial que seja efectivamente sua.

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Se Marx, num período determinado da sua participação na luta do proletariado, esperou demasiado da previsão científica, ao ponto de criar a base intelectual das ilusões do economismo, sabe-se que a tal não sucumbiu pessoalmente. Numa carta bem conhecida, de 7 de Dezembro de 1867, acompanhando um artigo onde ele próprio critica O Capital, artigo que Engels devia fazer passar na Imprensa como se emanasse de um adversário, Marx expôs claramente o limite da sua própria ciência: «... A tendência subjectiva do autor (que Ihe impunham talvez a sua posição política e o seu passado), isto é, a maneira como ele apresenta aos outros o resultado último do movimento actual, do processo social actual, não tem nenhuma relação com a sua análise real.» Assim Marx, ao denunciar ele próprio as «conclusões tendenciosas» da sua análise objectiva, e pela ironia do «talvez» relativo às escolhas extracientíficas que se Ihe teriam imposto, mostra ao mesmo tempo a chave metodológica da fusão dos dois aspectos.

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É na própria luta histórica que é preciso realizar a fusão do conhecimento e da acção, de tal modo que cada um destes termos coloque no outro a garantia da sua verdade. A constituição da classe proletária em sujeito é a organização das lutas revolucionárias e a organização da sociedade no momento revolucionário:: é aqui que devem existir as condições práticas da consciência, nas quais a teoria da práxis se confirma tomando-se teoria prática. Contudo, esta questão central da organização foi a menos considerada pela teoria revolucionária na época em que se fundava o movimento operário, isto é, quando esta teoria possuía ainda o carácter unitário vindo do pensamento da história (e que ela se tinha justamente dado por tarefa desenvolver até uma prática histórica unitária). É, pelo contrário, o lugar da inconsequência para esta teoria, ao admitir o retomar de métodos de aplicação estatais e hierárquicos copiados da revolução burguesa. As formas de organização do movimento operário desenvolvidas sobre esta renúncia da teoria tenderam por sua vez a interditar a manutenção de uma teoria unitária, dissolvendo-a em diversos conhecimentos especializados e parcelares. Esta alienação ideológica da teoria já não pode, então, reconhecer a verificação prática do pensamento histórico unitário que ela traiu, quando uma tal verificação surge na luta espontânea dos operários; ela pode somente concorrer para reprimir-lhe a manifestação e a memória. Todavia, estas formas históricas aparecidas na luta são justamente o meio prático que faltava à teoria para que ela fosse verdadeira. Elas são uma exigência da teoria, mas que não tinha sido formulada teoricamente. O soviete não era uma descoberta da teoria. E a mais alta verdade teórica da Associação Internacional dos Trabalhadores, era já a sua própria existência na prática.

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Os primeiros sucessos da luta da Internacional levavam-na a libertar-se das influências confusas da ideologia dominante que nela subsistiam. Mas a derrota e a repressão que ela cedo encontrará fizeram passar ao primeiro plano um conflito entre duas concepções da revolução proletária, ambas contendo uma dimensão autoritária, pela qual a auto-emancipação consciente da classe é abandonada. Com efeito, a querela tomada irreconciliável entre os marxistas e os bakuninistas era dupla, tendo ao mesmo tempo por objecto o poder na sociedade revolucionária e a organização presente do movimento, e ao passar dum ao outro destes aspectos, as posições dos adversários invertem-se. Bakunine combatia a ilusão de uma abolição das classes pelo uso autoritário do poder estatal, prevendo a reconstituição de uma classe dominante burocrática e a ditadura dos mais sábios, ou dos que serão reputados como tal. Marx, que acreditava que um amadurecimento inseparável das contradições económicas e da educação democrática dos operários reduziria o papel de um Estado proletário a uma simples fase de legalização de novas relações sociais, impondo-se objectivamente, denunciava em Bakunine e seus partidários o autoritarismo duma elite conspirativa que se tinha deliberadamente colocado acima da Internacional, e que formulava o extravagante desígnio de impor à sociedade a ditadura irresponsável dos mais revolucionários, ou dos que se teriam a si próprios designado como tal. Bakunine recrutava efectivamente os seus partidários sob uma tal perspectiva: «Pilotos invisíveis no meio da tempestade popular, nós devemos dirigi-la, não por um poder ostensivo mas pela ditadura colectiva de todos os aliados. Ditadura sem faixa, sem título, sem direito oficial, e tanto mais poderosa quanto ela não terá nenhuma das aparências do poder». Assim se opuseram duas ideologias da revolução operária, contendo cada uma delas uma critica parcialmente verdadeira, mas perdendo a unidade do pensamento da história e instituindo-se, a si próprias, em autoridades ideológicas. Organizações poderosas, como a social-democracia alemã e a Federação Anarquista Ibérica, serviram fielmente uma e outra destas ideologias; e em toda a parte o resultado foi grandemente diferente do que era desejado.


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O facto de olhar a finalidade da revolução proletária como imediatamente presente constitui, ao mesmo tempo, a grandeza e a fraqueza da luta anarquista real (porque nas suas variantes individualistas, as pretensões do anarquismo permanecem irrisórias). Do pensamento histórico das modernas lutas de classes, o anarquismo colectivista retém unicamente a conclusão, e a sua exigência absoluta desta conclusão traduz-se igualmente no seu desprezo deliberado do método. Assim, a sua crítica da luta política permaneceu abstracta, enquanto a sua escolha da luta económica não se afirmou, ela própria, senão em função da ilusão de uma solução definitiva arrancada de uma só vez nesse terreno, no dia da greve geral ou da insurreição. Os anarquistas têm um ideal a realizar. O anarquismo é a negação ainda ideológica do Estado e das classes, isto é, das próprias condições sociais da ideologia separada. É a ideologia da pura liberdade que iguala tudo e que afasta toda a ideia do mal histórico. Este ponto de vista da fusão de todas as exigências parciais deu ao anarquismo o mérito de representar a recusa das condições existentes no conjunto da vida, e não em tomo de uma especialização crítica privilegiada, mas esta fusão, ao ser considerada no absoluto, segundo o capricho individual, antes da sua realização efectiva condenou também o anarquismo a uma incoerência demasiado fácil de constatar. O anarquismo não tem senão a redizer e a repor em jogo, em cada luta, a sua simples conclusão total, porque esta primeira conclusão era desde a origem identificada com a concretização integral do movimento. Bakunine podia pois escrever em 1873, ao abandonar a Federação do Jura: «Nos últimos nove anos desenvolvemos no seio da Internacional mais ideias do que o necessário para salvar o mundo, se só por si as ideias pudessem salvá-lo, e desafio quem quer que seja a inventar uma nova. O tempo já não está para ideias, mas para factos e actos». Sem dúvida, esta concepção conserva do pensamento histórico do proletariado a certeza de que as ideias devem tornar-se práticas, mas ela abandona o terreno histórico ao supor que as formas adequadas a esta passagem à prática já estão encontradas e não variarão mais.

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Os anarquistas, que se distinguem explicitamente do conjunto do movimento operário pela sua convicção ideológica, vão reproduzir entre si esta separação das competências, ao fornecer um terreno favorável à dominação informal, sobre toda a organização anarquista, dos propagandistas e defensores da sua própria ideologia, especialistas, em regra geral, tanto mais medíocres quanto a sua actividade intelectual se reduz principalmente à repetição de algumas verdades definitivas. O respeito ideológico da unanimidade na decisão favoreceu antes a autoridade incontrolada, na própria organização, de especialistas da liberdade; e o anarquismo revolucionário espera do povo libertado o mesmo género de unanimidade, obtida pelos mesmos meios. De resto, a recusa de considerar a oposição das condições entre uma minoria agrupada na luta actual e a sociedade dos indivíduos livres alimentou uma permanente separarão dos anarquistas no momento da decisão comum, como o mostra o exemplo de uma infinidade de insurreições anarquistas em Espanha, limitadas e esmagadas num plano local.

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A ilusão, sustentada mais ou menos explicitamente no anarquismo autêntico, é a iminência permanente de uma revolução que deverá dar razão à ideologia, e ao modo de organização prático derivado da ideologia, ao realizar-se instantaneamente. O anarquismo conduziu realmente, em 1936, uma revolução social e o esboço, o mais avançado de sempre, de um poder proletário. Nesta circunstância, é preciso ainda notar, por um lado, que o sinal de uma insurreição geral tinha sido imposto pelo pronunciamento do exército. Por outro lado, na medida em que esta revolução não tinha sido concluída nos primeiros dias, pela existência de um poder franquista em metade do país, apoiado fortemente pelo estrangeiro no momento em que o resto do movimento proletário internacional já estava vencido, e pela sobrevivência das forças burguesas ou de outros partidos operários estatalistas no campo da República, o movimento anarquista organizado mostrou-se incapaz de alargar as meias-vitórias da revolução, e até mesmo de as defender. Os seus chefes reconhecidos tornaram-se ministros e reféns do Estado burguês que destruía a revolução para perder a guerra civil.

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O «marxismo ortodoxo» da II Internacional é a ideologia científica da revolução socialista, que identifica toda a sua verdade ao processo objectivo na economia e ao progresso dum reconhecimento desta necessidade na classe operária educada pela organização. Esta ideologia reencontra a confiança na demonstração pedagógica que tinha caracterizado o socialismo utópico, mas dotado de uma referência contemplativa ao curso da história: porém, uma tal atitude perdeu tanto a dimensão hegeliana de uma história total como perdeu a imagem imóvel da totalidade presente na crítica utopista (no mais alto grau, em Fourier).
É de uma tal atitude científica, que não podia fazer menos que relançar simetricamente escolhas éticas, que procedem as tolices de Hilferding quando este precisa que reconhecer a necessidade do socialismo não dá «indicação sobre a atitude prática a adoptar. Porque uma coisa é reconhecer uma necessidade, e uma outra é pôr-se ao serviço desta necessidade» (Capital financeiro). Aqueles que não reconheceram que o pensamento unitário da história, para Marx e para o proletariado revolucionário, não ara nada de distinto de uma atitude prática a adoptar, deviam normalmente ser vítimas da prática que tinham simultaneamente adoptado.

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A ideologia da organização social-democrata submetia-a ao poder dos professores que educavam a classe operária, e a forma de organização adoptada era a forma adequada a esta aprendizagem passiva. A participação dos socialistas da II Internacional nas lutas políticas e económicas era certamente concreta, mas profundamente não critica. Ela era conduzida, em nome da ilusão revolucionária, segundo uma prática manifestamente reformista. Assim, a ideologia revolucionária devia ser despedaçada pelo próprio sucesso daqueles que consigo a traziam. A separação dos deputados e dos jornalistas no movimento arrastava para o modo de vida burguês aqueles mesmos que eram recrutados entre os intelectuais burgueses. A burocracia sindical constituía em correctores da força de trabalho, a vender como mercadoria ao seu justo preço, aqueles mesmos que eram recrutados a partir das lutas dos operários industriais e deles extraídos. Para que a actividade de todos eles conservasse algo de revolucionário, teria sido necessário que o capitalismo se encontrasse oportunamente incapaz de suportar economicamente este reformismo que politicamente ele tolerava na sua agitação legalista. É uma tal incompatibilidade que a sua ciência garantia; e que a história desmentia a cada instante.

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Esta contradição, cuja realidade Bernstein, por ser o social-democrata mais afastado da ideologia política e o mais francamente ligado à metodologia da ciência burguesa, teve a honestidade de querer mostrar - e o movimento reformista dos operários ingleses, ao prescindir da ideologia revolucionária, tinha-o mostrado também - não devia, contudo, ser demonstrada sem réplica senão pelo próprio desenvolvimento histórico. Bernstein, embora cheio de ilusões quanto ao resto, tinha negado que uma crise da produção capitalista viesse miraculosamente obrigar os socialistas ao poder que não queriam herdar da revolução senão por esta legítima sagração. O momento de profunda perturbação social que surgiu com a primeira guerra mundial, embora tivesse sido fértil em tomada de consciência, demonstrou duplamente que a hierarquia social-democrata não tinha de modo algum tornado teóricos os operários alemães: de início, quando a grande maioria do partido aderiu à guerra imperialista, em seguida, quando na derrota ela esmagou os revolucionários spartakistas. O ex-operário Ebert acreditava ainda no pecado, porque confessava odiar a revolução «como o pecado». E o mesmo dirigente mostrou-se bom precursor da representação socialista que devia, pouco depois, opor-se como inimigo absoluto ao proletariado da Rússia e de algures, ao formular o programa exacto desta nova alienação: «O socialismo quer dizer trabalhar muito.»
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Lenine não foi, como pensador, marxista, senão Kautskista fiel e consequente, que aplicava a ideologia revolucionária deste «marxismo ortodoxo» nas condições russas, condições que não permitiam a prática reformista que a II Internacional seguia em contrapartida. A direcção exterior do proletariado, agindo por intermédio de um partido clandestino disciplinado, submetido aos intelectuais que se tornaram «revolucionários profissionais», constitui aqui uma profissão que não quer pactuar com nenhuma profissão dirigente da sociedade capitalista (o regime czarista sendo, de resto, incapaz de oferecer uma tal abertura, cuja base é um estádio avançado do poder da burguesia). Ela toma-se, pois, a profissão da direcção absoluta da sociedade.

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O radicalismo ideológico autoritário dos bolcheviques estendeu-se, à escala mundial, com a guerra e com o desmoronamento da social-democracia internacional perante a guerra. O fim sangrento das ilusões democráticas do movimento operário tinha feito do mundo inteiro uma Rússia, e o bolchevismo, reinando sobre a primeira ruptura revolucionária que esta época de crise tinha trazido, oferecia ao proletariado de todos os países o seu modelo hierárquico e ideológico, para «falar em russo» à classe dominante. Lenine não criticou ao marxismo da II Internacional o ser uma ideologia revolucionária, mas o ter deixado de o ser.

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O mesmo momento histórico, em que o bolchevismo triunfou para si mesmo na Rússia, e onde a social-democracia combateu vitoriosamente para o velho mundo, marca o nascimento acabado de uma ordem de coisas que está no coração da dominação do espectáculo moderno: a representação operária opôs-se radicalmente à classe.

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« Em todas as revoluções anteriores, escrevia Rosa Luxemburgo na Rote Fahne de 21 de Dezembro de 1918, os combatentes afrontavam-se de cara descoberta: classe contra classe, programa contra programa. Na presente revolução, as tropas de protecção da antiga ordem não intervêm sob a insígnia das classes dirigentes, mas sob a bandeira de um "partido social-democrata". Se a questão central da revolução estivesse posta aberta e honestamente, capitalismo ou socialismo, nenhuma dúvida, nenhuma hesitação seriam hoje possíveis na grande massa do proletariado.» Assim, alguns dias antes da sua destruição, a corrente radical do proletariado alemão descobria o segredo das novas condições que todo o processo anterior havia criado (para o qual a representação operária tinha grandemente contribuído): a organização espectacular da defesa da ordem existente, o reino central das aparências onde nenhuma «questão central» se pode já pôr «aberta e honestamente». A representação revolucionária do proletariado neste estádio tinha-se tornado, ao mesmo tempo, o factor principal e o resultado central da falsificação geral da sociedade.

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A organização do proletariado segundo o modelo bolchevique, que tinha nascido do atraso russo e da demissão do movimento operário dos países avançados quanto à luta revolucionária, encontrou, também no atraso russo, todas as condições que levavam esta forma de organização a uma reinversão contra-revolucionária que ela inconscientemente continha no seu germe original; a demissão reiterada da massa do movimento operário europeu perante o Hic Rhodus, hic salta do período de 1918-1920, demissão que incluía a destruição violenta da sua minoria radical, favoreceu o desenvolvimento completo do processo e dele deixou o resultado mentiroso, perante o mundo, como a única solução proletária. O apoderar-se do monopólio estatal da representação e da defesa do poder dos operários, que o partido bolchevique justificou, fê-lo tornar-se o que ele era: o partido dos proprietários do proletariado, eliminando no essencial as formas precedentes de propriedade.

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Todas as condições da liquidação do czarismo, encaradas no debate teórico sempre insatisfatório das diversas tendências da social-democracia russa, havia vinte anos - fraqueza da burguesia, peso da maioria camponesa, papel decisivo de um proletariado concentrado e combativo, mas extremamente minoritário no país - revelaram, afinal, na prática a sua solução, através de um dado que não estava presente nas hipóteses: a burocracia revolucionária que dirigia o proletariado, ao apoderar-se do Estado, deu à sociedade uma nova dominação de classe. A revolução estritamente burguesa era impossível; a «ditadura democrática dos operários e dos camponeses» era vazia de sentido; o poder proletário dos sovietes não podia manter-se, ao mesmo tempo, contra a classe dos camponeses proprietários, a reacção branca nacional e internacional, e a sua própria representação exteriorizada e alienada, em partido operário dos senhores absolutos do Estado, da economia, da expressão, e dentro em breve do pensamento. A teoria da revolução permanente de Trotsky e Parvus, à qual Lenine aderiu efectivamente em Abril de 1917, era a única a tomar-se verdadeira para os países atrasados em relação ao desenvolvimento social da burguesia, mas só depois da introdução deste factor desconhecido que era o poder de classe da burocracia. A concentração da ditadura nas mãos da representação suprema da ideologia foi defendida da maneira mais consequente por Lenine, nos numerosos afrontamentos da direcção bolchevique. Lenine tinha cada vez mais razão contra os seus adversários naquilo que ele sustentava ser a solução implicada pelas escolhas precedentes do poder absoluto minoritário: a democracia, recusada estatalmente aos camponeses, devia sê-lo aos operários, o que levava a recusá-la aos dirigentes comunistas dos sindicatos, em todo o partido, e finalmente até ao topo do partido hierárquico. No X Congresso, no momento em que o soviete de Kronstadt era abatido pelas armas e enterrado sob a calúnia, Lenine pronunciava contra os burocratas esquerdistas, organizados em «Oposição Operária», esta conclusão, de que Estaline iria alargar a lógica até uma perfeita divisão do mundo: «Aqui ou lá com uma espingarda, mas não com a oposição... Estamos fartos da oposição.»

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A burocracia, ficando única proprietária de um capitalismo de Estado, assegurou, antes do mais, o seu poder no interior através de uma aliança temporária com o campesinato, após Kronstadt, aquando da «nova política económica», tal como o defendeu no exterior, utilizando os operários arregimentados nos partidos burocráticos da III Internacional como força de apoio da diplomacia russa, para sabotar todo o movimento revolucionário e sustentar governos burgueses de que ela esperava um apoio em política internacional (O poder do Kuo-Ming-Tang na China de 1925--1927, a Frente Popular em Espanha e em Franca, etc.). Mas a sociedade burocrática devia prosseguir o seu próprio acabamento pelo terror exercido sobre o campesinato para realizar a acumulação capitalista primitiva mais brutal da história. Esta industrialização da época estalinista revela a realidade última da burocracia: ela é a continuação do poder da economia, a salvação do essencial da sociedade mercantil mantendo o trabalho-mercadoria. É prova da economia independente que domina a sociedade ao ponto de recriar para os seus próprios fins a dominação de classe que Ihe é necessária: o que se resume em dizer que a burguesia criou um poder autónomo que, enquanto subsistir esta autonomia, pode ir até ao prescindir de uma burguesia. A burocracia totalitária não é «a última classe proprietária da história» no sentido de Bruno Rizzi, mas somente uma classe dominante de substituição para a economia mercantil. A propriedade privada capitalista desfalecente é substituída por um subproduto simplificado, menos diversificado, concentrado em propriedade colectiva da classe burocrática. Esta forma subdesenvolvida de classe dominante é também a expressão do subdesenvolvimento económico; e não tem outra perspectiva senão a de recuperar o atraso deste desenvolvimento em certas regiões do mundo. É o partido operário, organizado segundo o modelo burguês da separação, que forneceu o quadro hierárquico-estatal a esta edição suplementar da classe dominante. Anton Ciliga notava, numa prisão de Estaline, que «as questões técnicas de organização revelavam-se ser questões sociais» (Lenine e n revolução.

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A ideologia revolucionária, a coerência do separado de que o leninismo constitui o mais alto esforço voluntarista, ao deter a gestão de uma realidade que a rejeita, com o estalinismo voltará à sua verdade na incoerência. Nesse momento, a ideologia já não é uma arma, mas um fim. A mentira que não é mais desmentida torna-se loucura. A realidade, assim como a finalidade, são dissolvidas na proclamação ideológica totalitária: tudo o que ela diz é tudo o que é. É um primitivismo local do espectáculo, cujo papel é, todavia, essencial no desenvolvimento do espectáculo mundial. A ideologia que se materializa aqui não transformou economicamente o mundo, como o capitalismo chegado ao estádio da abundância; ela só transformou policialmente a percepção.

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A classe ideológica totalitária no poder é o poder de um mundo reinvertido: quanto mais ela é forte, mais ela afirma que não existe, e a sua força serve-lhe antes do mais para afirmar a sua inexistência. Ela é modesta nesse único ponto, porque a sua inexistência oficial deve também coincidir com o nec plus ultra do desenvolvimento histórico, que simultaneamente se deveria ao seu infalível comando. Exposta por toda a parte a burocracia deve ser a classe invisível para a consciência, de forma que e toda a vida social que se torna demente. A organização social da mentira absoluta decorre desta contradição fundamental.

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O estalinismo foi o reino do terror na própria classe burocrática. O terrorismo que funda o poder desta classe deve também atingir esta classe, porque ela não possui nenhuma garantia jurídica, nenhuma existência reconhecida enquanto classe proprietária que ela poderia alargar a cada um dos seus membros. A sua propriedade real está dissimulada, e ela não se tomou proprietária senão pela via da falsa consciência. A falsa consciência não mantém o seu poder absoluto senão pelo terror absoluto, onde todo o verdadeiro motivo acaba por perder-se. Os membros da classe burocrática no poder não têm o direito de posse sobre a sociedade senão colectivamente, enquanto participantes numa mentira fundamental: é precise que eles desempenhem o papel do proletariado dirigindo uma sociedade socialista; que sejam os actores fiéis ao texto da infidelidade ideológica. Mas a participação efectiva neste ser mentiroso deve, ela própria, ver-se reconhecida como uma participação verídica. Nenhum burocrata pode sustentar individualmente o seu direito ao poder, pois provar que é um proletário socialista seria manifestar-se como o contrário de um burocrata; e provar que é um burocrata é impossível, uma vez que a verdade oficial da burocracia é a de não ser. Assim, cada burocrata está na dependência absoluta de uma garantia central da ideologia, que reconhece uma participação colectiva ao seu «poder socialista» de todos os burocratas que ela no aniquila. Se os burocratas, considerados no seu conjunto, decidem de tudo, a coesão da sua própria classe não pode ser assegurada senão pela concentração do seu poder terrorista numa só pessoa. Nesta pessoa reside a única verdade prática da mentira no poder: a fixação indiscutível da sua fronteira sempre rectificada. Estaline decide sem apelo quem é finalmente burocrata possuidor; isto é, quem deve ser chamado «proletário no poder» ou então «traidor a soldo do Mikado e de Wall Street». Os átomos burocráticos não encontram a essência comum do seu direito senão na pessoa de Estaline. Estaline é esse soberano do mundo que se sabe deste modo a pessoa absoluta, para a consciência da qual não existe espírito mais alto. «O soberano do mundo possui a consciência efectiva do que ele é - o poder universal da efectividade - na violência destrutiva que exerce contra o Soi (*) dos seus sujeitos fazendo-lhe contraste.» Ao mesmo tempo que é o poder que define o terreno da dominação, ele é «o poder devastando esse terreno».


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Quando a ideologia, tornada absoluta pela posse do poder absoluto, se transforma de um conhecimento parcelar numa mentira totalitária, o pensamento da história foi tão perfeitamente aniquilado que a própria história, ao nível do conhecimento mais empírico, já não pode existir. A sociedade burocrática totalitária vive num presente perpétuo, onde tudo o que sobreveio existe somente para ela como um espaço acessível à sua polícia. O projecto, já formulado por Napoleão, de «dirigir monarquicamente a energia das recordações» encontrou a sua concretização total numa manipulação permanente do passado, não só nos significados mas também nos factos. Mas o preço deste franqueamento de toda a realidade histórica é a perda de referência racional que é indispensável à sociedade histórica do capitalismo. Sabe-se o que a aplicação científica da ideologia esquecida pôde custar à economia russa, quanto mais não seja com a impostura de Lyssenko. Esta contradição da burocracia totalitária administrando uma sociedade industrializada, colhida entre a sua necessidade do racional e a sua recusa do racional, constitui também uma das deficiências principais face ao desenvolvimento capitalista normal. Do mesmo modo que a burocracia não pode resolver, como este, a questão da agricultura, ela é-lhe finalmente inferior na produção industrial, planificada autoritariamente na base do irrealismo e da mentira generalizada.

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O movimento operário revolucionário entre as duas guerras foi aniquilado pela acção conjugada da burocracia estalinista e do totalitarismo fascista que tinha copiado a sua forma de organização do partido totalitário experimentado na Rússia. O fascismo foi uma defesa extremista da economia burguesa, ameaçada pela crise e pela subversão proletária, o estado de sitio na sociedade capitalista, pelo qual esta sociedade se salva e se dota de uma primeira racionalização de urgência, fazendo intervir maciçamente o Estado na sua gestão. Mas uma tal racionalização é, ela própria, agravada pela imensa irracionalidade do seu meio. Se o fascismo se lança na defesa dos principais pontos da ideologia burguesa tornada conservadora (a família, a propriedade, a ordem moral, a nação), reunindo a pequena burguesia e os desempregados desnorteados pela crise ou desiludidos pela impotência da revolução socialista, ele próprio não é fundamentalmente ideológico. Ele apresenta-se como aquilo que é: uma ressurreição violenta do mito, que exige a participação numa comunidade definida por pseudovalores arcaicos: a raça, o sangue, o chefe. O fascismo é o arcaísmo tecnicamente equipado. O seu ersatz decomposto do mito é retomado no contexto espectacular moderno, do mesmo modo que a sua parte na destruição do antigo movimento operário faz dele uma das potências fundadoras da sociedade presente; mas como também acontece que o fascismo é a forma mais dispendiosa da manutenção da ordem capitalista, ele devia normalmente abandonar a boca da cena que ocupam os grandes papéis desempenhados pelos Estados capitalistas, eliminado por formas mais racionais e mais fortes desta ordem.

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Quando a burocracia russa consegue enfim desfazer-se dos traços da propriedade burguesa que entravam o seu reino sobre a economia, desenvolvê-la para o seu próprio uso, e ser reconhecida no exterior entre as grandes potências, ela quer desfrutar calmamente do seu próprio mundo, suprimindo esta porção de arbitrário que se exercia sobre si própria: ela denuncia o estalinismo da sua origem. Mas uma tal denúncia permanece estalinista, arbitrária, inexplicada e incessantemente corrigida, porque a mentira ideológica da sua origem nunca pode ser revelada. Assim, a burocracia não pode liberalizar-se nem culturalmente nem politicamente porque a sua existência como classe depende do seu monopólio ideológico que, com toda a sua grosseria, é o seu único título de propriedade. A ideologia perdeu certamente a paixão da sua afirmação positiva, mas o que dela subsiste de trivialidade indiferente tem ainda esta função repressiva de interditar a mínima concorrência, de manter cativa a totalidade do pensamento. A burocracia está, assim, ligada a uma ideologia em que já ninguém acredita. O que era terrorista tornou-se irrisório, mas esta mesma irrisão não pode manter-se senão conservando em segundo plano o terrorismo de que ela queria desfazer-se. Assim, no próprio momento em que a burocracia quer demonstrar a sua superioridade no terreno do capitalismo, ela confessa-se um parente pobre do capitalismo. Do mesmo modo que a sua história efectiva está em contradição com o seu direito, e a sua ignorância grosseiramente mantida em contradição com as suas pretensões cientificas, o seu projecto de rivalizar com a burguesia na produção duma abundância mercantil é entravado pelo facto de uma tal abundância trazer em si mesma a sua ideologia implícita, e reveste-se normalmente duma liberdade indefinidamente extensa de falsas escolhas espectaculares, pseudoliberdade que permanece inconciliável com a ideologia burocrática.

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Neste momento do desenvolvimento, o título de propriedade ideológica da burocracia já se desmorona à escala internacional. O poder, que se tinha estabelecido nacionalmente enquanto modelo fundamentalmente internacionalista, deve admitir que já não pode pretender manter a sua coesão mentirosa para além de cada fronteira nacional. O desigual desenvolvimento económico que conhecem as burocracias, de interesses concorrentes, que conseguiram possuir o seu «socialismo» fora dum só país, conduziu ao afrontamento público e completo da mentira russa e da mentira chinesa. A partir deste ponto, cada burocracia no poder, ou cada partido totalitário candidato ao poder deixado pelo período estalinista em algumas classes operárias nacionais, deve seguir a sua própria via. Juntando-se às manifestações de negação interior que começaram a afirmar-se perante o mundo com a revolta operária de Berlim-Leste, opondo aos burocratas a sua exigência de «um governo de metalúrgicos» e que já uma vez foram até ao poder dos conselhos operários da Hungria, a decomposição mundial da aliança da mistificação burocrática é, em última análise, o factor mais desfavorável para o desenvolvimento actual da sociedade capitalista. A burguesia está em vias de perder o adversário que a sustentava objectivamente ao unificar ilusoriamente toda a negação da ordem existente. Uma tal divisão do trabalho espectacular vê o seu fim quando o papel pseudo-revolucionário se divide por sua vez. O elemento espectacular da dissolução do movimento operário vai ser ele próprio dissolvido.


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A ilusão leninista já não tem outra base actual senão nas diversas tendências trotskistas, onde a identificação do projecto proletário a uma organização hierárquica da ideologia sobrevive inabalavelmente à experiência de todos os seus resultados. A distância que separa o trotskismo da crítica revolucionaria da sociedade presente, permite também a distância respeitosa que ele observa em relação a posições que eram já falsas quando foram usadas num combate real. Trotsky permaneceu até 1927 fundamentalmente solidário da alta burocracia, procurando mesmo apoderar-se dela para Ihe fazer retomar uma acção realmente bolchevique no exterior (sabe-se que, nesse momento, para ajudar a dissimular o famoso «testamento de Lenine», ele foi ao ponto de desmentir caluniosamente o seu partidário Max Eastman, que o tinha divulgado). Trotsky foi condenado pela sua perspectiva fundamental, porque no momento em que a burocracia se conhece a si própria no seu resultado como classe contra-revolucionária no interior, ela deve escolher também ser efectivamente contra-revolucionária no exterior, em nome da revolução, como em sua casa. A luta ulterior de Trotsky por uma IV internacional contém a mesma inconsequência. Ele recusou toda a sua vida reconhecer na burocracia o poder de uma classe separada, porque ele se tinha tornado durante a segunda revolução russa o partidário incondicional da forma bolchevique de organização. Quando Lukács, em 1923, mostrava nesta forma a mediação enfim encontrada entre a teoria e a prática, onde os proletários deixam de ser «espectadores» dos acontecimentos ocorridos na sua organização para conscientemente os escolherem e viverem, ele descrevia como méritos efectivos do partido bolchevique tudo o que o partido bolchevique não era. Lukács era ainda, a par do seu profundo trabalho teórico, um ideólogo, falando em nome do poder mais vulgarmente exterior ao movimento proletário, crendo e fazendo crer que ele próprio se reconhecia, com a sua personalidade total, nesse poder como no seu próprio. Porquanto o seguimento manifestasse de que maneira esse poder desmente e suprime os seus lacaios, Lukács, desmentindo-se a si mesmo sem fim, fez ver com uma nitidez caricatural aquilo a que se tinha exactamente identificado: ao contrário de si-mesmo, e do que ele tinha defendido na História e Consciência de Classe. Lukács verifica o melhor possível a regra fundamental que julga todos os intelectuais deste século: o que eles respeitam mede exactamente a sua própria realidade desprezível. Lenine não tinha, no entanto, lisonjeado muito este género de ilusões sobre a sua actividade, ele que convinha que «um partido político não pode examinar os seus membros para ver se há contradições entre a filosofia destes e o programa do partido». O partido real, de que Lukács tinha apresentado fora do tempo o retracto sonhado, não era coerente senão para uma tarefa precisa e parcial: apoderar-se do poder no Estado.

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A ilusão neoleninista do trotskismo actual, porque é a cada momento desmentida pela realidade da sociedade capitalista moderna, tanto burguesa como burocrática, encontra naturalmente um campo de aplicação privilegiado nos países «subdesenvolvidos» formalmente independentes, onde a ilusão de uma qualquer variante de socialismo estatal e burocrático é conscientemente manipulada como a simples ideologia do desenvolvimento económico, pelas classes dirigentes locais. A composição híbrida destas classes relaciona-se mais ou menos nitidamente com uma degradação sobre o espectro burguesia-burocracia. O seu jogo, à escala internacional entre estes dois pólos do poder capitalista existente, assim como os seus compromissos ideológicos - nomeadamente com o islamismo -, exprimindo a realidade híbrida da sua base social, acabam por retirar a este último subproduto do socialismo ideológico toda a seriedade, salvo a policial. Uma burocracia pôde formar-se enquadrando a luta nacional e a revolta agrária dos camponeses: ela tende então, como na China, a aplicar o modelo estalinista de industrialização numa sociedade menos desenvolvida que a Rússia de 1917. Uma burocracia capaz de industrializar a nação pode formar-se a partir da pequena burguesia, dos quadros do exército tomando o poder, como o mostra o exemplo do Egipto. Em certos pontos, como a Argélia no fim da sua guerra de independência, a burocracia, que se constituiu como direcção para-estatal durante a luta, procura um ponto de equilíbrio de um compromisso para se fundir com uma fraca burguesia nacional. Enfim, nas antigas colónias da África negra que continuam abertamente ligadas à burguesia ocidental, americana ou europeia, uma burguesia constitui-se - a maior parte das vezes a partir do poder dos chefes tradicionais do tribalismo - pela posse do Estado: nestes países onde o imperialismo estrangeiro permanece o verdadeiro senhor da economia, chega um estádio onde os compradores (**) receberam, em compensação da sua venda dos produtos indígenas, a propriedade de um Estado indígena, independente face às massas locais mas não face ao imperialismo. Neste caso, trata-se de uma burguesia artificial que não é capaz de acumular, mas que simplesmente delapida, tanto a parte de mais valia do trabalho local que Ihe cabe, como os subsídios estrangeiros dos Estados ou monopólios que são seus protectores. A evidência da incapacidade destas classes burguesas a desempenhar a função económica normal da burguesia ergue perante cada uma delas uma subversão segundo o modelo burocrático mais ou menos adaptado às particularidades locais que quer apoderar-se da sua herança. Mas o próprio êxito de uma burocracia no seu projecto fundamental de industrialização contém necessariamente a perspectiva do seu revés histórico: ao acumular o capital ela acumula o proletariado, e cria o seu próprio desmentido, num país onde ele ainda não existia.

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Neste desenvolvimento complexo e terrível, que arrastou a época das lutas de classes para novas condições, o proletariado dos países industrializados perdeu completamente a afirmação da sua perspectiva autónoma e, em última análise, as suas ilusões, mas não o seu ser. Ele não foi suprimido. Permanece irredutivelmente existente na alienação intensificada do capitalismo moderno: ele é a imensa maioria dos trabalhadores que perderam todo o poder sobre o emprego da sua vida, e que, desde que o sabem, se redefinem como o proletariado, o negativo em marcha nesta sociedade. Este proletariado é, objectivamente, reforçado pelo movimento do desaparecimento do campesinato, como pela extensão da lógica do trabalho na fábrica, que se aplica a uma grande parte dos «serviços» e das profissões intelectuais. É subjectivamente que este proletariado está ainda afastado da sua consciência prática de classe, não só nos empregados, mas também nos operários que ainda não descobriram senão a impotência e a mistificação da velha política. Porém, quando o proletariado descobre que a sua própria força exteriorizada concorre para o reforço permanente da sociedade capitalista, já não só sob a forma de trabalho seu, mas também sob a forma dos sindicatos, dos partidos ou do poder estatal que ele tinha constituído para se emancipar, descobre também pela experiência histórica concreta que ele é a classe totalmente inimiga de toda a exteriorização petrificada e de toda a especialização do poder. Ele traz a revolução que não pode deixar nada no exterior de si própria, a exigência da dominação permanente do presente sobre o passado, e a crítica total da separação; e é disto que ele deve encontrar a forma adequada na acção. Nenhuma melhoria quantitativa da sua miséria, nenhuma ilusão de integração hierárquica é um remédio durável para a sua insatisfação, porque o proletariado não pode reconhecer-se veridicamente num dano particular que teria sofrido, nem, portanto, na reparação de um dano particular, nem de um grande número desses danos, mas somente no dano absoluto de estar posto à margem da vida.

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Aos novos sinais de negação, incompreendidos e falsificados pela ordenação espectacular, que se multiplicam nos países mais avançados economicamente, pode-se já tirar a conclusão de que uma nova época está aberta: depois da primeira tentativa de subversão operária, é agora a abundância capitalista que falhou. Quando as lutas anti-sindicais dos operários ocidentais são reprimidas primeiro que tudo pelos sindicatos, e quando as correntes revoltadas da juventude lançam um primeiro protesto informe, no qual, porém a recusa da antiga política especializada, da arte e da vida quotidiana, está imediatamente implicada, estão aí as duas faces de uma nova luta espontânea que começa sob o aspecto criminal. São os signos precursores do segundo assalto proletário contra a sociedade de classe. Quando os enfants perdus (1) deste exército ainda imóvel reaparecem nesse terreno que se tornou outro e permaneceu o mesmo, eles seguem um novo «general Ludd», que desta vez os lança na destruição das máquinas do consumo permitido.

116
« A forma política enfim descoberta, sob a qual a emancipação económica do trabalho podia ser realizada», tomou neste século uma nítida forma nos Conselhos operários revolucionários, concentrando neles todas as funções de decisão e de execução, e federando-se por intermédio de delegados responsáveis perante a base e revogáveis a todo o instante. A sua existência efectiva ainda não foi senão um breve esboço, imediatamente combatido e vencido por diferentes forças de defesa da sociedade de classe, entre as quais é necessário muitas vezes contar com a sua própria falsa consciência. Pannekoek insistia justamente no facto de que a escolha de um poder dos Conselhos operários «propõe problemas» mais do que traz uma solução. Mas este poder é precisamente o lugar onde os problemas da revolução do proletariado podem encontrar a sua verdadeira solução. É o lugar onde as condições objectivas da consciência histórica estão reunidas; a realização da comunicação directa activa, onde acabam a especialização, a hierarquia e a separação, onde as condições existentes foram transformadas «em condições de unidade». Aqui, o sujeito proletário pode emergir da sua luta contra a contemplação: a sua consciência é igual à organização prática de que ela se dotou, porque esta consciência é inseparável da intervenção coerente na história.

117
No poder dos Conselhos, que deve suplantar internacionalmente qualquer outro poder, o movimento proletário é o seu próprio produto, e este produto é o próprio produtor. Ele é para si mesmo a sua própria finalidade. Somente lá a negação espectacular da vida é por sua vez negada.

118
A aparição dos Conselhos foi a mais alta realidade do movimento proletário no primeiro quarto do século, realidade que passou despercebida ou disfarçada porque ela desaparecia com o resto do movimento que o conjunto da experiência histórica de então desmentia e eliminava. No novo momento da crítica proletária, este resultado regressa como o único ponto invicto do movimento vencido. A consciência histórica, que sabe ter em si o seu único lugar de existência, pode agora reconhecê-lo, não já na periferia do que reflui, mas no centro do que sobe.

119
Uma organização revolucionária existente antes do poder dos Conselhos - deverá encontrar lutando a sua própria forma - sabe já, por todas essas razões históricas, que não representa a classe. Deve somente reconhecer-se a si própria como uma separação radical para com o mundo da separação.

120
A organização revolucionária é a expressão coerente da teoria da práxis entrando em comunicação não-unilateral com as lutas práticas, em devir para a teoria prática. A sua própria prática é a generalização da comunicação e da coerência nestas lutas. No momento revolucionário da dissolução da separação social, esta organização deve reconhecer a sua própria dissolução enquanto organização separada.

121
A organização revolucionária não pode ser senão a crítica unitária da sociedade. isto é, uma crítica que não pactua com nenhuma forma de poder separado, em nenhum ponto do mundo, e uma crítica pronunciada globalmente contra todos os aspectos da vida social alienada. Na luta da organização revolucionária contra a sociedade de classes as armas não são outra coisa senão a essência dos próprios combates: a organização revolucionária não pode reproduzir em si as condições de cisão e de hierarquia que são as da sociedade dominante. Ela deve lutar permanentemente contra a sua deformação no espectáculo reinante. O único limite da participação na democracia total da organização revolucionária é o reconhecimento e a auto-apropriacão efectiva, por todos os seus membros, da coerência da sua crítica, coerência que deve provar-se na teoria crítica propriamente dita, e na relação entre esta e a actividade prática.

122
Quando a realização, cada vez mais poderosa da alienação capitalista a todos os níveis, tornando cada vez mais difícil aos trabalhadores reconhecer e nomear a sua própria miséria, os coloca na alternativa de recusar a totalidade da sua miséria ou nada, a organização revolucionária teve de aprender que ela já não pode combater a alienação sob formas alienadas.

123
A revolução proletária está inteiramente suspensa desta necessidade que, pela primeira vez, é a teoria enquanto inteligência da prática humana que deve ser reconhecida e vivida pelas massas. Ela exige que os operários se tornem dialécticos e insiram o seu pensamento na prática; assim, ela pede aos homens sem qualidade bem mais do que a revolução burguesa pedia aos homens qualificados que ela delegava para os empreendimentos: porque a consciência ideológica parcial edificada por uma parte da classe burguesa tinha por base essa parte central da vida social, a economia, na qual esta classe estava já no poder. O próprio desenvolvimento da sociedade de classes até à organização espectacular da não-vida leva, pois, o projecto revolucionário a tornar-se visivelmente o que ele já era essencialmente.

124
A teoria revolucionária é, agora, inimiga de toda a ideologia revolucionária e sabe que o é.

(1) Gíria militar francesa designando extrema vanguarda (Guerra dos Trinta Anos). (N. T.)
(*) Mantém-se o original para não alterar a dimensão conferida por Hegel (N. T.)
(**) Em português, no original. (N. T.)


Capitulo V
TEMPO E HISTÓRIA

Ó gentis-homens, a vida é curta. Se vivemos, vivemos para marchar sobre a cabeça dos reis.
Shakespeare, Henrique IV
125
O homem, «o ser negativo que é unicamente na medida em que suprime o Ser», é idêntico ao tempo. A apropriação pelo homem da sua própria natureza é, de igual modo, o apoderar-se do desenvolvimento do universo. «A própria história é uma parte real da história natural, da transformação da natureza em homem» (Marx). Inversamente, esta história natural» não tem outra existência efectiva senão através do processo de uma história humana, da única parte que reencontra este todo histórico, como o telescópio moderno cujo alcance recupera no tempo a fuga das nebulosas na periferia do universo. A história existiu sempre, mas não sempre sob a sua forma histórica. A tempo-realização do homem, tal como ela se efectua pela mediação de uma sociedade, é igual a uma humanização do tempo. O movimento inconsciente do tempo manifesta-se e toma-se verdadeiro na consciência histórica.

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O movimento propriamente histórico, embora ainda escondido, começa na lenta e insensível formação da «natureza real do homem», esta «natureza que nasce na história humana - no acto gerador da sociedade humana -», mas a sociedade que então dominou uma técnica e uma linguagem, se é já o produto da sua própria história, não tem consciência senão de um presente perpétuo. Todo o conhecimento, limitado à memória dos mais velhos, é sempre aí levado pelos vivos. Nem a morte nem a procriação são compreendidas como uma lei do tempo. O tempo permanece imóvel como um espaço fechado. Quando uma sociedade mais complexa acaba por tomar consciência do tempo, o seu trabalho é bem mais o de negar, porque ela vê no tempo não o que passa, mas o que regressa. A sociedade estática organiza o tempo segundo a sua experiência imediata da natureza, sob o modelo do tempo cíclico.

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O tempo cíclico é já dominante na experiência dos povos nómadas, porque são as mesmas condições que se reencontram perante eles a cada momento da sua passagem: Hegel nota que «a errância dos nómadas é somente formal, porque está limitada a espaços uniformes». A sociedade, que ao fixar-se localmente dá ao espaço um conteúdo pela ordenação dos lugares individualizados, encontra-se por isso mesmo encerrada no interior desta localização. O regresso temporal a lugares semelhantes é, agora, o puro regresso do tempo num mesmo lugar, a repetição de uma série de gestos. A passagem do nomadismo pastoril à agricultura sedentária é o fim da liberdade ociosa e sem conteúdo, o princípio do labor. O modo de produção agrário em geral, dominado pelo ritmo das estacões, é a base do tempo cíclico plenamente constituído. A eternidade é-lhe interior: é aqui em baixo o regresso do mesmo. O mito é a construção unitária do pensamento, que garante toda a ordem cósmica em volta da ordem que esta sociedade já realizou, de facto, dentro das suas fronteiras.

128
A apropriação social do tempo, a produção do homem pelo trabalho humano, desenvolvem-se numa sociedade dividida em classes. O poder que sê constituiu sobre a penúria da sociedade do tempo cíclico, a classe, que organiza este trabalho social e se apropria da mais-valia limitada, apropria-se igualmente da mais-valia temporal da sua organização do tempo social: ela possui só para si o tempo irreversível do vivo. A única riqueza que pode existir concentrada no sector do poder, para ser materialmente dispendida em festa sumptuária, encontra-se também despendida aí enquanto delapidação de um tempo histórico» da superfície da sociedade. Os proprietários da mais-valia histórica detêm o conhecimento e o gozo dos acontecimentos vividos. Este tempo, separado da organização colectiva do tempo que predomina com a produção repetitiva da base da vida social, corre acima da sua própria comunidade estática. É o tempo da aventura e da guerra, em que os senhores da sociedade cíclica percorrem a sua história pessoal; e é igualmente o tempo que aparece no choque das comunidades estranhas, a alteração da ordem imutável da sociedade. A história sobrevem, pois, perante os homens como um factor estranho, como aquilo que eles não quiseram e do qual se julgavam abrigados. Mas por este rodeio regressa também a inquietação negativa do humano que tinha estado na própria origem de todo o desenvolvimento que adormecera.

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tempo cíclico e, em si mesmo, o tempo sem conflito. Mas nesta infância do tempo o conflito está instalado: a história luta, antes do mais, para ser a história na actividade prática dos Senhores. Esta história cria superficialmente o irreversível; o seu movimento constitui o próprio tempo que ela esgota, no interior do tempo inesgotável da sociedade cíclica.

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As «sociedades frias» são aquelas que reduziram ao extreme a sua parte de história; que mantiveram num equilíbrio constante a sua oposição ao meio ambiente natural e humano, e as suas oposições internas. Se a extrema diversidade das instituições estabelecidas para este fim testemunha a plasticidade da autocriação da natureza humana, este testemunho não aparece evidentemente senão para o observador exterior, para o etnólogo vindo do tempo histórico. Em cada uma destas sociedades, uma estruturação definitiva excluiu a mudança. O conformismo absoluto das práticas sociais existentes, às quais se encontram para sempre identificadas todas as possibilidades humanas, já não tem outro limite exterior senão o receio de tornar a cair na animalidade sem forma. Aqui, para continuar no humano, os homens devem permanecer os mesmos.

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O nascimento do poder político, que parece estar em relação com as últimas grandes revoluções da técnica, como a fundição do ferro, no limiar de um período que já não conhecerá perturbações em profundidade até à aparição da indústria, é também o momento que começa a dissolver os laços da consanguinidade. Desde então, a sucessão das gerações sai da esfera do puro cíclico natural para se tornar acontecimento orientado, sucessão de poderes. O tempo irreversível é o tempo daquele que reina; e as dinastias são a sua primeira medida. A escrita é a sua arma. Na escrita, a linguagem atinge a sua plena realidade, independente da mediação entre consciências. Mas esta independência é idêntica à independência geral do poder separado, como mediação que constitui a sociedade. Com a escrita aparece uma consciência que já não é trazida e transmitida na relação imediata dos viventes: uma memória impessoal, que é a da administração da sociedade. «Os escritos são os pensamentos do Estado; os arquivos a sua memória» (Novalis).

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A crónica é a expressão do tempo irreversível do poder, e também o instrumento que mantém a progressão voluntarista deste tempo a partir do seu traçado anterior, porque esta orientação do tempo deve desmoronar-se com a força de cada poder particular; voltando a cair no esquecimento indiferente do único tempo cíclico conhecido pelas massas camponesas que, na derrocada dos impérios e das suas cronologias, nunca mudam. Os possuidores da história puseram no tempo um sentido: uma direcção que é também uma significação. Mas esta história desenvolve-se e sucumbe à parte; ela deixa imutável a sociedade profunda, porque ela é justamente o que permanece separado da realidade comum. É no que a história dos impérios do Oriente se reduz para nós à história das religiões: estas cronologias caídas em ruínas não deixaram mais do que a história aparentemente autónoma das ilusões que as envolviam. Os Senhores que detêm a propriedade privada da história, sob a protecção do mito, detêm-na eles próprios, antes do mais, sob o modo da ilusão: na China e no Egipto, eles tiveram durante muito tempo o monopólio da imortalidade da alma; como as suas primeiras dinastias reconhecidas são a reorganização imaginária do passado. Mas esta posse ilusória dos Senhores é também toda a posse possível, nesse momento, de uma história comum e da sua própria história. O alargamento do seu poder histórico efectivo vai a par com uma vulgarização da possessão mítica ilusória. Tudo isto deriva do simples facto de que é na própria medida em que os Senhores se encarregaram de garantir miticamente a permanência do tempo cíclico, como nos ritos das estacões dos imperadores chineses, que eles próprios dele se libertaram relativamente.

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Quando a seca cronologia, sem explicação, do poder divinizado falando aos seus servidores, que não quer ser compreendida senão como execução terrestre dos mandamentos do mito, pode ser superada e se torna história consciente, tornou-se necessário que a participação real na história tivesse sido vivida por grupos extensos. Desta comunicação prática entre aqueles que se reconheceram como os possuidores de um presente singular, que sentiram a riqueza qualitativa dos acontecimentos assim como a sua actividade e o lugar onde habitavam - a sua época -, nasce a linguagem geral da comunicação histórica. Aqueles para quem o tempo irreversível existiu descobrem ao mesmo tempo nele o memorável e a ameaça do esquecimento: «Hérodoto de Halicarnasso apresenta aqui os resultados do seu inquérito, para que o tempo não possa abolir os trabalhos dos homens...»

134
O raciocínio sobre a história é inseparavelmente raciocínio sobre o poder. A Grécia foi esse momento em que o poder e a sua mudança se discutem e se compreendem, a democracia dos Senhores da sociedade. Lá, era o inverso das condições conhecidas pelo Estado despótico, onde o poder nunca ajusta as suas contas senão consigo próprio, na inacessível obscuridade do seu ponto mais concentrado: pela revolução de palácio, que o êxito ou o revés põe igualmente fora de discussão. Porém, o poder partilhado das comunidades gregas não existia senão no dispêndio de uma vida social de que a produção continuava separada e estática na classe servil. Só aqueles que não trabalham, vivem. Na divisão das comunidades gregas e na luta pela exploração das cidades estrangeiras, estava exteriorizado o princípio da separação que fundava interiormente cada uma delas. A Grécia, que tinha sonhado a história universal, não conseguiu unir-se face à invasão; nem sequer a unificar os calendários das suas cidades independentes. Na Grécia, o tempo histórico tornou-se consciente, mas não ainda consciente de si mesmo.


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Depois do desaparecimento das condições localmente favoráveis que tinham conhecido as comunidades gregas, a regressão do pensamento histórico ocidental não foi acompanhada de uma reconstituição das antigas organizações míticas. No choque dos povos do Mediterrâneo, na formação e derrocada do Estado romano, apareceram religiões semi-históricas que se tornavam factores: fundamentais da nova consciência do tempo e a nova armadura do poder separado.

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As religiões monoteístas foram um compromisso entre o mito e a história, entre o tempo cíclico dominando ainda a produção e o tempo irreversível em que se afrontavam e se recompunham os povos. As religiões saídas do judaísmo são o reconhecimento universal abstracto do tempo irreversível que se encontra democratizado, aberto a todos, mas no ilusório. O tempo é inteiramente orientado para um único acontecimento final: «O reino de Deus está próximo». Estas religiões nasceram no solo da história, e nele se estabeleceram. Mas mesmo aí, elas mantêm-se em oposição radical à história. A religião semi-histórica estabelece um ponto de partida qualitativo no tempo, o nascimento de Cristo, a fuga de Maomé, mas o seu tempo irreversível - introduzindo uma acumulação efectiva que poderá, no Islão, tomar a forma de uma conquista, ou, no cristianismo da Reforma, a de um acréscimo do capital - está de facto invertido no pensamento religioso como uma contagem inversa: a espera no tempo que diminui, do acesso ao outro mundo verdadeiro, a espera do Juízo Final. A eternidade saiu do tempo cíclico. É o seu além. Ela é o elemento que rebaixa a irreversibilidade do tempo, que suprime a história na própria história, colocando-se, como um puro elemento pontual em que o tempo cíclico entrou e se aboliu, do outro lado do tempo irreversível. Bossuet dirá ainda: «E por intermédio do tempo que passa, nós entramos na eternidade que não passa.»

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A Idade Média, esse mundo mítico inacabado que tinha a sua perfeição fora de si, é o momento em que o tempo cíclico, que regula ainda a parte principal da produção, é realmente corroído pela história. Uma certa temporalidade irreversível é reconhecida individualmente a todos, na sucessão das épocas da vida, na vida considerada como uma viagem, uma passagem sem regresso num mundo cujo sentido está algures: o peregrino é o homem que sai desse tempo cíclico para ser efectivamente esse viajante que cada um é enquanto signo. A vida histórica pessoal encontra sempre a sua plena realização na esfera do poder, na participação das lutas conduzidas pelo poder e nas lutas pela disputa do poder; mas o tempo irreversível do poder está partilhado ao infinito, sob a unificação geral do tempo orientado da era cristã, num mundo de confiança armada, em que o jogo dos Senhores gira à volta da fidelidade e da contestação da fidelidade devida. Esta sociedade feudal, nascida do encontro da «estrutura organizacional do exército conquistador tal como ela se desenvolveu durante a conquista» e das «forcas produtivas encontradas no país conquistado» (Ideologia alemã)- e é precise contar, na organização destas forças produtivas, com a sua linguagem religiosa - dividiu a dominação da sociedade entre a Igreja e o poder estatal, por sua vez subdividido nas complexas relações de suserania e de vassalagem dos domínios territoriais e das comunas urbanas. Nesta diversidade da vida histórica possível, o tempo irreversível que a sociedade profunda levava consigo inconscientemente, o tempo vivido pela burguesia na produção das mercadorias, a fundação e a expansão das cidades, a descoberta comercial da Terra - a experimentação prática que destrói para sempre toda a organização mítica do cosmos - revelou-se lentamente como o trabalho desconhecido da época, quando o grande empreendimento histórico oficial desse mundo se malogrou com as Cruzadas.
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No declínio da Idade Média, o tempo irreversível que invade a sociedade é ressentido pela consciência ligada à antiga ordem, sob a forma de uma obsessão da morte. É a melancolia da dissolução de um mundo, o último em que a segurança do mito equilibrava ainda a história; e para esta melancolia, toda a coisa terrestre se encaminha somente para a sua corrupção. As grandes revoltas dos camponeses da Europa são também a sua tentativa de resposta a história que os arrancava violentamente ao sono patriarcal que a tutela feudal tinha garantido. É a utopia milenarista da realização terrestre do paraíso, em que volta ao primeiro plano o que estava na origem da religião semi-histórica, quando as comunidades cristãs, como o messianismo judaico de que elas provinham, resposta às perturbações e à infelicidade da época, esperavam a iminente realização do reino de Deus e acrescentavam um factor de inquietação e de subversão à sociedade antiga. O cristianismo, tendo vindo a partilhar o poder no império, tinha desmentido no momento oportuno, como simples superstição, o que subsistia desta esperança: tal é o sentido da afirmação augustina, arquétipo de todos os satisfecit da ideologia moderna, segundo a qual, a Igreja instalada era já desde há muito tempo este reino de que se falava. A revolta social do campesinato milenarista define-se naturalmente, antes de tudo, como uma vontade de destruição da Igreja. Mas o milenarismo desenrola-se no mundo histórico, e não no terreno do mito. Não são, como crê mostrar Norman Cohn em La Poursuite du Millénium, as esperanças revolucionárias modernas que são os prolongamentos irracionais da paixão religiosa do milenarismo. Bem pelo contrário, é o milenarismo, luta de classe revolucionária falando pela última vez a língua da religião, que é já uma tendência revolucionária moderna, à qual falta ainda a consciência de não ser senão histórica.. Os milenaristas deviam perder porque não podiam reconhecer a revolução como sua própria operação. O facto de eles esperarem agir sob um sinal exterior da decisão de Deus é a tradução, em pensamento, de uma prática na qual os camponeses insurgidos seguem chefes escolhidos fora deles próprios. A classe camponesa não podia atingir uma consciência justa do funcionamento da sociedade, e da maneira de conduzir a sua própria luta: é porque ela tinha falta destas condições de unidade na sua acção e na sua consciência, que ela exprimiu o seu projecto e conduziu as suas guerras segundo a imagética do paraíso terrestre.

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A nova posse da vida histórica, a Renascença, que encontra na Antiguidade o seu passado e o seu direito, traz em si a alegre ruptura com a eternidade. O seu tempo irreversível é o da acumulação infinita dos conhecimentos, e a consciência histórica, saída da experiência das comunidades democráticas e das forças que as arruinam, vai retomar, com Maquiavel, o raciocínio sobre o poder dessacralizado, isto é, o indizível do Estado. Na vida exuberante das cidades italianas, na arte das festas, a vida conhece-se como um gozo da passagem do tempo. Mas este gozo da passagem devia ele próprio ser passageiro. A canção de Lourenco de Médicis, que Burckhardt considera como a expressão do «próprio espírito da Renascença», é o elogio que esta frágil festa da história pronunciou sobre si própria: «Como é bela, a juventude - que parte tão depressa.»

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O movimento constante de monopolização da vida histórica pelo Estado da monarquia absoluta, forma de transição para a completa dominação da classe burguesa, faz aparecer na sua verdade o que é o novo tempo irreversível da burguesia. É ao tempo do trabalho, pela primeira vez liberto do cíclico, que a burguesia está ligada. O trabalho tomou-se, com a burguesia, trabalho que transforma as condições históricas. A burguesia é a primeira classe dominante para quem o trabalho é um valor. E a burguesia que suprime todo o privilégio, que não reconhece nenhum valor que não derive da exploração do trabalho, identificou, justamente ao trabalho, o seu próprio valor como classe dominante e faz do progresso do trabalho o seu próprio progresso. A classe que acumula as mercadorias e o capital modifica continuamente a natureza ao modificar o próprio trabalho, ao desencadear a sua produtividade. Toda a vida social se concentrou já na pobreza ornamental da Corte, adorno da fria administração estatal que culmina no «ofício de rei»; e toda a liberdade histórica particular teve de consentir na sua perda. A liberdade do jogo temporal irreversível dos feudais consumiu-se nas suas últimas batalhas perdidas com as guerras da Fronda ou a sublevação dos Escoceses por Carlos Eduardo. O mundo mudou de base.

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A vitória da burguesia é a vitória do tempo profundamente histórico, porque ele é o tempo da produção económica que transforma a sociedade, em permanência e de cima a baixo. Durante todo o tempo em que a produção agrária permaneça o trabalho principal, o tempo cíclico, que continua presente no fundo da sociedade, alimenta as forças coligadas da tradição, que vão travar o movimento. Mas o tempo irreversível da economia burguesa extirpa essas sobrevivências em toda a vastidão do mundo. A história, que tinha aparecido até aí como o único movimento dos indivíduos da classe dominante, e portanto escrita como história factológica, é agora compreendida como um movimento geral, e neste movimento severo, os indivíduos são sacrificados. A história que descobre a sua base na economia política sabe agora da existência daquilo que era o seu inconsciente, mas que, no entanto, permanece ainda o inconsciente que ela não pode trazer à luz do dia. É somente esta pré-história cega, uma nova fatalidade que ninguém domina, que a economia mercantil democratizou.

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A história que está presente em toda a profundidade da sociedade tende a perder-se à superfície. O triunfo do tempo irreversível é também a sua metamorfose em tempo das coisas, porque a arma da sua vitória foi precisamente a produção em série dos objectos, segundo as leis da mercadoria. O principal produto que o desenvolvimento económico fez passar da raridade luxuosa ao consumo corrente é, pois, a história, mas somente enquanto história do movimento abstracto das coisas que domina todo o uso qualitativo da vida. Enquanto o tempo cíclico anterior tinha suportado uma parte crescente de tempo histórico vivido por indivíduos e grupos, a dominação do tempo irreversível da produção vai tender a eliminar socialmente este tempo vivido.

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Assim, a burguesia fez conhecer e impôs à sociedade um tempo histórico irreversível, mas recusa-lhe a utilização. «Houve história, mas já não há mais», porque a classe dos possuidores da economia, que não deve romper com a história económica, deve recalcar assim como uma ameaça imediata qualquer outro emprego irreversível do tempo. A classe dominante, feita de especialistas da possessão das coisas, que por isso são eles próprios uma possessão das coisas, deve ligar a sua sorte à manutenção desta história reificada, à permanência de uma nova imobilidade na historica. Pela primeira vez o trabalhador, na base da sociedade, não é materialmente estanho à história, porque é agora pela sua base que a sociedade se move irreversivelmente. Na reivindicação de viver o tempo histórico que ele faz, o proletariado encontra o simples centro inesquecível do seu projecto revolucionário; e cada uma das tentativas, até aqui goradas, de execução deste projecto marca um ponto de partida possível da nova vida histórica.

144
tempo irreversível da burguesia, senhora do poder, apresentou-se, antes do mais, sob o seu próprio nome, como uma origem absoluta, no ano I da República. Mas a ideologia revolucionária da liberdade geral que tinha abatido os últimos restos de organização mítica dos valores, e toda a regulamentação tradicional da sociedade, deixava já ver a vontade real que ela tinha vestido à romana: a liberdade do comércio generalizada. A sociedade da mercadoria, descobrindo então que devia reconstruir a passividade que Ihe tinha sido necessário abalar, fundamentalmente para estabelecer o seu próprio reino puro, «encontra no cristianismo com o seu culto do homem abstracto... o complemento religioso mais adequado» (O Capital). A burguesia concluiu, então, com esta religião um compromisso que se exprime também na apresentação do tempo: o seu próprio calendário abandonado, o seu tempo irreversível voltou a moldar-se na era cristã, de que ele continua a sucessão.

145
Com o desenvolvimento do capitalismo, o tempo irreversível i unificado mundialmente. A história universal toma-se uma realidade, por que o mundo inteiro está reunido sob o desenvolvimento deste tempo. Mas esta história, que em toda a parte é ao mesmo tempo a mesma, ainda não é mais do que a recusa intra-histórica da história. É o tempo da produção económica, dividido em fragmentos abstractos iguais, que se manifesta em todo o planeta como o mesmo dia. O tempo irreversível unificado é o do mercado mundial, e corolariamente o do espectáculo mundial.

146
O tempo irreversível da produção é, antes do mais, a medida das mercadorias. Assim, pois, o tempo que se afirma oficialmente em toda a extensão do mundo como o tempo geral da sociedade, não significando mais do que interesses especializados que o constituem, não é senão um tempo particular.

Capitulo VI
O TEMPO ESPECTACULAR

Nada de nosso temos senão o tempo, de que gozam justamente aqueles que não têm paradeiro.
Baltasar Gracián - El Oráculo Manual

147
O tempo da produção, o tempo-mercadoria, é uma acumulação infinita de espaços equivalentes. É a abstracção do tempo irreversível, de que todos os segmentos devem provar ao cronómetro a sua única igualdade quantitativa. Este tempo é, em toda a sua realidade efectiva, o que ele é no seu carácter permutável. É nesta dominação social do tempo-mercadoria que «o tempo é tudo, o homem não é nada: é quanto muito a carcaça do tempo» (Miséria da Filosofia). É o tempo desvalorizado, a inversão completa do tempo como «campo de desenvolvimento humano».

148
O tempo geral do não desenvolvimento humano existe também sob o aspecto complementar de um tempo consumível que regressa à vida quotidiana da sociedade, a partir desta produção determinada, como um tempo, pseudocíclico.

149
O tempo pseudocíclico não é de facto mais do que o disfarce consumível do tempo-mercadoria da produção. Dele contém os caracteres essenciais de unidades homogéneas permutáveis e de supressão da dimensão qualitativa. Mas ao ser o subproduto deste tempo destinado ao atraso da vida quotidiana concreta - e à manutenção deste atraso -, ele deve estar carregado de pseudovalorizações e aparecer numa sucessão de momentos falsamente individualizados.
150
O tempo pseudocíclico é o do consumo da sobrevivência económica moderna, a sobrevivência aumentada, em que o vivido quotidiano continua privado de decisão e submetido, já não a ordem natural, mas à pseudonatureza desenvolvida no trabalho alienado; e, portanto, este tempo reencontra muito naturalmente o velho ritmo cíclico que regulava a sobrevivência das sociedades pré-industriais. O tempo pseudocíclico apoia-se ao mesmo tempo nos traços naturais do tempo cíclico, e dele compõe novas combinações homólogas: o dia e a noite, o trabalho e o repouso semanais, o retomo dos períodos de férias.

151
O tempo pseudocíclico é um tempo que foi transformado pela indústria. O tempo que tem a sua base na produção de mercadorias é ele próprio uma mercadoria consumível que reúne tudo o que se tinha anteriormente distinguido, quando da fase da dissolução da velha sociedade unitária em vida privada, vida económica, vida política. Todo o tempo consumível da sociedade moderna acaba por vir a ser tratado como matéria-prima de novos produtos diversificados, que se impõem no mercado como empregos do tempo socialmente organizados. «Um produto que já existe sob uma forma que o torna apropriado ao consumo pode, no entanto, tornar-se por sua vez matéria-prima de um outro produto» (O Capital).


152
No seu sector mais avançado, o capitalismo concentrado orienta-se para a venda de blocos de tempo «totalmente equipados», cada um deles constituindo uma única mercadoria unificada que integrou um certo número de mercadorias diversas. É assim que pode aparecer, na economia em expansão dos «serviços» e das recriações, a modalidade do pagamento calculado «tudo incluído», para o habitat espectacular, as pseudo-deslocações colectivas de férias, o abonamento ao consumo cultural e a venda da própria sociabilidade em «conversas apaixonantes» e «encontros de personalidades». Esta espécie de mercadoria espectacular, que evidentemente não pode ter lugar senão em função da penúria aumentada das realidades correspondentes, figura, evidentemente, também entre os artigos-pilotos da modernização das vendas ao poderem ser pagas a crédito.

153
O tempo pseudocíclico consumível é o tempo espectacular, ao mesmo tempo como tempo de consumo das imagens, no sentido restrito, e como imagem do consume do tempo. em toda a sua extensão. O tempo do consumo das imagens, médium de todas as mercadorias, é inseparavelmente o campo onde plenamente actuam os instrumentos do espectáculo e a finalidade que estes apresentam globalmente, como lugar e como figura central de todos os consumos particulares: sabe-se que os ganhos de tempo constantemente procurados pela sociedade moderna - quer se trate da velocidade dos transportes ou da utilização de sopas em pacotes - se traduzem positivamente para a população dos Estados Unidos neste facto: de que só a contemplação da televisão a ocupa em média três a seis horas por dia. A imagem social do consumo do tempo, por seu lado, é exclusivamente dominada pelos momentos de ócio e de férias, momentos representados à distancia e desejáveis, por postulado, como toda a mercadoria espectacular. Esta mercadoria é aqui explicitamente dada como o momento da vida real de que se trata esperar o regresso cíclico. Mas mesmo nestes momentos destinados à vida, é ainda o espectáculo que se dá a ver e a reproduzir, atingindo um grau mais intenso. O que foi representado como vida real, revela-se simplesmente como a vida mais realmente espectacular.

154
Esta época, que mostra a si própria o seu tempo como sendo essencialmente o regresso precipitado de múltiplas festividades, é igualmente uma época sem festa. O que era, no tempo cíclico, o momento da participação de uma comunidade no dispêndio luxuoso da vida, é impossível para a sociedade sem comunidade e sem luxo. Quando as suas pseudofestas vulgarizadas, paródias do diálogo e do dom, excitam a um excedente de dispêndio económico, elas não trazem senão a decepção sempre compensada pela promessa de uma nova decepção. O tempo da sobrevivência moderna deve, no espectáculo, gabar-se tanto mais alto quanto mais o seu valor de uso se reduziu. A realidade do tempo foi substituída pela publicidade do tempo.

155
Enquanto o consumo do tempo cíclico das sociedades antigas estava de acordo com o trabalho real dessas sociedades, o consumo pseudocíclico da economia desenvolvida encontra-se em contradição com o tempo irreversível abstracto da sua produção. Enquanto o tempo cíclico era o tempo da ilusão imóvel, realmente vivido, o tempo espectacular é o tempo da realidade que se transforma, vivido ilusoriamente.

156
O que é sempre novo no processo da produção das coisas não se reencontra no consumo, que permanece o regresso alargado do mesmo. Porque o trabalho morto continua a dominar o trabalho vivo, no tempo espectacular o passado domina o presente.

157
Como um outro aspecto da deficiência da vida histórica geral, a vida individual não tem ainda história. Os pseudo-acontecimentos que se amontoam na dramatização espectacular não foram vividos pelos que deles são informados e, além disso, perdem-se na inflação da sua substituição precipitada a cada pulsão da maquinaria espectacular. Por outro lado, o que foi realmente vivido está sem relação com o tempo irreversível oficial da sociedade e em oposição directa ao ritmo pseudocíclico do subproduto consumível desse tempo. Este vivido individual da vida quotidiana separada permanece sem linguagem, sem conceito, sem acesso crítico ao seu próprio passado, que não está consignado em nenhum lado. Ele não se comunica. Está incompreendido e esquecido em proveito da falsa memória espectacular do não-memorável.

158
O espectáculo, como organização social presente da paralisia da história e da memória, do abandono da história que se erige sobre a base do tempo histórico, é a falsa consciência do tempo.

159
Para levar os trabalhadores ao estatuto de produtores e consumidores «livres» do tempo-mercadoria, a condição prévia foi a expropriação violenta do seu tempo. O regresso espectacular do tempo não se tomou possível senão a partir desta primeira despossessão do produtor.

160
A parte irredutivelmente biológica que continua presente no trabalho, tanto na dependência do cíclico natural da vigília e do sono como na evidência do tempo irreversível individual da usura de uma vida, não são mais do que acessórios face à produção moderna; e como tais, estes elementos são negligenciados nas proclamações oficiais do movimento da produção e dos trofeus consumíeis, que são a tradução acessível desta incessante vitória. Imobilizada no centro falsificado do movimento do seu mundo, a consciência espectadora já não conhece na sua vida uma passagem para a sua realização e para a sua morte. A publicidade dos seguros de vida insinua somente que é repreensível morrer sem ter assegurado a regulação do sistema depois desta perda económica; e a do american way of death (*) insiste sobre a sua capacidade de manter neste encontro a maior parte das aparências da vida. Sobre todo o resto da frente do bombardeamento publicitário é terminantemente proibido envelhecer. Tratar-se-ia de poupar, em cada qual, um «capital-juventude» que por não ter sido senão mediocremente empregado não pode, todavia, pretender adquirir a realidade durável e cumulativa do capital financeiro. Esta ausência social da morte é idêntica á ausência social da vida.

161
O tempo é a alienação necessária, como o mostrava Hegel, o meio no qual o sujeito se realiza perdendo-se, tomando-se outro para se tornar a verdade de si mesmo. Mas o seu contrário é justamente a alienação dominante, que é suportada pelo produtor de um presente estranho. Nesta alienação espacial, a sociedade que separa na raiz o sujeito e a actividade que ela Ihe furta, separa-o antes de tudo do seu próprio tempo. A alienação social superável é justamente aquela que interditou e petrificou as possibilidades e os riscos de alienação viva no tempo.

162
Sob os modos aparentes que se anulam e se recompõem à superfície fútil do tempo pseudocíclico contemplado, o grande estilo da época está sempre no que é orientado pela necessidade evidente e secreta da revolução.

163
A base natural do tempo, o dado sensível do correr do tempo, toma-se humana e social ao existir para o homem. É o estado acanhado da prática humana, o trabalho em diferentes estádios. Que até aqui humanizou e desumanizou também o tempo, como tempo cíclico e tempo separado irreversível da produção económica. O projecto revolucionário de uma sociedade sem classes, de uma vida histórica generalizada, é o projecto de uma extensão progressiva da medida social do tempo em proveito de um modelo Iúdico de tempo irreversível dos indivíduos e dos grupos, modelo no qual estão simultaneamente presentes tempos independentes federados. É o programa de uma realização total no meio do tempo, do comunismo que suprime «tudo o que existe independentemente dos indivíduos»

164
O mundo possui já o sonho de um tempo de que ele deve possuir agora a consciência para o viver realmente.

(*) Em inglês no original (N. T.).

Capitulo VII
A ORDENAÇÃO DO TERRITÓRIO

E quem se torna senhor de uma cidade habituada a viver livre e nem sequer a destrói, que não deixe de esperar ser destruído por ela, porque ela tem sempre por refúgio nas suas rebeliões o nome da liberdade e os seus velhos costumes, os quais nem pela vastidão dos tempos nem por nenhuma mercê jamais serão esquecidos. E por mais que se faça ou que se precavenha, se não é o expulsar ou o dispersar dos habitantes, eles não esquecerão nunca esse nome nem esses costumes...
Maquiavel - O Príncipe

165
A produção capitalista unificou o espaço, que não é mais limitado pelas sociedades exteriores. Esta unificação é, ao mesmo tempo, um processo extensivo e intensivo de banalização. A acumulação das mercadorias produzidas em série para o espaço abstracto do mercado, do mesmo modo que devia quebrar todas as barreiras regionais e legais, e todas as restrições as corporativas da Idade Média que mantinham a qualidade da produção artesanal, devia também dissolver a autonomia e a qualidade dos lugares. Este poder de homogeneização é a artilharia pesada que fez cair todas as muralhas da China.

166
É para se tornar cada vez mais idêntico a si próprio, para se aproximar o melhor possível da monotonia imóvel, que o espaço livre da mercadoria é, doravante, a cada instante modificado e reconstruído.

167
Esta sociedade que suprime a distância geográfica, recolhe interiormente a distância, enquanto separação espectacular.

168
Subproduto da circulação das mercadorias, a circulação humana considerada como um consumo, o turismo, reduz-se fundamentalmente à distracção de ir ver o que se tornou banal. A ordenação económica da frequentação de lugares diferentes é já por si mesma a garantia da sua equivalência. A mesma modernização que retirou da viagem o tempo, retirou-lhe também a realidade do espaço.
169
A sociedade que modela tudo o que a rodeia edificou a sua técnica especial para trabalhar a base concreta deste conjunto de tarefas: o seu próprio território. O urbanismo é esta tomada de posse do meio ambiente natural e humano pelo capitalismo que, ao desenvolver-se logicamente em dominação absoluta, pode e deve agora refazer a totalidade do espaço como seu próprio cenário.

170
A necessidade capitalista satisfeita no urbanismo, enquanto glaciação visível da vida, pode exprimir-se - empregando termos hegelianos - como a predominância absoluta da «plácida coexistência do espaço» sobre «o inquieto devir na sucessão do tempo».


171
Se todas as forças técnicas da economia capitalista devem ser compreendidas como operando separações, no caso do urbanismo trata-se do equipamento da sua base geral, do tratamento do solo que convém ao seu desenvolvimento; da própria técnica da separação.

172
O urbanismo é a concretização moderna da tarefa ininterrupta que salvaguarda o poder de classe: a manutenção da atomização dos trabalhadores que as condições urbanas de produção tinham perigosamente reunido. A luta constante que teve de ser levada a cabo contra todos os aspectos desta possibilidade de encontro descobre no urbanismo o seu campo privilegiado. O esforço de todos os poderes estabelecidos desde as experiências da Revolução francesa, para aumentar os meios de manter a ordem na rua, culmina finalmente na supressão da rua. «Com os meios de comunicação de massa a grande distância, o isolamento da população verificou-se ser um meio de controlo muito mais eficaz», constata Lewis Mumford em Através da História, ao descrever um «mundo doravante único». Mas o movimento geral do isolamento, que é a realidade do urbanismo, deve também conter uma reintegração controlada dos trabalhadores, segundo as necessidades planificáveis da produção e do consumo. A integração no sistema deve apoderar-se dos indivíduos isolados em conjunto: as fábricas como as casas da cultura, as aldeias de férias como os «grandes conjuntos habitacionais», são especialmente organizados para os fins desta pseudocolectividade que acompanha também o indivíduo isolado na célula familiar: o emprego generalizado dos receptores da mensagem espectacular faz com que o seu isolamento se encontre povoado pelas imagens dominantes, imagens que somente através deste isolamento adquirem o seu pleno poderio.

173
Pela primeira vez, uma arquitectura nova, que em cada época anterior era reservada à satisfação das classes dominantes, encontra-se directamente destinada aos pobres. A miséria formal e a extensão gigantesca desta nova experiência de habitat provêm em conjunto do seu carácter de massa, que está implícito, ao mesmo tempo, na sua destinação e pelas condições modernas de construção. A decisão autoritária, que ordena abstractamente o território em território da abstracção, está, evidentemente, no centro destas condições modernas de construção. A mesma arquitectura aparece em todo o lado em que começa a industrialização dos países quanto a ela atrasados, como terreno adequado ao novo género de existência social que aí se trata de implantar. Tão nitidamente como nas questões do armamento termonuclear ou da natalidade - isto atingindo já a possibilidade de uma manipulação da hereditariedade -, o limiar transposto no crescimento do poder material da sociedade e o atraso da dominação consciente deste poder estão expostos no urbanismo.

174
O momento presente é já o da autodestruição do meio urbano. O rebentar das cidades sobre os campos recobertos de «massas informes de resíduos urbanos» (Lewis Mumford) é, de um modo imediato, presidido pelos imperativos do consumo. A ditadura do automóvel, produto-piloto da primeira fase da abundância mercantil, inscreveu-se no terreno com a dominação da auto-estrada, que desloca os antigos centros e exige uma dispersão cada vez maior. Ao mesmo tempo, os momentos de reorganização incompleta do tecido urbano polarizam-se passageiramente em torno das «fábricas de distribuição» que são os supermarkets(*) gigantes, edificados em terreno aberto num socalco de palking;(*) e estes templos do consume precipitado estão, eles próprios, em fuga no movimento centrífugo, que os repele à medida que eles se tornam, por sua vez, centros secundários sobrecarregados, porque trouxeram uma recomposição parcial da aglomeração. Mas a organização técnica do consumo não está se não no primeiro plano da dissolução geral que conduziu, assim, a cidade a consumir-se a si própria.

175
A história económica, que se desenvolveu intensamente em tomo da oposição cidade-campo, chegou a um estádio de sucesso que anula ao mesmo tempo os dois termos. A paralisia actual do desenvolvimento histórico total, em proveito da exclusiva continuação do movimento independente da economia, faz do momento em que começam a desaparecer a cidade e o campo, não a superação da sua cisão, mas o seu desmoronamento simultâneo. A usura recíproca da cidade e do campo, produto do desfalecimento do movimento histórico pelo qual a realidade urbana existente deveria ser superada, aparece nesta mistura ecléctica dos seus elementos decompostos que recobre as zonas mais avançadas na industrialização.

176
A história universal nasceu nas cidades e atinge a maioridade no momento da vitória decisiva da cidade sobre o campo. Marx considera como um dos maiores méritos revolucionários da burguesia este facto: «ela submeteu o campo à cidade» cujo ar emancipa. Mas se a história da cidade é a história da liberdade, ela é também a da tirania, da administração estatal que controla o campo e a própria cidade. A cidade não pôde ser ainda senão o terreno de luta da liberdade histórica, e não a sua posse. A cidade é o meio da história, porque ela é ao mesmo tempo concentração do poder social, que torna possível a empresa histórica, e consciência do passado. A tendência presente à liquidação da cidade não faz, pois, senão exprimir de um outro modo o atraso de uma subordinação da economia à consciência histórica, de uma unificação da sociedade reassenhorando-se dos poderes que dela se tinham desligado.

177
« O campo mostra justamente o facto contrário, o isolamento e a separação» (Ideologia alemã). O urbanismo que destrói as cidades, reconstrói um pseudocampo, no qual estão perdidas tanto as relações naturais do antigo campo como as relações sociais directas da cidade histórica, directamente postas em questão. É um novo campesinato factício, recriado pelas condições de habitat e de controlo espectacular no actual «território ordenado»: a dispersão no espaço e a mentalidade acanhada, que sempre impediram o campesinato de empreender uma acção independente e de se afirmar como potência histórica criadora, voltam a tornar-se a caracterização dos produtores - o movimento de um mundo que eles próprios fabricam, ficando tão completamente fora do seu alcance como o estava o ritmo natural dos trabalhos para a sociedade agrária. Mas quando este campesinato, que foi a inabalável base do «despotismo oriental», e cuja própria redução a migalhas pedia a centralização burocrática, reaparece como produto das condições de aumento da burocratizarão estatal moderna, a sua apatia teve de ser agora historicamente fabricada e alimentada; a ignorância natural cedeu o lugar ao espectáculo organizado do erro. As «cidades novas» do pseudocampesinato tecnológico inscrevem claramente no terreno a ruptura com o tempo histórico sobre o qual são construídas; a sua divisa pode ser: «Aqui mesmo nunca acontecerá nada, e nunca aqui aconteceu nada». É, evidentemente, porque a história que é preciso libertar nas cidades ainda aqui não foi liberta, que as forças da ausência histórica começam a compor a sua própria e exclusiva paisagem.


178
A história que ameaça este mundo crepuscular é também a força que pode submeter o espaço ao tempo vivido. A revolução proletária é esta crítica da geografia humana, através da qual os indivíduos e as comunidades têm a construir os lugares e os acontecimentos correspondendo à apropriação, já não só do seu trabalho, mas da sua história total. Neste espaço movente do jogo, e das variações livremente escolhidas das regras do jogo, a autonomia do lugar pode reencontrar-se sem reintroduzir uma afeição exclusiva à terra, e assim, restabelecer a realidade da viagem, tendo em si própria todo o seu sentido.

179
A maior ideia revolucionária a propósito de urbanismo não é, ela própria, urbanística, tecnológica ou estética. É a decisão de reconstruir integralmente o território segundo as necessidades do poder dos Conselhos de trabalhadores, da ditadura anti-estatal do proletariado, do diálogo executório. E o poder dos Conselhos, que não pode ser efectivo senão transformando a totalidade das condições existentes, não poderá atribuir-se uma menor tarefa se quer ser reconhecido e reconhecer-se a si mesmo no seu mundo.
GUY DEBORD
(*) Em inglês no original (N. T.).


Capitulo VIII
A NEGAÇÃO E O CONSUMO NA CULTURA

Viveremos o suficiente para ver uma revolução política? Nós, os contemporâneos destes Alemães? Meu amigo, você crê o que deseja... Quando julgo a Alemanha segundo a sua história presente, não me objectará que toda a sua história está falsificada e que toda a sua vida pública actual não representa o estado actual do povo. Leia os jornais que queira, convença-se que se não cessa - e você conceder-me-á que a censura não impede ninguém de cessar - de celebrar a liberdade e a felicidade nacional que possuímos...
Ruge - Carta a Marx, Março de 1844

180
A cultura é a esfera geral do conhecimento e das representações do vivido na sociedade histórica, dividida em classes; o que se resume em dizer que ela é esse poder de generalização existindo à parte, como divisão do trabalho intelectual e trabalho intelectual da divisão. A cultura desligou-se da unidade da sociedade do mito, «quando o poder de unificação desaparece da vida do homem, e os contrários perdem a sua relação e a sua interacção vivas e adquirem autonomia...» (Diferença entre os sistemas de Fichte e de Schelling). Ao ganhar a sua independência, a cultura começa um movimento imperialista de enriquecimento, que é, ao mesmo tempo, o declínio da sua independência. A história, que cria a autonomia relativa da cultura e as ilusões ideológicas quanto a esta autonomia, exprime-se também como história da cultura. E toda a história conquistadora da cultura pode ser compreendida como a história da revelação da sua insuficiência, como uma marcha para a sua auto-supressão. A cultura é o lugar da procura da unidade perdida. Nesta procura da unidade, a cultura como esfera separada é, ela própria, obrigada a negar-se.

181
A luta da tradição e da inovação, que é o princípio do desenvolvimento interno da cultura das sociedades históricas, não pode ser prosseguida senão através da vitória permanente da inovação. A inovação na cultura não é, porém, trazida por nada mais senão pelo movimento histórico total que, ao tomar consciência da sua totalidade, tende à superação dos seus próprios pressupostos culturais e caminha para a supressão de toda a separação.

182
O progresso dos conhecimentos da sociedade, que contém a compreensão da história como o coração da cultura, adquire por si próprio um conhecimento sem retorno que é expresso pela destruição de Deus. Mas esta «condição primeira de toda a crítica» é de igual modo a obrigação primeira de uma crítica infinita. Lá onde nenhuma regra de conduta pode já manter-se, cada resultado da cultura a faz avançar para a sua dissolução. Como a filosofia no instante em que conquistou a sua plena autonomia, toda a disciplina tornada autónoma deve desmoronar-se, inicialmente enquanto pretensão de explicação coerente da totalidade social, e, finalmente, mesmo enquanto instrumentação parcelar utilizável dentro das suas próprias fronteiras. A falta de racionalidade da cultura separada é o elemento que a condena a desaparecer, porque, nela, a vitória do racional está já presente como exigência.

183
A cultura provinha da história que dissolveu o género de vida do velho mundo, mas enquanto esfera separada, ela não é ainda mais do que a inteligência e a comunicação sensível que continuam parciais numa sociedade parcialmente histórica. Ela é o sentido de um mundo demasiadamente pouco sensato.

184
O fim da história da cultura manifesta-se em dois aspectos opostos: o projecto da sua superação na história total e a organização da sua manutenção enquanto objecto morto na contemplação espectacular. Um destes movimentos ligou o seu destino à crítica social e o outro à defesa do poder de classe.

185
Cada um dos dois aspectos do fim da cultura existe de um modo unitário, não só em todos os aspectos dos conhecimentos, como em todos os aspectos das representações sensíveis - no que era a arte no sentido mais geral. No primeiro caso, opõem-se a acumulação de conhecimentos fragmentários que se tornam inutilizáveis, porque a aprovação das condições existentes deve finalmente renunciar aos seus próprios conhecimentos, e a teoria da práxis que detém sozinha a verdade de todas ao deter sozinha o segredo da sua utilização. No segundo caso, opõem-se a autodestruição crítica da antiga linguagem comum da sociedade e a sua recomposição artificial no espectáculo mercantil, a representação ilusória do não vivido.

186
Ao perder a comunidade da sociedade do mito, a sociedade deve perder todas as referências de uma linguagem realmente comum, até ao momento em que a cisão da comunidade inactiva pode ser superada pelo acesso à comunidade histórica real. A arte, que foi essa linguagem comum da inacção social, no momento em que ela se constitui em arte independente no sentido moderno, emergindo do seu primeiro universo religioso e tomando-se produção individual de obras separadas, conhece, como caso particular, o movimento que domina a história do conjunto da cultura separada. A sua afirmação independente é o começo da sua dissolução.

187
O facto de a linguagem da comunicação se ter perdido, eis o que exprime positivamente o movimento de decomposição moderna de toda a arte, o seu aniquilamento formal. O que este movimento exprime negativamente é o facto de uma linguagem comum dever ser reencontrada, já não na conclusão unilateral que para a arte da sociedade histórica chegava sempre demasiado tarde, falando a outros daquilo que foi vivido sem diálogo real, e admitindo esta deficiência da vida, mas que ela deve ser reencontrada na práxis que reúne em si a actividade directa e a sua linguagem. Trata-se de possuir efectivamente a comunidade do diálogo e o jogo com o tempo, que foram representados pela obra poético-artística.

188
Quando a arte tornada independente representa o seu mundo com cores resplandecentes, um momento da vida envelheceu e ele não se deixa rejuvenescer com cores resplandecentes. Ele deixa-se somente evocar na recordação. A grandeza da arte não começa a aparecer senão no poente da vida.

189
O tempo histórico que invade a arte exprimiu-se antes de tudo na própria esfera da arte, a partir do barroco. O barroco é a arte de um mundo que perdeu o seu centro: a última ordem mítica reconhecida pela Idade Média, no cosmos e no governo terrestre - a unidade da Cristandade e o fantasma de um Império - caiu. A arte da mudança deve trazer em si o princípio efémero que ela descobre no mundo. Ela escolheu, diz Eugénio d’Ors, «a vida contra a eternidade». O teatro e a festa, a festa teatral, são os momentos dominantes da realização barroca, na qual toda a expressão artística particular não toma o seu sentido senão pela sua referência ao décor de um lugar construído, a uma construção que deve ser para si própria o centro de unificação; e este centro é a passagem que está inscrita como um equilíbrio ameaçado na desordem dinâmica de tudo. A importância, por vezes excessiva, adquirida pelo conceito de barroco na discussão estética contemporânea traduz a tomada de consciência da impossibilidade dum classicismo artístico: os esforços a favor dum classicismo ou neoclassicismo normativos, desde há três séculos, não foram senão breves construções factícias falando a linguagem exterior do Estado, da monarquia absoluta ou da burguesia revolucionária vestida à romana. Do romantismo ao cubismo, é finalmente uma arte cada vez mais individualizada da negação, renovando-se perpetuamente até à redução a migalhas e à negação acabada da esfera artística que seguiu o curso geral do barroco. O desaparecimento da arte histórica, que estava ligada à comunicação interna duma elite, que tinha a sua base social semi-independente nas condições parcialmente lúdicas ainda vividas pelas últimas aristocracias, traduz também este facto: que o capitalismo conhece o primeiro poder de classe que se confessa despojado de qualquer qualidade ontológica; e que a raiz do poder na simples gestão da economia é igualmente a perda de toda a mestria humana. O conjunto barroco, que para a criação artística é, em si próprio, uma unidade há já muito tempo perdida, reencontra-se de algum modo no consumo actual da totalidade do passado artístico. O conhecimento e o reconhecimento históricos de toda a arte do passado, retrospectivamente constituída em arte mundial, relativizam-na numa desordem global que constitui, por sua vez, um edifício barroco a um nível mais elevado, edifício no qual devem fundir-se a própria produção de uma arte barroca e todos os seus ressurgimentos. As artes de todas as civilizações e de todas as épocas podem, pela primeira vez, ser todas conhecidas e admiradas em conjunto. É uma «recolecção das recordações» da história da arte que, ao tornar-se possível, é de igual modo o fim do mundo da arte. É nesta época dos museus, quando nenhuma comunicação artística pode já existir, que todos os momentos antigos da arte podem ser igualmente admitidos, porque nenhum deles padece mais da perda das suas condições de comunicação em geral.

190
A arte na sua época de dissolução, enquanto movimento negativo que prossegue a superação da arte numa sociedade histórica em que a história não foi ainda vivida é ao mesmo tempo uma arte da mudança e a expressão pura da mudança impossível. Quanto mais a sua exigência é grandiosa, mais a sua verdadeira realização está para além dela. Esta arte é forçosamente de vanguarda, e não é. A sua vanguarda é o seu desaparecimento.

191
O dadaísmo e o surrealismo são as duas correntes que marcaram o fim da arte moderna. Elas são, ainda que só de um modo relativamente consciente, contemporâneas do último grande assalto do movimento revolucionário proletário; e o revés deste movimento, que as deixava encerradas no próprio campo artístico de que elas tinham proclamado a caducidade, é a razão fundamental da sua imobilização. O dadaísmo e o surrealismo estão, ao mesmo tempo, historicamente ligados e em oposição. Nesta oposição, que constitui também para cada um a parte mais consequente e radical da sua contribuição, aparece a insuficiência interna da sua crítica, desenvolvida unilateralmente tanto por uma como por outra. O dadaísmo quis suprimir a arte sem a realizar; e o surrealismo quis realizar a arte sem a suprimir. A posição crítica elaborada posteriormente pelos situacionistas mostrou que a supressão e a realização da arte são os aspectos inseparáveis de uma mesma superação da arte.

192
O consumo espectacular que conserva a antiga cultura congelada, compreendendo nela a repetição recuperada das suas manifestações negativas, torna-se abertamente no seu sector cultural o que ele implicitamente é na sua totalidade: a comunicação do incomunicável. A destruição extrema da linguagem pode encontrar-se aí insipidamente reconhecida como um valor positivo oficial, pois trata-se de apregoar uma reconciliação com o estado dominante das coisas, no qual toda a comunicação é alegremente proclamada ausente. A verdade crítica desta destruição, enquanto vida real da poesia e da arte modernas, está evidentemente escondida, porque o espectáculo, que tem a função de fazer esquecer a história na cultura, aplica na pseudonovidade dos seus meios modernistas a própria estratégia que o constitui em profundidade. Assim, pode dar-se por nova uma escola de neoliteratura, que simplesmente admite contemplar o escrito para si próprio. Aliás, ao lado da simples proclamação da beleza suficiente da dissolução do comunicável, a tendência mais moderna da cultura espectacular - e a mais ligada à prática repressiva da organização geral da sociedade - procura recompor, através de «trabalhos de conjunto», um meio neo-artístico complexo a partir dos elementos decompostos; nomeadamente, na procura de integração dos detritos ou de híbridos estético-técnicos no urbanismo. Isto é a tradução, no plano da pseu-docultura espectacular, deste projecto geral do capitalismo desenvolvido que visa ocupar-se do trabalhador parcelar como «personalidade bem integrada no grupo», tendência descrita pelos recentes sociólogos americanos (Riesman, Whyte, etc.). É, em toda a parte, o mesmo projecto de uma restruturação sem comunidade.

193
A cultura tomada integralmente mercadoria deve tomar-se também a mercadoria vedeta da sociedade espectacular. Clark Kerr, um dos ideólogos mais avançados desta tendência, calculou que o complexo processo de produção, distribuição e consumo dos conhecimentos, açambarca já anualmente 29% do produto nacional nos Estados Unidos; e prevê que a cultura deve desempenhar na segunda metade deste século o papel motor no desenvolvimento da economia, como o automóvel o foi na sua primeira metade, e os caminhos-de-ferro na segunda metade do século precedente.

194
O conjunto dos conhecimentos, que continua a desenvolver-se actualmente como pensamento do espectáculo, deve justificar uma sociedade sem justificações, e constituir-se em ciência geral da falsa-consciência, Ela é inteiramente condicionada pelo facto de não poder nem querer pensar na sua própria base material no sistema espectacular.

195
O próprio pensamento da organização social da aparência está obscurecido pela subcomunicação generalizada que ele defende. Ele não sabe que o conflito está na origem de todas as coisas do seu mundo. Os especialistas do poder do espectáculo, poder absoluto no interior do seu sistema de linguagem sem resposta, são absolutamente corrompidos pela sua experiência do desprezo e do êxito do desprezo; porque reencontram o seu desprezo confirmado pelo conhecimento do homem desprezível que é realmente o espectador.

196
No pensamento especializado do sistema espectacular opera-se uma nova divisão das tarefas, à medida que o próprio aperfeiçoamento deste sistema põe os novos problemas: por um lado, a critica espectacular do espectáculo é empreendida pela sociologia moderna, que estuda a separação com o auxílio dos únicos instrumentos conceptuais e materiais da separação; por outro lado, a apologia do espectáculo constitui-se em pensamento do não-pensamento, em esquecimento titular, da prática histórica, nas diversas disciplinas onde se enraíza o estruturalismo. Porém, o falso desespero da crítica não dialéctica e o falso optimismo da pura publicidade do sistema são idênticos, enquanto pensamento submisso.
197
A sociologia que começou a pôr em discussão, inicialmente nos Estados Unidos, as condições de existência resultantes do actual desenvolvimento, se pôde trazer muitos dados empíricos, não conhece de modo algum a verdade do seu próprio objecto, porque ela não encontra nele próprio a crítica que Ihe é imanente. De modo que a tendência sinceramente reformista desta sociologia não se apoia senão na moral, no bom senso, nos apelos à moderação complemente fora de propósito. Uma tal maneira de criticar, porque não conhece o negativo que está no coração do seu mundo, não faz senão insistir na descrição de uma espécie de excedente negativo que parece atravancá-lo deploravelmente à superfície, como uma proliferação parasitária irracional. Esta boa vontade indignada, que mesmo enquanto tal não consegue vituperar senão as consequências exteriores do sistema, julga-se crítica, esquecendo o carácter essencialmente apologético dos seus pressupostos e do seu método.

198
Aqueles que denunciam o absurdo ou os perigos do incitamento à dissipação na sociedade da abundância económica, não sabem para que serve a dissipação. Eles condenam com ingratidão, em nome da racionalidade económica, os bons guardas irracionais sem os quais o poder desta racionalidade económica se desmoronararia. E Boorstin, por exemplo, que descreve em A Imagem o consumo mercantil do espectáculo americano, nunca atinge o conceito de espectáculo, porque julga poder deixar fora deste desastroso exagero a vida privada, ou a noção de «honesta mercadoria». Não compreende que a própria mercadoria fez as leis cuja aplicação «honesta» deve provocar tanto a realidade distinta da vida privada, como a sua reconquista ulterior pelo consumo social das imagens.

199
Boorstin descreve os excessos de um mundo que se nos tornou estranho, como excessos estranhos ao nosso mundo. Mas a base «normal» da vida social, à qual ele se refere implicitamente quando qualifica o reino superficial das imagens, em termos de julgamento psicológico e moral, como o produto das «nossas extravagantes pretensões», não tem nenhuma realidade nem no seu livro nem na sua época. É porque a vida humana real de que fala Boorstin está para ele no passado, nele compreendido o passado da resignação religiosa, que ele não pode compreender toda a profundidade de uma sociedade da imagem. A verdade desta sociedade não e mais do que a negação desta sociedade.

200
A sociologia, que julga poder isolar do conjunto da vida social uma racionalidade industrial, funcionando à parte, pode ir ao ponto de isolar do movimento industrial global as técnicas de reprodução e transmissão. É assim que Boorstin toma como causa dos resultados que descreve, o infeliz encontro, quase fortuito, de um demasiado grande aparelho técnico de difusão das imagens e de uma demasiado grande propensão dos homens da nossa época ao pseudo-sensacional. Assim, o espectáculo seria devido ao facto de o homem moderno ser demasiado espectador. Boorstin não compreende que a proliferação dos «pseudo-acontecimentos » pré-fabricados que ele denuncia deriva deste simples facto: que os próprios homens, na realidade maciça da actual vida social, não vivem acontecimentos. É porque a própria história persegue a sociedade moderna como um espectro, que se encontra a pseudo-história construída a todos os níveis do consumo da vida, para preservar o equilíbrio ameaçado do actual tempo congelado.

201
A afirmação da estabilidade definitiva de um curto período de congelamento do tempo histórico é a base inegável, inconsciente e conscientemente proclamada, da actual tendência a uma sistematização estruturalista. O ponto de vista em que se coloca o pensamento anti-histórico do estruturalismo é o da eterna presença de um sistema que nunca foi criado e que nunca acabará. O sonho da ditadura de uma estrutura prévia inconsciente sobre toda a práxis social pôde ser abusivamente tirada dos modelos de estruturas elaborados pela linguística e pela etnologia (e mesmo pela análise do funcionamento do capitalismo), modelos já abusivamente compreendidos nessas circunstâncias, simplesmente porque um pensamento universitário de quadros médios, rapidamente satisfeitos, pensamento integralmente submerso no elogio maravilhado do sistema existente, reduz com vulgaridade toda a realidade à existência do sistema.

202
Como em qualquer ciência social histórica, é preciso ter sempre em vista, para a compreensão das categorias «estruturalistas», que as categorias exprimem formas de existência e condições de existência. Assim como não se aprecia o valor de um homem pela concepção que ele tem de si próprio, não se pode apreciar - e admirar - esta sociedade determinada, aceitando como indiscutivelmente verídica a linguagem que ela fala a si mesma. «Não se pode apreciar semelhantes épocas de transformação pela consciência que a época tem dessa transformação; pelo contrário, deve explicar-se a consciência com a ajuda das contradições da vida material...» A estrutura é filha do poder presente. O estruturalismo é o pensamento garantido pelo Estado, que pensa as condições presentes da «comunicação» espectacular como um absoluto. A sua maneira de estudar o código das mensagens em si mesmo não é, sendo, o produto e o reconhecimento duma sociedade, em que a comunicação existe sob a forma duma cascata de sinais hierárquicos. De modo que não é o estruturalismo que serve para provar a validade trans-histórica da sociedade do espectáculo; é, pelo contrário, a sociedade do espectáculo, impondo-se como realidade maciça, que serve para provar o sonho frio do estruturalismo.

203
Sem dúvida, o conceito crítico de espectáculo pode também ser vulgarizado numa qualquer fórmula oca da retórica sociológico-política para explicar e denunciar tudo abstractamente e, assim, servir para a defesa do sistema espectacular. Porque é evidente que nenhuma ideia pode conduzir para além do espectáculo, mas somente para além das ideias existentes sobre o espectáculo. Para destruir efectivamente a sociedade do espectáculo, são necessários homens pondo em acção uma força prática. A teoria crítica do espectáculo não é verdadeira senão ao unificar-se à corrente prática da negação na sociedade, e esta negação, o retomar da luta de classe revolucionária, tomar-se-á consciente de si própria ao desenvolver a crítica do espectáculo, que é a teoria das suas condições reais, das condições práticas da opressão actual, e desvenda inversamente o segredo daquilo que ela pode ser. Esta teoria não espera milagres da classe operária. Ela encara a nova formulação e a realização das exigências proletárias como uma tarefa de grande alento. Para distinguir artificialmente luta teórica e luta prática - porque, na base aqui definida, a própria constituição e a comunicação duma tal teoria já não pode conceber-se sem uma prática rigorosa - é certo que o percurso obscuro e difícil da teoria critica deverá também ser o loto do movimento prático, actuando à escala da sociedade.

204
A teoria crítica deve comunicar-se na sua própria linguagem. É a linguagem da contradição, que deve ser dialéctica na sua forma como o é no seu conteúdo. Ela é crítica da totalidade e critica histórica. Não é um «grau zero da escrita» mas a sua reinversão. Não é uma negação do estilo, mas o estilo da negação.

205
Mesmo no seu estilo, a exposição da teoria dialéctica é um escândalo e uma abominação segundo as regras da linguagem dominante, e também para o gosto que elas educaram, porque no emprego positivo dos conceitos existentes ela inclui ao mesmo tempo a inteligência da sua fluidez reencontrada, da sua destruição necessária.

206
Este estilo, que contém a sua própria crítica, deve exprimir a dominação da crítica presente sobre todo o seu passado. Por ele, o modo de exposição da teoria dialéctica é testemunha do espírito negativo que nela reside. «A verdade não é como o produto no qual não mais se encontra o traço do instrumento» (Hegel). Esta consciência teórica do movimento, na qual o próprio traço do movimento deve estar presente, manifesta-se pela reinversão das relações estabelecidas entre os conceitos e pelo desvio de todas as aquisições da crítica anterior. A reinversão do genitivo é esta expressão das revoluções históricas, consignada na forma do pensamento, que foi considerada como o estilo epigramático de Hegel. O jovem Marx, ao preconizar, conforme o uso sistemático que dela tinha feito Feuerbach, a substituição do sujeito pelo predicado, atingiu o emprego mais consequente desse estilo insurreccional que, da filosofia da miséria, tira a miséria da filosofia. O desvio submete à subversão as conclusões críticas passadas que foram petrificadas em verdades respeitáveis, isto é, transformadas em mentiras. Kierkegaard já disto tinha feito deliberadamente uso, ao associar-Ihe a sua própria denúncia: «Mas não obstante as voltas e reviravoltas, como o doce volta sempre para o armário, tu acabas sempre por introduzir-Ihe uma pequena palavra que não é tua e que perturba pela recordação que desperta» (Migalhas filosóficas). É a obrigação da distancia para com o que foi falsificado em verdade oficial que determina este emprego do desvio, assim confessado por Kierkegaard no mesmo livro: «Um só reparo ainda a propósito das tuas numerosas alusões visando todas a censura que eu associo aos meus dizeres, expressões obtidas por empréstimo. Não o nego aqui e também não o esconderei que era voluntário e que numa próxima sequência a esta brochura, se algum dia a escrever, tenho a intenção de chamar o objecto pelo seu verdadeiro nome e de revestir o problema de um trajo histórico».


207
As ideias melhoram-se. O sentido das palavras participa nisso. O plagiato é necessário. O progresso implica-o. Ele acerca-se estreitamente da frase de um autor, serve-se das suas expressões, suprime uma ideia falsa, substitui-a pela ideia justa.

208
O desvio é o contrário da citação, da autoridade teórica sempre falsificada, pelo próprio facto de ela se ter tornado citação; fragmento arrancado ao seu contexto, ao seu movimento, e, finalmente, à sua época, como referência global e à opção precisa que ela constituía no interior desta referência, exactamente reconhecida ou errónea. O desvio é a linguagem fluida da anti-ideologia. Ele aparece na comunicação que sabe não poder deter nenhuma garantia em si própria e definitivamente. Ele é, no mais alto ponto, a linguagem que nenhuma referência antiga e supracrítica pode confirmar. É, pelo contrário, a sua própria coerência, em si próprio e para com os factos praticáveis, que pode confirmar o antigo núcleo de verdade que ele volta a trazer consigo. O desvio não fundou a sua causa sobre nada de exterior à sua própria verdade como crítica presente.

209
O que, na formulação teórica, se apresenta abertamente como desviado, ao desmentir toda a autonomia durável da esfera do teórico expresso, ao fazer intervir aí, por esta violência, a acção que perturba e varre toda a ordem existente, faz lembrar que esta existência do teórico não é nada em si mesma, e não tem que conhecer-se senão com a acção histórica, e a correcção histórica que é a sua verdadeira fidelidade.

210
A negação real da cultura é a única a conservar-lhe o sentido. Ela já não pode ser cultural. Assim, ela é aquilo que permanece de algum modo ao nível da cultura, embora numa acepção totalmente diferente.

211
Na linguagem da contradição, a crítica da cultura apresenta-se unificada: enquanto ela domina o todo da cultura - o seu conhecimento como a sua poesia - e enquanto não se separa mais da crítica da totalidade social. É somente esta critica teórica unificada que vai ao encontro da prática social unificada.


Capitulo IX
A IDEOLOGIA MATERIALIZADA

A consciência de si é em si e para si quando e porque ela é em si e para si para uma outra consciência de si; quer dizer que ela não é senão enquanto ser reconhecido.
Hegel - Fenomenologia do Espírito

212
A ideologia é a base do pensamento duma sociedade de classes, no curso conflitual da história. Os factos ideológicos não foram nunca simples quimeras, mas a consciência deformada das realidades, e, enquanto tais, factores reais exercendo, por sua vez, uma real acção deformada; tanto mais que a materialização da ideologia, que arrasta consigo o êxito concreto da produção económica autonomizada, na forma do espectáculo, confunde praticamente com a realidade social uma ideologia que pôde talhar todo o real segundo o seu modelo.

213
Quando a ideologia, que é a vontade abstracta do universal, e a sua ilusão, se encontra legitimada pela abstracção universal e pela ditadura efectiva da ilusão na sociedade moderna, ela já não é a luta voluntarista do parcelar, mas o seu triunfo. Daí a pretensão ideológica adquirir uma espécie de fastidiosa exactidão positivista: ela já não é uma escolha histórica, mas uma evidência. Numa tal afirmação, os nomes particulares das ideologias desvaneceram-se. Mesmo a parte de trabalho propriamente ideológica ao serviço do sistema já não se concebe senão enquanto reconhecimento duma «base epistemológica» que se pretende para além de qualquer fenómeno ideológico. A própria ideologia materializada está sem nome, tal como está sem programa histórico enunciável. Quer isto dizer que a história das ideologias acabou.

214
A ideologia, que toda a sua lógica interna levava à «ideologia total», no sentido de Mannheim, despotismo do fragmento que se impõe como pseudo-saber dum todo petrificado, visão totalitária, é agora realizada no espectáculo imobilizado da não-história. A sua realização é também a sua dissolução no conjunto da sociedade. Com a dissolução prática desta sociedade deve desaparecer a ideologia, o último contra-senso que bloqueia o acesso à vida histórica.

215
O espectáculo é a ideologia por excelência, porque expõe e manifesta na sua plenitude a essência de qualquer sistema ideológico: o empobrecimento, a submissão e a negação da vida real. O espectáculo é, materialmente, «a expressão da separação e do afastamento entre o homem e o homem». O «novo poderio do embuste» que se concentrou aí tem a sua base nesta produção pela qual «com a massa dos objectos cresce... o novo domínio dos seres estranhos aos quais o homem está submetido». É o estádio supremo duma expansão que virou a necessidade contra a vida. «A necessidade de dinheiro é portanto a verdadeira necessidade produzida pela economia política, e a única necessidade que ela produz» (Manuscritos económico-filosóficos). O espectáculo alarga a toda a vida social o princípio que Hegel, na Realphilosophie de Iena, concebe como o do dinheiro; é «a vida do que está morto movendo-se em si própria».


216
Ao contrário do projecto resumido nas Teses sobre Feuerbach (a realização da filosofia na práxis que supera a oposição entre o idealismo e o materialismo), o espectáculo conserva ao mesmo tempo, e impõe no pseudoconcreto do seu universo, os caracteres ideológicos do materialismo e do idealismo. O aspecto contemplativo do velho materialismo, que concebe o mundo como representação e não como actividade, e que finalmente idealiza a matéria, está realizado no espectáculo, onde as coisas concretas são automaticamente senhoras da vida social. Reciprocamente, a actividade sonhada do idealismo realiza-se igualmente no espectáculo pela mediação técnica de signos e de sinais, que finalmente materializam um ideal abstracto.

217
O paralelismo entre a ideologia e a esquizofrenia estabelecido por Gabel (A Falsa Consciência) deve ser inserido neste processo económico de materialização da ideologia. O que a ideologia já era, a sociedade acabou por ser. A desinserção da práxis e a falsa consciência antidialéctica que a acompanha, eis o que é imposto a cada hora da vida quotidiana submetida ao espectáculo; que é necessário compreender como uma organização sistemática do «desfalecimento da faculdade de encontro» e como sua substituição por um facto alucinatório social: a falsa consciência do encontro, a «ilusão do encontro». Numa sociedade em que ninguém pode já ser reconhecido pelos outros, cada indivíduo toma-se incapaz de reconhecer a sua própria realidade. A ideologia está em sua casa; a separação construiu o seu mundo.

218
« Nos quadros clínicos da esquizofrenia, diz Gabel, decadência da dialéctica da totalidade (tendo como forma extrema a dissociação) e decadência da dialéctica do devir (tendo como forma extrema a catatonia) parecem bem solidárias. A consciência espectadora, prisioneira dum universo estreitado, limitada pelo écran do espectáculo, para trás do qual a sua vida foi deportada, não conhece mais do que os interlocutores fictícios que Ihe falam unilateralmente da sua mercadoria e da política da sua mercadoria. O espectáculo, em toda a sua extensão, é o seu «sinal do espelho». Aqui se põe em cena a falsa saída dum autismo generalizado.

219
O espectáculo que é a extinção dos limites do moi(*) e do mundo pelo esmagamento do moi(*) que a presença-ausência do mundo assedia, é igualmente a supressão dos limites do verdadeiro e do falso pelo recalcamento de toda a verdade vivida sob a presença real da falsidade que a organização da aparência assegura. Aquele que sofre passivamente a sua sorte quotidianamente estranha é, pois, levado a uma loucura que reage ilusoriamente a essa sorte, ao recorrer a técnicas mágicas. O reconhecimento e o consumo das mercadorias estão no centro desta pseudo-resposta a uma comunicação sem resposta. A necessidade de imitação que o consumidor sente é precisamente a necessidade infantil, condicionada por todos os aspectos da sua despossessão fundamental. Segundo os termos que Gabel aplica a um nível patológico completamente diferente, a necessidade anormal de representação compensa aqui um sentimento torturante de estar à margem da existência.

220
Se a lógica da falsa consciência não pode reconhecer-se veridicamente a si própria, a procura da verdade crítica sobre o espectáculo deve ser também uma critica verdadeira. É-lhe praticamente necessário lutar entre os inimigos irreconciliáveis do espectáculo e admitir estar ausente lá onde eles estão ausentes. São as leis do pensamento dominante, o ponto de vista exclusivo da actualidade, que reconhece a vontade abstracta da eficácia imediata, quando ela se lança nos compromissos do reformismo ou da acção comum dos resquícios pseudo-revolucionários. Aí, o delírio reconstituiu-se na própria posição que pretende combatê-lo. Pelo contrário, a crítica que vai para além do espectáculo deve saber esperar.

221
Emancipar-se das bases materiais da verdade invertida, eis no que consiste a auto-emancipacão da nossa época. Esta «missão histórica de instaurar a verdade no mundo», nem o indivíduo isolado, nem a multidão atomizada, submetida às manipulações, a podem realizar, mas ainda e sempre a classe que é capaz de ser a dissolução de todas as classes, ao reduzir todo o poder à forma desalienante da democracia realizada, o Conselho, no qual a teoria prática se controla a si própria e vê a sua acção. Lá, somente, onde os indivíduos estão «directamente ligados à história universal»; lá, somente, onde o diálogo se estabeleceu para fazer vencer as suas próprias condições.

(*) Mantém-se o original para não alterar a referência analítica donde provem (N.T.).


COMENTÁRIOS SOBRE A SOCIEDADE DO ESPECTÁCULO

À memória de Gérard Lebovici, assassinado em Paris a 5 de Março de 1984, numa cilada que permanece no mistério.
" Por críticas que possam ser as situações e as circunstâncias em que te encontres, não desesperes; é nas ocasiões em que tudo é temível, que nada há que temer; é quando se está rodeado de todos os perigos, que não há que temer nenhum; é quando se está sem nenhum recurso, que há que contar com todos; é quando se está surpreendido, que é preciso surpreender o inimigo."
(Sun-Tzu, A Arte da Guerra)

I
Estes Comentários têm a segurança de ser prontamente conhecidos por cinquenta ou sessenta pessoas, o que já é muito nos dias que vivemos e quando se trata de questões tão graves. Mas é por isso mesmo que eu tenho, em certos meios, a reputação de ser um conhecedor. Importa igualmente considerar que, desta elite que vai interessar-se neles, metade, ou um número muito aproximado, é composta por pessoas que se ocupam em manter o sistema de dominação espectacular, e a outra metade por gente que teimará em fazer exactamente o contrário. Tendo assim em conta leitores tão atentos e diversamente influentes, não posse evidentemente falar com toda a liberdade. Devo sobretudo tomar cautela para não instruir demasiadamente seja quem for.

A desgraça dos tempos obrigar-me-á, portanto, a escrever, uma vez mais, de um modo novo. Certos elementos serão voluntariamente omitidos; e o plano deverá ficar bem pouco claro. Poder-se-á encontrar nele, como a própria assinatura da época, alguns logros. Na condição de intercalar aqui e ali várias outras páginas, o sentido total pode aparecer: deste modo, muitas vezes, foram acrescentados artigos secretos àquilo que os tratados estipulavam abertamente, e o mesmo acontece com agentes químicos que não revelam uma parte desconhecida das suas propriedades senão quando se encontram associados a outros. Todavia, nesta breve obra, demasiadas coisas serão, finalmente, fáceis de compreender

II
Em 1967, mostrei num livro, A Sociedade do Espectáculo, aquilo que o espectáculo moderno era já essencialmente: o reino autocrático da economia mercantil, tendo acedido a um estatuto de soberania irresponsável, e o conjunto das novas técnicas de governo que acompanham este reino. As alterações de 1968, que se prolongaram em diversos países no decurso dos anos seguintes, não derrubaram em nenhum lugar a organização existente da sociedade, donde o espectáculo brota como que espontaneamente; ele continuou, portanto, a reforçar-se por todos os lados, quer dizer, ao mesmo tempo que se estendeu até aos extremos em todas as direcções, aumentou a sua densidade no centro. O espectáculo aprendeu mesmo novos procedimentos defensivos, como acontece com frequência aos poderes atacados. Quando comecei a crítica da sociedade espectacular notou-se sobretudo, dado o momento, o conteúdo revolucionário que se podia descobrir nesta crítica, e isso foi sentido, naturalmente, como o seu elemento mais incómodo. Quanto à coisa mesma, acusaram-me por vezes de ter inventado todas as suas partes e sempre de ter conspirado exageradamente ao avaliar a profundidade e unidade deste espectáculo e da sua acção real. Devo reconhecer que os outros, fazendo aparecer depois novos livros à volta do mesmo tema, demonstraram perfeitamente que se podia evitar dizer tanto. Eles nada mais fizeram que substituir o conjunto e o seu movimento por um só detalhe estático da superfície do fenómeno, a originalidade de cada autor satisfazia-se em escolhê-lo diferente e, por isso, cada vez menos inquietante. Nenhum quis alterar a modéstia científica da sua interpretação pessoal misturando-lhe temerários julgamentos históricos.

Mas, afinal, a sociedade do espectáculo não deixou de continuar a sua marcha. Ela vai depressa, se tivermos em conta que, em 1967, não tinha mais de uma quarentena de anos atrás de si; mas plenamente utilizados. E no seu próprio movimento, que ninguém achou valer a pena estudar, ela demonstrou depois, por surpreendentes façanhas, que a sua natureza efectiva era bem aquela que eu tinha dito. Estabelecer este ponto não tem somente um valor académico, porque é sem dúvida indispensável ter reconhecido a unidade e articulação desta força actuante que é o espectáculo, para, a partir daí, ser capaz de procurar de novo em que direcções esta força pôde deslocar-se, sendo aquilo que ela era. Estas questões são de um grande interesse: é necessariamente em tais condições que se jogará a continuação do conflito na sociedade. Visto que o espectáculo é hoje seguramente mais poderoso do que era antes. Que faz ele deste poder suplementar? Até onde avançou, onde não estava ele antes? Quais são, em suma, as suas linhas de operações neste momento? O sentimento vago de que se trata de uma espécie de invasão rápida, que obriga as gentes a levar uma vida muito diferente, está de ora avante largamente espalhada; mas sente-se isso mais como uma modificação inexplicável do clima ou de um outro equilíbrio natural, modificação perante a qual a ignorância só sabe que nada tem a dizer. Além disso, muitos admitem que é uma invasão civilizadora, tornada inevitável, e têm mesmo desejo de colaborar nela. Estes antes querem não saber para que serve precisamente esta conquista e como ela caminha.

Vou evocar algumas consequências práticas ainda pouco conhecidas, que resultam deste desenvolvimento rápido do espectáculo durante os últimos vinte anos. Não me proponho, em nenhum aspecto da questão, entrar em polémicas, de ora avante demasiado fáceis e demasiado inúteis; nem tão pouco convencer. Os presentes comentários não se preocupam em moralizar. Eles não consideram o que é desejável, ou simplesmente preferível. Limitar-se-ão a fazer notar o que é.

III
Agora, que ninguém pode razoavelmente duvidar da existência e do poder do espectáculo, pode pelo contrário duvidar-se que seja razoável acrescentar algo sobre uma questão que a experiência resolveu de uma maneira tão draconiana. Le Monde de 19 de Setembro de 1987 ilustrava com felicidade a fórmula «Aquilo que existe já não tem necessidade de ser falado», verdadeira lei fundamental destes tempos espectaculares que, pelo menos a este respeito, não deixou para trás nenhum país: «Que a sociedade contemporânea seja uma sociedade de espectáculo, é um assunto sabido. Em breve, valerá mais a pena examinar os assuntos que não chamam a atenção. São incontáveis as obras que descrevem um fenómeno que vem caracterizando as nações industrializadas sem poupar os países em atrazo em relação ao seu tempo. Mas nota-se o ridículo de que os livros que analisam este fenómeno, em geral para o deplorar, devem, eles também, sacrificar-se ao espectáculo para se fazerem conhecer.» E verdade que esta crítica espectacular do espectáculo, chegada tarde e que para cúmulo quereria «dar-se a conhecer» no mesmo terreno, limitar-se-á forçosamente a generalidades vás ou a lamentos hipócritas; como também parece vã esta sabedoria desenganada que bufoneia num jornal.

A discussão vazia sobre o espectáculo, isto é, sobre aquilo que fazem os proprietários do mundo, está, assim, organizada por ele mesmo insiste-se sobre os grandes meios do espectáculo, para nada dizer sobre a sua ampla utilização. Com frequência prefere-se chamá-lo, em vez de espectáculo, o mediático. E, assim, quer-se designar um simples instrumento, uma espécie de serviço público que geriria com um imparcial «profissionalismo» a nova riqueza da comunicação de todos através dos mass media, comunicação enfim chegada à sua pureza unilateral, onde se faz admirar sossegadamente a decisão já tomada. Aquilo que é comunicado são ordens; e, muito harmoniosamente, aqueles que as deram são igualmente aqueles que dirão aquilo que pensam delas.

O poder do espectáculo, que é tão essencialmente unitário, centralizador pela força própria das coisas, e perfeitamente despótico no seu espírito, indigna-se com frequência ao ver constituir-se dentro do seu reino uma política-espectáculo, uma justiça-espectáculo, uma medicina-espectáculo, ou tantos outros também surpreendentes «excessos mediáticos». Assim, o espectáculo nada mais seria que o excesso do mediático, cuja natureza, indiscutivelmente boa já que serve para comunicar, é por vezes dada a excessos. Com muita frequência, os mestres da sociedade declaram-se mal servidos pelos seus empregados mediáticos; mais amiúde eles censuram à plebe dos espectadores a sua tendência para se entregar sem moderação, e quase bestialmente, aos prazeres mediáticos. Dissimular-se-á, assim, por detrás de uma multitude virtualmente infinita de pretensas divergências mediáticas, o que é, pelo contrário, resultado de uma convergência espectacular querida com uma notável tenacidade. Do mesmo modo que a lógica da mercadoria prima sobre as diversas ambições concorrenciais de todos os comerciantes, ou que a lógica da guerra domina sempre as frequentes modificações do armamento, a mesma lógica severa do espectáculo comanda por toda a parte a abundante diversidade das extravagâncias mediáticas.

A mudança que tem a maior importância, em tudo o que se passou desde há vinte anos, reside na própria continuidade do espectáculo. Esta importância não se deve ao aperfeiçoamento da sua instrumentação mediática, que já anteriormente tinha atingido um estádio de desenvolvimento muito avançado: é pura e simplesmente devida ao facto de que a dominação espectacular tenha podido criar uma geração submetida às suas leis. As condições extraordinariamente novas em que esta geração, no seu conjunto, efectivamente viveu, constituem um resumo exacto e suficiente de tudo aquilo que doravante o espectáculo impede; e também de tudo aquilo que ele permite.

IV
No plano simplesmente teórico, só me faltará acrescentar àquilo que tinha formulado anteriormente mais um detalhe, mas que vai longe. Em 1967, distinguia duas fórmulas, sucessivas e rivais, do poder espectacular, a concentrada e a difusa. Uma e outra pairavam sobre a sociedade real, como seu fim e sua mentira. A primeira, expondo a ideologia resumida à volta duma personalidade ditatorial, tinha acompanhado a contra-revolução totalitária, tanto a nazi como a estalinista. A outra, incitando os assalariados a realizar livremente a sua escolha entre uma grande variedade de novas mercadorias que se defrontavam, tinha representado esta americanizarão do mundo, que nalguns aspectos assustava, mas que também seduzia os países onde durante mais tempo se tinham podido manter as condições das democracias burguesas de tipo tradicional. Uma terceira forma constituiu-se depois pela combinação ponderada das duas precedentes, e na base geral duma vitória daquela que se tinha revelado a mais forte, a forma difusa. Trata-se do espectacular integrado, que doravante tende a impor-se mundialmente.
O lugar predominante que tiveram a Rússia e a Alemanha na formação do espectacular concentrado, e os Estados Unidos na do espectacular difuso, parece ter pertencido à França e à Itália no momento do estabelecimento do espectacular integrado, pelo jogo de uma série de factores históricos comuns: papel importante do partido e do sindicato estalinistas na vida política e intelectual, fraca tradição democrática, longa monopolização do poder por um só partido de governo, necessidade de acabar com uma contestação revolucionária aparecida de surpresa.
O espectacular integrado manifesta-se umas vezes como concentrado e outras como difuso e, depois desta unificação frutífera, soube empregar mais amplamente uma e outra destas qualidades. O seu modo de aplicação anterior mudou muito. Considerando o lado concentrado, o centro director tornou-se agora oculto: nunca mais se coloca aí um chefe conhecido, nem uma ideologia clara. E considerando o lado difuso, a influência espectacular nunca tinha marcado a este ponto a quase totalidade das condutas e dos objectos que são produzidos socialmente. Já que, o sentido final do espectacular integrado é que ele se integrou na própria realidade à medida que dela falava; e que a reconstruía como falava dela. De modo que esta realidade agora não está perante ele como qualquer coisa estranha. Quando o espectacular era concentrado a maior parte da sociedade periférica escapava-lhe; e quando era difuso, apenas uma diminuta parte; hoje, nada Ihe escapa. O espectáculo misturou-se a toda a realidade, irradiando-a. Como se podia prever facilmente em teoria, a experiência prática da realização sem freio das vontades da razão mercantil demonstrou rapidamente e sem excepções que o tornar-se mundo da falsificação era também um tornar-se falsificação do mundo. Exceptuando uma herança ainda importante, mas destinada a diminuir constantemente, de livros e construções antigas, que por outro lado são cada vez mais amiúde seleccionados e dispostas em perspectiva segundo as conveniências do espectáculo, nada mais existe, na cultura ou na natureza, que não tenha sido transformado, e poluído, segundo os meios e os interesses da indústria moderna. Mesmo a genética tornou-se plenamente acessível às forças dominantes da sociedade.
O governo do espectáculo, que presentemente detém todos os meios de falsificar o conjunto da produção assim como da percepção, é senhor absoluto das recordações tal como é senhor incontrolado dos projectos que modelam o mais longínquo futuro. Ele reina só em todo o lado; ele executa os seus julgamentos sumários.
É em tais condições que se pode ver desencadear repentinamente, com um gozo carnavalesco, um fim paródico da divisão do trabalho; tanto melhor recebido quanto coincide com o movimento geral de desaparecimento de toda a verdadeira competência. Um banqueiro canta, um advogado torna-se informador da polícia, um padeiro expõe as suas preferências literárias, um actor governa, um cozinheiro filosofa sobre os momentos de cozedura como marcos na história universal. Cada qual pode surgir no espectáculo a fim de entregar-se publicamente, ou por vezes para dedicar-se secretamente, a uma actividade completamente diferente da especialidade pela qual inicialmente se deu a conhecer. Lá onde a posse de um «estatuto mediático» alcançou uma importância infinitamente maior que o valor daquilo que se foi capaz de fazer realmente, é normal que este estatuto seja facilmente transferível e confira o direito de brilhar, da mesma maneira, seja onde for. Mais frequentemente, estas partículas mediáticas aceleradas perseguem a sua simples carreira no admirável estatutariamente garantido. Mas acontece que a transição mediática faça a cobertura entre muitas empresas, oficialmente independentes, mas de facto secretamente ligadas por diferentes redes ad-hoc. De modo que, por vezes, a divisão social do trabalho, assim como a solidariedade normalmente previsível do seu uso, reaparece sob formas completamente novas: por exemplo, hoje em dia pode publicar-se um romance para preparar um assassinato. Estes pitorescos exemplos querem também dizer que já não se pode confiar em ninguém pelo seu ofício.
Mas a mais alta ambição do espectacular integrado é ainda que os agentes secretos se tornem revolucionários e que os revolucionários se tornem agentes secretos.

V
A sociedade modernizada até ao estádio do espectacular integrado caracteriza-se pelo efeito combinado de cinco traços principais, que são: a renovação tecnológica incessante; a fusão económico-estatal; o segredo generalizado; o falso sem réplica; um presente perpétuo.
O movimento de inovação tecnológica dura já há muito tempo e é constitutivo da sociedade capitalista, dita por vezes industrial ou post-industrial. Mas desde que tomou a sua mais recente aceleração, (no dia seguinte à Segunda Guerra Mundial), reforça ainda mais a autoridade espectacular, já que através dele cada um encontra-se inteiramente entregue ao conjunto de especialistas, aos seus cálculos e aos seus julgamentos sempre satisfeitos com estes cálculos. A fusão económico-estatal é a tendência mais manifesta deste século; e aí está ela tornada, no mínimo, o motor do desenvolvimento económico mais recente. A aliança defensiva e ofensiva concluída entre estes dois poderes, a Economia e o Estado, assegurou-lhes os maiores benefícios comuns em todos os domínios: pode dizer-se que cada um possui o outro; é absurdo opô-los, ou distinguir as suas razões ou as suas desinteligências. Esta união mostrou-se também extremamente favorável ao desenvolvimento da dominação espectacular, que, desde a sua formação, não era senão precisamente isso. Os três últimos traços são os efeitos directos dominação, no seu estado integrado.
O segredo generalizado mantém-se por detrás do espectáculo, como o complemento decisivo daquilo que ele mostra e, se aprofundamos mais as coisas, como a sua mais importante operação.
O simples facto de estar a partir de agora sem réplica deu ao falso uma qualidade completamente nova. É ao mesmo tempo o verdadeiro que deixou de existir quase por todo o lado ou, no melhor caso, viu-se reduzido ao estado de uma hipótese que nunca pode ser demonstrada. O falso sem réplica acabou por fazer desaparecer a opinião pública, que de início se encontrava incapaz de se fazer ouvir; depois, rapidamente em seguida, de somente se formar. Isto acarreta evidentemente importantes consequências na política, nas ciências aplicadas, na justiça, no conhecimento artístico.
A construção de um presente onde mesmo a moda, do vestuário aos cantores, se imobilizou, que quer esquecer o passado e que já não dá a impressão de acreditar num futuro, é obtida pela incessante passagem circular da informação girando continuamente sobre uma lista muito sucinta das mesmas banalidades, anunciadas apaixonadamente como importantes descobertas; enquanto só muito raramente, e por sacudidelas, passam as notícias verdadeiramente importantes sobre aquilo que efectivamente muda.
Dizem sempre respeito à condenação que este mundo parece ter pronunciado contra a sua existência, as etapas da sua autodestruição programada.

VI
A primeira intenção da dominação espectacular era fazer desaparecer o conhecimento histórico em geral; e em primeiro lugar quase todas as informações e todos os comentários razoáveis sobre o mais recente passado. Uma evidência tão flagrante não necessita ser explicada. O espectáculo organiza com mestria a ignorância do que acontece e, logo de seguida, o esquecimento daquilo que pôde apesar de tudo tornar-se conhecido. O mais importante é o mais escondido. Vinte anos depois, nada foi mais recoberto de tantas mentiras comandadas como a história de Maio de 1968. Contudo, lições úteis foram tiradas de alguns estudos desmitificados sobre essas jornadas e as suas origens, mas são segredo de Estado.
Em Franca, há já uma dezena de anos, um Presidente da República, esquecido em seguida, mas flutuando, então, à superfície do espectáculo, exprimia inocentemente a alegria que ressentia, «sabendo que viveremos a partir de agora num mundo sem memória, onde, como na superfície da água, a imagem afasta indefinidamente a imagem». É efectivamente cómodo para quem está nos negócios; e sabe manter-se neles. O fim da história é um agradável repouso para todo o poder presente. Garante-lhe absolutamente o êxito do conjunto das suas iniciativas, ou pelo menos o ruído do êxito.
Um poder absoluto suprime tanto mais radicalmente a história, quanto tem de ocupar-se dos interesses ou das obrigações mais imperiosas, e principalmente conforme encontrou mais ou menos grandes facilidades práticas de execução. Ts’in Che Hoang Ti mandou queimar os livros, mas não conseguiu fazê-los desaparecer todos. Estaline levava mais longe a realização de um projecto semelhante no nosso século, mas, apesar das cumplicidades de toda a espécie que encontrou fora das fronteiras do seu império, ficava uma vasta zona do mundo inacessível à sua polícia, onde se riam das suas imposturas. O espectacular integrado fez melhor, com novíssimos métodos, e operando desta vez mundialmente. A inépcia faz-se respeitar por todo o lado, já não é permitido rir dela; em todo o caso, tornou-se impossível fazer saber que se riem dela.
O domínio da história era o memorável, a totalidade dos acontecimentos cujas consequências se manifestariam durante muito tempo. Era inseparavelmente o conhecimento que deveria durar e ajudaria a compreender, pelo menos parcialmente, aquilo que aconteceria de novo: «uma aquisição para sempre», diz Tucídides. Por isso, a história era a medida duma novidade verdadeira; e quem vende a novidade tem todo o interesse em fazer desaparecer o meio de a medir. Quando o importante se faz socialmente reconhecer como aquilo que é instantâneo, e vai sê-lo no instante seguinte, e no outro e noutro ainda, e que substituirá sempre uma outra importância instantânea, pode também dizer-se que o meio utilizado garante uma espécie de eternidade desta não-importância, que fala tão alto.
A preciosa vantagem que o espectáculo retirou deste pôr fora-da-lei da história, de ter já condenado toda a história recente a passar à clandestinidade, e de ter conseguido fazer esquecer muito frequentemente o espírito histórico na sociedade, é antes de tudo cobrir a sua própria história: o próprio movimento da sua recente conquista do mundo. O seu poder aparece já familiar, como se tivesse estado Iá desde sempre. Todos os usurpadores quiseram fazer esquecer que acabam de chegar.

VII
Com a destruição da história é o próprio acontecimento contemporâneo que se afasta imediatamente a uma distancia fabulosa, entre os seus relatos inverificáveis, as suas estatísticas incontroláveis, as suas explicações inacreditáveis e os seus raciocínios insustentáveis. A todas as idiotices que são avançadas espectacularmente, não há senão os mediáticos que poderiam responder através de algumas respeituosas rectificações ou repreensões, mas mesmo nisso são parcos, porque para além da sua extrema ignorância, a sua solidariedade de ofício e de coração, com a autoridade generalizada do espectáculo, e com a sociedade que ele exprime, gera-lhes um dever e também um prazer de jamais se desviarem desta autoridade, cuja majestade não deve ser lesada. É preciso não esquecer que todo o mediático, por salário e por outras recompensas ou gorjetas, tem sempre um senhor, às vezes vários, e que todo o mediático se sabe substituível.

Todos os expertos são mediático-estatais, e apenas por isso são reconhecidos. Todo o experto serve o seu senhor, porque cada uma das antigas possibilidades de independência foi pouco mais ou menos reduzida a nada, pelas condições de organização da sociedade presente. O experto que serve melhor é, seguramente, o experto que mente. Aqueles que têm necessidade do experto são, por motivos diferentes, o falsificador e o ignorante. Lá onde o indivíduo não reconhece mais nada por si mesmo, será formalmente tranquilizado pelo experto. Antes era normal que houvesse expertos na arte dos Etruscos; e eram sempre competentes, porque a arte etrusca não estava no mercado. Mas, por exemplo, uma época que acha rentável falsificar quimicamente a maioria dos vinhos célebres, não poderá vendê-los, a não ser que tenha formado expertos em vinhos que levarão os otários a gostar dos seus novos aromas, mais reconhecíeis. Cervantes observa que «debaixo de uma má capa, encontra-se muitas vezes um bom bebedor». Aquele que conhece o vinho ignora a maioria das vezes as regras da indústria nuclear; mas a dominação espectacular estima que, já que um experto se riu dele a propósito da indústria nuclear, um outro experto poderá gozá-lo melhor a propósito do vinho. Sabe-se, por exemplo, quanto o experto em metereologia mediática, que anuncia as temperaturas ou as chuvas previstas para as próximas quarenta e oito horas, é obrigado a muitas reservas pela obrigação de manter os equilíbrios económicos, turísticos e regionais, quando tanta gente circula tão frequentemente por tantas estradas, entre lugares igualmente desolados; de modo que ele será melhor sucedido como animador.
Um aspecto do desaparecimento de todo o conhecimento histórico objectivo manifesta-se a propósito de qualquer reputação pessoal, que se tornou maleável e rectificável à vontade pelos que controlam toda a informação, aquela que recolhem e também aquela, bem diferente, que difundem; eles têm portanto toda a permissão para falsificar. Porque uma evidência histórica da qual nada se quer saber no espectáculo, já não é uma evidência. Lá onde ninguém tem senão a celebridade que Ihe foi atribuída como um favor pela benevolência de uma Corte espectacular, a desgraça pode acontecer instantaneamente. Uma notoriedade anti-espectacular tornou-se qualquer coisa de extremamente rara. Eu próprio sou um dos últimos vivos a possuir uma; a nunca ter tido outra. Mas esta também se tornou extraordinariamente suspeita. A sociedade proclamou-se oficialmente espectacular. Ser conhecido à margem das relações espectaculares equivale já a ser conhecido como inimigo da sociedade.
E permitido mudar completamente o passado de qualquer um, de o modificar radicalmente, de o recriar no estilo dos processes de Moscovo; e sem que seja mesmo necessário recorrer às fadigas de um processo. Pode matar-se com menos custos. Os falsos testemunhos, talvez desajeitados - mas que capacidade de sentir esta inabilidade poderá ainda restar aos espectadores que serão testemunhas das façanhas destes falsos testemunhos? - e os falsos documentos, sempre excelentes, não podem faltar àqueles que governam o espectacular integrado, ou aos seus amigos. Portanto, já não é possível acreditar, sobre ninguém, em nada daquilo que não tenha sido conhecido por si mesmo e directamente. Mas, de facto, já não há muitas vezes a necessidade de acusar falsamente alguém. Desde que se detém o mecanismo de comando da única verificação social que se faz plenamente e universalmente reconhecer, diz-se o que se quer. O movimento da demonstração espectacular prova-se simplesmente andando à roda: voltando, repetindo-se, afirmando continuamente sobre o único terreno onde reside doravante aquilo que pode afirmar-se publicamente, e fazer-se acreditar, pois que é disso somente que todo o mundo será testemunha. A autoridade espectacular pode igualmente negar seja o que for, uma vez, três vezes, e dizer que não falará mais disso, e falar de outra coisa, sabendo bem que já não arrisca mais nenhuma outra réplica no seu próprio terreno, nem em nenhum outro. Porque já não existe àgora de comunidade geral, nem mesmo de comunidades restritas aos corpos intermédios ou às instituições autónomas, aos salões ou cafés, aos trabalhadores de uma só empresa; nenhum lugar onde o debate, sobre as verdades que dizem respeito àqueles que Iá estão, possa libertar-se de forma duradoira da esmagadora presença do discurso mediático, e das diferentes forças organizadas para o substituir. Actualmente já não existe julgamento com a garantia de relativa independência, daqueles que constituíam o mundo erudito; daqueles que, por exemplo, antigamente, manifestavam o seu orgulho numa capacidade de verificação, permitindo a aproximação àquilo a que se chamava a história imparcial dos factos, de acreditar pelo menos que ela merecia ser conhecida. Já nem existe mesmo verdade bibliográfica incontestável, e os resumos informatizados dos ficheiros das bibliotecas nacionais poderão suprimir ainda melhor os traços. Perder-nos-iamos pensando naquilo que foram noutros tempos os magistrados, os médicos, os historiadores, e nas obrigações imperativas em que eles se reconheciam, na maior parte das vezes, nos limites das suas competências: os homens parecem-se mais com o seu tempo do que com o seu pai.
Aquilo de que o espectáculo pode deixar de falar durante três dias é como se não existisse. Pois ele fala, então, de outra coisa qualquer e é isso que, portanto, a partir daí, em suma, existe. As consequências práticas, como se vê, são imensas.
Acreditava-se saber que a história tinha aparecido, na Grécia, com a democracia. Pode verificar-se que ela desaparece do mundo com ela.
É preciso porém acrescentar a esta lista de triunfos do poder, um resultado para ele negativo: um Estado, em cuja gestão se instala duravelmente um grande défice de conhecimentos históricos, já não pode ser conduzido estrategicamente.

VIII
A sociedade que se anuncia democrática, quando alcançou o estádio do espectacular integrado, parece ser admitida por toda a parte como sendo a realização de uma perfeição frágil. De modo que ela não deve ser mais exposta a ataques, já que é frágil; e alem disso não é mais acatável, pois é perfeita como jamais sociedade alguma foi. E uma sociedade frágil porque tem uma grande dificuldade em dominar a sua perigosa expansão tecnológica. Mas é uma sociedade perfeita para ser governada; e a prova disso é que todos os que aspiram a governar querem governa-la, pelos mesmos procedimentos, e mantê-la quase exactamente como ela é. É a primeira vez que, na Europa contemporânea, nenhum partido ou fracção de partido ensaia somente pretender que tentaria mudar qualquer coisa de importante. A mercadoria já não pode ser criticada por ninguém: nem enquanto sistema geral, nem mesmo como essa embalagem determinada que terá sido conveniente aos empresários pôr nesse momento no mercado. Em todo o lado onde reina o espectáculo, as únicas forças organizadas são aquelas que querem o espectáculo. Portanto, nenhuma pode ser inimiga do que existe, nem infringir a omertá que diz respeito a tudo. Acabou-se com esta inquietante concepção que dominou durante mais de duzentos anos, segundo a qual uma sociedade podia ser criticável e transformável, reformada ou revolucionada. E isto não foi obtido pelo aparecimento de argumentos novos, mas muito simplesmente porque os argumentos se tornaram inúteis. Perante este resultado medir-se-á, em vez da felicidade geral, a força terrível das redes da tirania.
Jamais a censura foi tão perfeita. Jamais a opinião daqueles a quem se faz crer ainda, em certos países, que são cidadãos livres, foi tão pouco autorizada a tornar-se conhecida, cada vez que se trata duma escolha que afectará a sua vida real. Jamais foi permitido mentir-lhes com uma tão perfeita ausência de consequência. O espectador é suposto ignorar tudo, não merecer nada. Quem olha sempre, para saber a continuação, jamais agirá: e tal deve ser o espectador. Com frequência ouve-se citar a excepção dos Estados Unidos, onde Nixon acabava por sofrer um dia duma série de recusas tão cinicamente inábeis; mas esta excepção localizada, que tinha velhas causas históricas, deixou de ser manifestamente genuína, já que Reagan pôde fazer recentemente a mesma coisa com impunidade. Tudo aquilo que nunca é sancionado é verdadeiramente permitido. É pois arcaico falar de escândalo. Atribui-se a um homem de Estado italiano de primeiro plano, tendo exercido funções simultaneamente no ministério e no governo paralelo chamado P.2, Potere due, uma divisa que resume profundamente o período em que entrou o mundo inteiro, um pouco depois da Itália e dos Estados Unidos: «Havia escândalos, mas já não há»,.
Na obra O 18 Brumário de Louis Bonaparte, Marx descrevia o papel invasor do Estado na França do Segundo Império, que dispunha então de meio milhão de funcionários: «Tudo se transforma assim em objecto da actividade governamental, desde a ponte, à escola, à propriedade comunal de uma aldeia até às linhas do caminho de ferro, às propriedades nacionais e às universidades de província.» A famosa questão do financiamento dos partidos políticos punha-se já nessa época, pois Marx nota que «os partidos que, à vez, lutavam pela supremacia, viam na tomada de posse deste edifício enorme a principal presa do vencedor». Eis como isto soa um pouco bucólico e, como se diz, ultrapassado, já que as especulações do Estado de hoje dizem respeito preferencialmente às novas cidades e auto-estradas, à circulação subterrânea e à produção de energia electro-nuclear, à exploração petrolífera e aos computadores, à administração dos bancos e dos centros socio-culturais, às modificações da «paisagem audiovisual» e às exportações clandestinas de armas, à promoção imobiliária e à indústria farmacêutica, à agroalimentar e à gestão dos hospitais, aos créditos militares e aos fundos secretos do departamento, em contínuo crescimento, que deve gerir os numerosos serviços de protecção da sociedade. E, contudo, Marx continua sendo infelizmente demasiado actual, quando evoca, no mesmo livro, este governo «que não toma de noite as decisões que quer executar de dia, mas decide o dia e executa à noite».

IX
Esta democracia tão perfeita fabrica ela mesma o seu inconcebível inimigo: o terrorismo. Ela quer, com efeito, antes ser julgada pelos seus inimigos que pelos seus resultados. A história do terrorismo é escrita pelo Estado. E, portanto, educativa. As populações espectadoras não podem certamente saber tudo sobre o terrorismo, mas podem sempre saber a esse respeito o suficiente para ser persuadidas de que, comparado ao terrorismo, tudo o resto deverá parecer-lhes mais aceitável, em todo o caso mais racional e mais democrático.
A modernização da repressão acabou por aperfeiçoar, em primeiro lugar na experiência piloto de Itália sob o nome de «arrependidos», os acusadores profissionais ajuramentados; aquilo que na sua primeira aparição no século XVII, durante as alterações da Fronda, se chamava de «testemunhas de ofício». Este espectacular progresso da justiça povoou as prisões italianas de vários milhares de condenados que expiam uma guerra civil que não teve lugar, uma espécie de vasta insurreição armada que por acaso nunca viu chegar a sua hora, um golpismo tecido da juta de que são feitos os sonhos.
Deve-se notar que a interpretação dos mistérios do terrorismo parece ter introduzido uma simetria entre opiniões contraditórias; como se se tratasse de duas escolas filosóficas professando construções metafísicas absolutamente antagónicas. Alguns não veriam no terrorismo nada mais do que algumas evidentes manipulações dos serviços secretos; outros estimariam, pelo contrário, que apenas se deve censurar aos terroristas a sua falta total de sentido histórico. O uso de um pouco de lógica histórica permitiria concluir rapidamente que nada há de contraditório ao considerar que pessoas carentes de todo o sentido histórico podem igualmente ser manipuladas; e até mesmo ainda mais facilmente que outras. É também mais fácil levar a «arrepender-se» alguém a quem se pode mostrar que, antecipadamente, se sabia tudo aquilo que ele acreditava fazer livremente. É um efeito inevitável das formas organizativas clandestinas de tipo militar, onde basta infiltrar poucos agentes em certos pontos da rede para fazer andar e fazer cair muitos. A crítica, nestas questões da avaliação das lutas armadas, deve analisar em certas ocasiões uma destas operações em particular, sem se deixar desviar pela semelhança geral que todas eventualmente teriam revestido. Por outro lado, deveria esperar-se, como logicamente provável, que os serviços de protecção do Estado pensam utilizar todas as vantagens que encontrem no terreno do espectáculo, que foi organizado precisamente para isso há muito tempo; é, pelo contrário, a dificuldade de pensar nisso que é surpreendente e não parece justa.
O interesse actual da justiça repressiva neste domínio consiste, naturalmente, em generalizar o mais rapidamente possível. O importante neste tipo de mercadorias é a embalagem, ou a etiqueta: os códigos de barras. Todo o inimigo da democracia espectacular vale tanto como qualquer outro, como valem todas as democracias espectaculares. Assim, não pode haver mais direito de asilo para os terroristas, e mesmo que: não se Ihes aprove tê-lo sido, eles vão certamente voltar a sê-lo, e a extradição impõe-se. Em Novembro de 1978, sobre o caso Gabor Winter, jovem operário tipógrafo acusado principalmente, pelo Governo da República Federal Alemã, de ter redigido alguns panfletos revolucionários, Nicole Pradain, representante do Ministério Público na câmara de acusação do Tribunal da Relação de Paris, depressa demonstrou que «as motivações políticas», única causa de recusa de extradição prevista pela convenção franco-alemã de 29 de Novembro de 1951, não podiam ser evocadas: «Gabor Winter não é um delinquente político, é um delinquente social. Ele recusa as obrigações sociais. Um verdadeiro delinquente político não tem sentimento de rejeição face à sociedade. Ataca as estruturas políticas e não, como Gabor Winter, as estruturas sociais.» A noção de delito político respeitável só foi reconhecida na Europa a partir do momento em que a burguesia atacava com sucesso as estruturas sociais anteriormente estabelecidas. A qualidade de delito político não podia separar-se das diversas intenções da crítica social. Foi assim para Blanqui, Varlin, Durruti. Simula-se pois, agora, querer guardar, como um luxo barato, um delito puramente político que, sem dúvida, ninguém terá jamais a ocasião de cometer, já que ninguém se interessa mais pelo assunto; a não ser os próprios profissionais da política, cujos delitos não são quase nunca perseguidos, e que já não se chamam políticos. Todos as delitos e crimes são efectivamente sociais. Mas de todos os crimes sociais nenhum poderá ser considerado pior que a impertinente pretensão de querer ainda mudar qualquer coisa nesta sociedade que pensa de si própria ter sido demasiado paciente e demasiado boa até aqui; mas que não quer mais ser criticada.

X
A dissolução da lógica foi prosseguida, segundo os interesses fundamentais do novo sistema de dominação, por diferentes meios que operaram prestando sempre um apoio recíproco. Vários destes meios estão ligados à instrumentação técnica, que experimentou e popularizou o espectáculo, mas alguns deles estão preferencialmente ligados à psicologia de massas da submissão.
De acordo com as técnicas, quando a imagem construída e escolhida por algum outro se torna na principal relação do indivíduo com o mundo que antes olhava por si mesmo, de cada lugar onde podia ir, não se ignora evidentemente que a imagem vai suportar tudo; porque no interior de uma mesma imagem pode justapor-se sem contradição seja o que for. O fluxo de imagens domina tudo, e é igualmente qualquer outro que governa a seu gosto este resumo simplificado do mundo sensível; que escolhe aonde irá esta corrente, e também o ritmo daquilo que deverá manifestar-se nela, como perpétua surpresa arbitrária, não deixando nenhum tempo para a reflexão, e em absoluto, independentemente do que o espectador possa compreender ou pensar. Nesta experiência concreta da submissão permanente, encontra-se a raiz psicológica da adesão tão generalizada àquilo que Iá está, que vem a reconhecer-lhe ipso facto um valor suficiente. O discurso espectacular cala evidentemente, além de tudo aquilo que é propriamente secreto, tudo aquilo que não Ihe convém. Daquilo que mostra ele isola sempre o meio, o passado, as intenções, as consequências. É, portanto, totalmente ilógico. Já que ninguém pode contradize-lo, o espectáculo tem o direito de contradizer-se a si mesmo, de ratificar o seu passado. A altiva atitude dos seus servidores quando têm de fazer saber uma versão nova, por ventura mais mentirosa ainda, de certos factos, é de ratificar rudemente a ignorância e as más interpretações atribuídas ao seu público, ainda que sejam os mesmos que na véspera se apressavam a difundir esse erro, com a sua habitual certeza. Assim, o ensino do espectáculo e a ignorância do espectador passam indevidamente por factores antagónicos quando nascem um do outro. A linguagem binária do computador é igualmente uma irresistível incitação a admitir em cada instante, sem reservas, aquilo que foi programado como muito bem quis qualquer outro, e que se faz passar pela fonte intemporal duma lógica superior, imparcial e total. Que ganho de rapidez, e de vocabulário, para julgar de tudo! Político? Social? É preciso escolher. O que é um não pode ser o outro. A minha escolha impõe-se. Sopram-nos, e sabe-se para que são estas estruturas. Não é pois surpreendente que, desde a infância, os alunos facilmente comecem, e com entusiasmo, pelo Saber Absoluto da informática: enquanto ignoram cada vez mais a leitura, que exige um verdadeiro julgamento a cada linha; e que só ela pode dar acesso à vasta experiência humana ante-espectacular. Já que a conversação está quase morta e em breve também estarão muitos daqueles que sabiam falar.
De acordo com os meios do pensamento das populações contemporâneas, a primeira causa da decadência está ligada claramente ao facto de que todo o discurso mostrado no espectáculo não deixa nenhum lugar para a resposta; e a lógica não se formava socialmente senão no diálogo. Mas também quando se propagou o respeito por aquele que fala no espectáculo, que é considerado ser importante, rico, prestigiado, que é a autoridade mesma, a tendência espalha-se também entre os espectadores, de quererem ser tão ilógicos como o espectáculo, para alardear um reflexo individual dessa autoridade. Enfim, a lógica não é fácil, e ninguém deseja ensiná-la. Nenhum drogado estuda lógica; porque não tem dela necessidade e porque não tem sequer essa possibilidade. Esta preguiça do espectador é também a de qualquer quadro intelectual, do especialista formado à pressa, que tentará em todos os casos esconder os estreitos limites dos seus conhecimentos pela repetição dogmática de qualquer argumento de autoridade ilógica.

XI
Pensa-se geralmente que aqueles que demonstraram a maior incapacidade em matéria de lógica são precisamente aqueles que se proclamaram revolucionários. Esta censura injustificada vem de uma época anterior, onde quase toda a gente pensava com um mínimo de lógica, à notícia excepção dos cretinos e dos militantes; e entre estes últimos infundia-se muitas vezes a má fé, desejada porque julgada eficaz. Mas hoje já não é possível negligenciar que o uso intensivo do espectáculo, como seria de esperar, converteu em ideólogos a maioria dos contemporâneos, ainda que somente às sacudidelas e por fragmentos.
A falta de lógica, isto é, a perda da possibilidade de reconhecer instantaneamente o que é importante daquilo que é menor ou está fora de questão; o que é incompatível ou inversamente poderia bem ser complementar; tudo aquilo que implica tal consequência e o que, ao mesmo tempo, a proíbe; esta doença foi voluntariamente injectada em altas doses na população pelos anestesistas-reanimadores do espectáculo. Os contestatários não foram de nenhuma maneira mais irracionais do que a gente submissa. Só que, entre eles, esta irracionalidade geral vê-se mais intensamente, porque, ao apregoarem o seu projecto, tentaram levar a cabo uma operação prática; bastaria ler certos textos mostrando que eles compreendem o sentido. Entregaram-se a diversas obrigações que implicam dominar a lógica, e até a estratégia, que é exactamente o campo completo do desenvolvimento da lógica dialéctica dos conflitos; enquanto que, tal como todos os outros, eles estavam mesmo muito desprovidos da simples capacidade de se guiar pelos velhos instrumentos imperfeitos da lógica formal. Não há dúvidas a respeito deles, enquanto que não há muito para pensar a propósito dos outros.
O indivíduo a quem este pensamento espectacular empobrecido marcou profundamente, e mais que qualquer elemento da sua formação, coloca-se assim, desde o início, ao serviço da ordem estabelecida, ainda que a sua intenção subjectiva possa ser completamente contrária a esse resultado.
Ele seguirá no essencial a linguagem do espectáculo, porque é a única que Ihe é familiar: aquela em que Ihe ensinaram a falar. Sem dúvida quererá mostrar-se inimigo da sua retórica; mas empregará a sua sintaxe. Este é um dos pontes mais importantes do êxito obtido pela dominação espectacular.
O desaparecimento tão rápido do vocabulário pré-existente não é mais que um momento desta operação. Serve-a.

XII
O apagamento da personalidade acompanha fatalmente as condições da existência concretamente submetida às normas espectaculares, e também cada vez mais separada das possibilidades de conhecer experiências que sejam autênticas e, através delas, descobrir as suas preferências individuais. O indivíduo, paradoxalmente, deverá negar-se permanentemente se pretende ser um pouco considerado nesta sociedade. Esta existência postula com efeito uma fidelidade sempre variável, uma série de adesões constantemente enganosas a produtos falaciosos. Trata-se de correr rapidamente atrás da inflação dos sinais depreciados da vida. A droga ajuda a conformar-se com esta organização das coisas; a loucura ajuda a fugir dela.
Em todas as espécies de assuntos desta sociedade, onde a distribuição dos bens está de tal maneira centralizada que se tornou proprietária, de uma forma simultaneamente notória e secreta, da própria definição do que poderá ser o bem, acontece atribuir-se a certas pessoas qualidades, ou conhecimentos ou, por vezes, mesmo vícios, perfeitamente imaginários, para explicar através de tais causas o desenvolvimento satisfatório de certas empresas; e isto com o único fim de esconder, ou pelo menos dissimular tanto quanto possível, a função de diversos acordos que decidem sobre tudo.
Contudo, apesar das suas frequentes intenções, e dos seus pesados meios, para tornar notória a plena dimensão de numerosas personalidades supostamente notáveis, a sociedade actual, e não apenas por tudo aquilo que actualmente substituiu as artes ou pelos discursos a este respeito, revela muitas vezes o contrário: a incapacidade completa choca-se com uma outra capacidade comparável; aproximam-se, e uma encostará a outra à parede. Acontece com o advogado que, esquecendo que só figura num processo para defender uma causa, se deixa influenciar sinceramente por um raciocínio do advogado contrário; ainda que este possa ser tão pouco rigoroso como o seu próprio. Acontece também que um suspeito, inocente, confesse momentaneamente um crime que não cometeu, pela simples razão de ter ficado impressionado pela lógica da hipótese de um delator que queria culpabilizá-lo (caso do Dr. Archambeau, em Poitiers, em 1984).

Mesmo Mac Luhan, o primeiro apologista do espectáculo, que parecia o imbecil mais convencido do seu século, mudou de opinião ao descobrir finalmente, em 1976, que «a pressão dos mass media empurra para o irracional», e se tornaria urgente moderar-lhe o uso. Antes, o pensador de Toronto tinha passado várias décadas a maravilhar-se com as múltiplas liberdades que produzia esta «aldeia planetária», tão instantaneamente acessível a todos sem fadiga. As aldeias, contrariamente às cidades, foram sempre dominadas pelo conformismo, o isolamento, a vigilância mesquinha, o aborrecimento, os mexericos sempre repetidos sobre as mesmas famílias. E assim se apresenta daqui em diante a vulgaridade do planeta espectacular, onde já não é mais possível distinguir a dinastia dos Grimaldi-Mónaco, ou dos Bourbons-Franco, daquela que tinha substituído os Stuart. Porém, ingratos discípulos tentam hoje fazer esquecer Mac Luhan, e restaurar os seus primeiros achados, aspirando por sua vez a uma carreira no elogio mediático de todas essas novas liberdades que seriam a «escolher» aleatoriamente no efémero. E, provavelmente, estes renegar-se-ão mais depressa que o seu inspirador.

XIII
O espectáculo não esconde que alguns perigos cercam a ordem maravilhosa que estabeleceu. A poluição dos oceanos e a destruição das florestas equatoriais ameaçam a renovação de oxigénio da Terra; a sua capa de ozone resiste mal ao progresso industrial; as radiações de origem nuclear acumulam-se irreversivelmente. O espectáculo conclui somente que isso não tem importância. Não quer discutir senão as datas e as doses. E somente com isto consegue tranquilizar; o que para um espirito pré-espectacular seria tido por impossível.
Os métodos da democracia espectacular são de uma grande flexibilidade, contrariamente à simples brutalidade do diktat totalitário. Pode manter-se o nome quando a coisa foi secretamente transformada (da cerveja ao bife, passando por um filósofo). Também pode mudar-se o nome, quando a coisa foi secretamente continuada: por exemplo, em Inglaterra, a unidade de tratamento de resíduos nucleares de Windscale levou a fazer chamar Sellafield a sua localidade, a fim de melhor desviar as suspeitas, depois de um desastroso incêndio em 1957; mas este rebaptismo toponímico não impediu o aumento da mortalidade por cancro e leucemia nos seus arredores. O governo britânico, viemos a sabê-lo democraticamente trinta anos mais tarde, tinha decidido, então, manter secreto um relatório sobre a catástrofe que julgava, e não sem razão, de natureza a abalar a confiança que o público depositava no nuclear.
As práticas nucleares, militares ou civis, necessitam uma dose de segredo mais forte que quaisquer outras, ainda que, como se sabe, nestas matérias a segredo nunca é demais. Para facilitar a vida, quer dizer, as mentiras, os sábios escolhidos pelas senhores deste sistema descobriram a utilidade de mudar também as unidades de medida, diversificá-las segundo um maior número de pontos de vista, refiná-las para, conforme as circunstâncias, poder aldrabar com várias dessas cifras dificilmente convertíveis. É assim que para avaliar a radioactividade, pode dispor-se das unidades de medida seguintes: o curie, o becquerel, a röntgen, o rad, aliás centigray, o rem, sem esquecer o fácil milirad e o sivert, que é o mesmo que uma porção de 100 rems. Isto evoca a recordação das subdivisões da moeda inglesa cuja complexidade dificultava o rápido domínio para os estrangeiros, no tempo em que Sellafield ainda se chamava Windscale.
Imagina-se o rigor e a precisão que teriam podido alcançar no século XIX, a história das guerras e, por consequência, os teóricos da estratégia se - com o objectivo de não fornecer informações demasiado confidenciais aos comentadores neutros ou aos historiadores inimigos tivessem habitualmente de ser prestadas contas de uma campanha nestes termos: «A fase preliminar comporta uma série de confrontos onde, do nosso lado, uma sólida vanguarda, constituída por quatro generais e pelas unidades colocadas sob o seu comando, se confronta com um corpo inimigo contando 13.000 baionetas. Na fase posterior desenrola-se uma batalha campal longamente disputada onde se usou a totalidade do nosso exército, com os seus 290 canhões e a sua poderosa cavalaria de 18.000 sabres; enquanto que o adversário Ihe opôs tropas que não contavam com menos de 3.600 tenentes de infantaria, quarenta capitães de cavalaria ligeira e vinte e quatro de cavalaria pesada. Depois de alternâncias de reveses e de êxitos de parte a parte, a batalha pode ser considerada finalmente coma indecisa. As nossas perdas, muito abaixo da cifra média habitualmente verificada em combates com uma duração e intensidade comparáveis, são sensivelmente superiores às dos Gregos em Maratona, mas inferiores às dos Prussianos em Yena.» Depois deste exemplo, não é impossível a um especialista fazer uma ideia vaga das forças envolvidas. Mas a condução das operações tem a segurança de ficar acima de qualquer julgamento.

Em Junho de 1987, Pierre Bacher, director adjunto do equipamento da E.D.F. (Electricidade de França), Expôs a última doutrina em matéria de segurança das centrais nucleares. Dotando-as de válvulas e filtros torna-se bastante mais fácil evitar catástrofes maiores, a fissuração ou a explosão do recinto que afectariam o conjunto de uma «região». É este o resultado que se obtém ao querer confinar demasiado. Mais vale descomprimir suavemente de cada vez que a máquina ameaça ter tensões de passar os limites, contaminando uma vizinhança limitada de alguns quilómetros, vizinhança que será sempre diferente e aleatoriamente prolongada pelo capricho dos ventos. Ele revelou que, nos dois anos anteriores, os discretos ensaios levados a cabo em Cadarache, no Drôme, «mostraram concretamente que as fugas - essencialmente de gás não excedem alguns milionésimos, no pior dos casos um por cento, da radioactividade reinante no recinto» Este pior dos casas fica portanto moderadíssimo: um por cento. Antes estávamos seguros de que não havia nenhum risco, salve em caso de acidente, logicamente impossível. Os primeiros anos de experiência mudaram este raciocínio desta maneira: visto que o acidente é sempre possível, o que é preciso evitar é que atinja um limiar catastrófico, e é fácil: basta contaminar, pouco a pouco, com moderação. Quem não reconhece que é infinitamente mais saudável limitar-se durante alguns anos a beber 140 centilitros de vodka por dia, em vez de começar a emborrachar-se de uma só vez como os polacos?

É certamente uma pena que a sociedade humana enfrente problemas tão abrasadores no momento em que se tornou materialmente impossível fazer ouvir a mínima objecção ao discurso mercantil; no momento em que a dominação, precisamente porque está protegida pelo espectáculo de toda a réplica às suas decisões e justificações fragmentárias ou delirantes, crê que já não tem necessidade de pensar; e verdadeiramente já não sabe pensar. Por inabalável que seja o democrata, não preferiria que Ihe tivessem escolhido senhores mais inteligentes?

Na conferência internacional de expertos realizada em Genebra, em Dezembro de 1986, colocava-se simplesmente a questão duma interdição mundial da produção de clorofluorcarbonetos, o gás que faz desaparecer desde há pouco, mas a passos largos, a fina camada de ozone que protegia este planeta - havemos de recordá-lo...- contra as efeitos nocivos da radiação cósmica. Daniel Verilhe, representante da filial de produtos químicos da ELF - Aquitaine, e integrando a este titulo uma delegação francesa firmemente oposta a esta interdição, fazia uma observação plena de sentido: «são necessários pelo menos três anos para pôr em estado de funcionamento eventuais substitutos e os custos podem ser multiplicados por quatro.» Sabe-se que esta fugitiva capa de ozone, a uma tal altitude, não pertence a ninguém nem tem nenhum valor comercial. Portanto, o estratega industrial pôde fazer avaliai aos seus contraditores toda a sua inexplicável indiferença económica, através deste chamamento à realidade: «É muito arriscado basear uma estratégia industrial segundo imperativas de matéria ambiental.»

Aqueles que, há muito tempo, começaram a criticar a economia política definindo-a como «a negação acabada do homem», não se enganavam. Poder-se-á reconhecê-la neste episódio.

XIV
Ouve-se dizer que a ciência está actualmente submetida a imperativos de rentabilidade económica; na verdade sempre foi assim. O que é novo é que a economia venha a fazer abertamente guerra aos humanos; já não somente quanto às possibilidades da sua vida, como também às da sua sobrevivência. Foi então que o pensamento cientifico escolheu, contra uma grande parte do seu próprio passado antiesclavagista, servir a dominação espectacular. Antes de chegar a este ponto, a ciência possuía uma autonomia relativa. Então sabia pensar a sua parcela da realidade e, assim, tinha podido contribuir imensamente para aumentar os meios da economia. Quando a economia toda-poderosa enlouqueceu, e os tempos espectaculares não são mais do que isto, suprimiu os últimos vestígios da autonomia cientifica, tanto no campo metodológico como no das condições práticas da actividade dos «investigadores». Já não se pede à ciência que compreenda o mundo ou o melhore nalgurna coisa. Pede-se-lhe que justifique instantâneamente tudo o que faz. Tão estúpida neste terreno como em todos os outros, que explora com a mais ruínosa irreflexão, a dominação espectacular promoveu o abate da árvore gigantesca do conhecimento cientifico com o único fim de dela talhar uma matraca. Para obedecer a essa última exigência social de uma justificação manifestamente impossível, mais vale não saber pensar incomodamente e, pelo contrário, estar-se bastante bem exercitado nas comodidades do discurso espectacular. E é com efeito nesta carreira que a ciência prostituída destes tempos miseráveis encontrou agilmente, com muita boa vontade, a sua mais recente especialização.

A ciência da justificação mentirosa apareceu naturalmente depois dos primeiros sintomas de decadência da sociedade burguesa, com a proliferação cancerosa das pseudo-ciências ditas «do homem»; mas, por exemplo, a medicina moderna pôde fazer-se passar por útil durante algum tempo, e os que venceram a varíola ou a lepra eram diferentes destes que, com baixeza, capitularam perante as radiações nucleares ou a química agro-alimentar. Nota-se rapidamente que a medicina, hoje, indubitavelmente, já não tem o direito de defender a saúde da população contra o ambiente patogénico, visto que isto seria opor-se ao Estado, ou pelo menos à indústria farmacêutica. Mas não é somente por aquilo que é obrigada a calar, que a actividade cientifica presente confessa aquilo em que se tornou. É também por aquilo que, muitas vezes, tem a simplicidade de dizer. Anunciando em Novembro de 1985, depois de uma experimentação de oito dias com quatro doentes, que talvez tivessem descoberto um remédio eficaz contra o S.I.D.A., os professores Even e Andrieu, do hospital de Laennec, viam morrer os seus doentes dois dias depois e suscitavam algumas reservas por parte de vários médicos, menos avançados ou talvez ciumentos, pela sua maneira precipitada de correr a registar, algumas horas antes da derrocada, o que não era mais que uma enganadora aparência de vitória. Aqueles professores defenderam-se sem se perturbar, afirmando que «apesar de tudo, mais valem falsas esperanças do que não haver esperança nenhuma». Eram mesmo demasiado ignorantes para reconhecer que este argumento, por si só, era uma completa negação do espirito cientifico e que tinha historicamente sempre servido para encobrir as proveitosas fantasias dos charlatães e dos feiticeiros, nos tempos em que não se Ihes confiava a direcção dos hospitais.

Quando a ciência oficial vem sendo conduzida deste modo, come todo o resto do espectáculo social que, sob uma apresentação materialmente modernizada e enriquecida, não fez mais que retomar as antiquíssimas técnicas do teatro de feira - ilusionistas, vendedores da banha da cobra e vígaros -, não pode surpreender ver que grande autoridade retomam paralelamente, um pouco por todo o lado, os bruxos e as seitas, o zen embalado em vácuo, ou a teologia dos Mormons. A ignorância, que bem serviu os poderes estabelecidos, foi sempre excessivamente explorada por engenhosas empresas que se mantinham à margem das leis. Que momento mais favorável que este em que o analfabetismo tanto progrediu? Mas esta realidade é por sua vez negada por uma outra demonstração de feitiçaria. A UNESCO, aquando da sua fundação, tinha adoptado uma definição cientifica muito precisa de analfabetismo, considerando tarefa sua combatê-lo nos países atrasados. Quando se viu reaparecer inesperadamente o mesmo facto, mas desta vez do lado dos países ditos avançados, tal como aquele que, contando com Grouchy, viu surgir Blucher na sua batalha, bastou-lhe encarregar da missão a Guarda dos Expertos, e estes rapidamente arrebataram a fórmula com um só assalto irresistível, substituindo o termo analfabetismo pelo de iletrismo: do mesmo modo um «falso patriota» pode aparecer oportunamente para apoiar uma boa causa nacional. E para alicerçar entre pedagogos a pertinência do neologismo faz-se rapidamente passar uma nova definição, come se estivesse aceite desde sempre, e segundo a qual, enquanto o analfabeto era, sabe-se, aquele que nunca tinha aprendido a ler, o iletrado em sentido moderno é, pelo contrário, aquele que aprendeu a ler (e aprendeu melhor que antes, come podem testemunhar desapaixonadamente os mais dotados teóricos e historiadores oficiais da pedagogia), mas que per acaso rapidamente esqueceu. Esta surpreendente explicação correria o risco de ser menos tranquilizadora que inquietante, se não tivesse a arte de evitar, falando de lado come se a não visse, a primeira consequência que ocorreria ao espirito de todos nas épocas mais cientificas: saber que este último fenómeno, o iletrismo, mereceria ser explicado e combatido, já que jamais pudera ser observado, nem mesmo imaginado, onde quer que fosse, antes dos recentes progressos do pensamento avariado; quando a decadência da explicação acompanha passo a passo a decadência da prática.

XV
Há mais de cem anos, o Nouveau Dictionaire des Synonymes français de A.-L. Sardou definia os matizes pouco sensíveis que é necessário discernir entre: falacioso, enganador, impostor, sedutor, insidioso, capcioso; e que em conjunto constituem hoje uma espécie de paleta de cores adequadas para um retrato da sociedade do espectáculo. Não pertence ao seu tempo, nem à sua experiência de especialista, expor tão claramente os sentidos vizinhos, mas tão diferentes, dos perigos que deve normalmente esperar-se enfrentar em todo o grupo que se entregue à subversão, e seguindo, por exemplo, esta gradação: enganado, provocado, infiltrado, manipulado, usurpado, arrependido. Estes matizes consideráveis, ainda assim, nunca foram evidentes aos doutrinários da «luta armada».

«Falacioso, do latim fallaciosus, hábil ou habituado a enganar, cheio de velhacaria: a terminação deste adjectivo (fallacieux, no original francês) equivale ao superlativo de enganador. Aquele que engana ou induz em erro seja de que maneira for, é enganador: o que é feito para enganar, abusar, lançar no erro por um desígnio consciente de enganar com o artifício e o instrumento impondo o mais apropriado para abusar, é falacioso. Enganador é uma palavra genérica e vaga; todos os sinais e aparências incertas são enganadores: falacioso designa a falsidade, a velhacaria, a impostura estudada; os discursos, os protestos, os raciocínios sofísticos são falaciosos. Esta palavra tem relações com as de impostor, de sedutor, de insidioso, de capcioso, mas sem Ihes equivaler. Impostor designa todo o género de falsas aparências ou de tramas concertadas para abusar ou para prejudicar, por exemplo, a hipocrisia, a calúnia, etc. Sedutor exprime a acção própria de apoderar-se de alguém, induzindo em erro por meios manhosos e insinuantes. Insidioso indica apenas a acção de armar manhosamente ciladas e de nelas fazer cair. Capcioso limita-se à acção subtil de surpreender alguém e de fazê-lo cair no erro. Falacioso reúne a maior parte destes caracteres.

XVI
O conceito, ainda novo, de desinformação foi recentemente importado da Rússia, justamente com outras invenções úteis à gestão dos Estados modernos. Este conceito é sempre abertamente utilizado por um poder, ou corolariamente por indivíduos que detêm um fragmento de autoridade económica ou política, para manter o que está estabelecido; e atribuindo sempre a esta utilização uma função contra-ofensiva. Aquilo que possa opor-se a uma única verdade oficial deve ser forçosamente uma desinformação emanando de potências hostis, ou pelo menos rivais, e terá sido intencionalmente falseada pela malevolência. A desinformação não seria a simples negação de um facto que convém is autoridades, ou a simples afirmação de um facto que não Ihes convém: a isto chama-se psicose. Contrariamente à pura mentira, a desinformação, e é nisto que o conceito é interessante para os defensores da sociedade dominante, deve fatalmente conter uma certa parte de verdade, mas deliberadamente manipulada per um hábil inimigo. O poder que fala de desinformação não acredita estar ele mesmo absolutamente sem defeitos, mas sabe que poderá atribuir a toda a critica precisa esta excessiva insignificância que está na natureza da desinformação; e que deste modo não terá de reconhecer nunca um defeito particular.

Em suma, a desinformação seria um mau uso da verdade. Quem a lança é culpado, e quem nela acredita imbecil. Mas quem seria então o hábil inimigo? Aqui, não pode ser o terrorismo, que não corre o risco de «desinformar» ninguém, já que esta encarregado de representar ontologicamente o erro mais estúpido e menos admissível. Graças a sua etimologia, e às recordações contemporâneas dos afrontamentos limitados que, por meados deste século, opuseram brevemente o Leste e o Oeste, espectacular concentrado e espectacular difuso, ainda hoje o capitalismo do espectacular integrado finge acreditar que o capitalismo de burocracia totalitária - apresentado mesmo por vezes como a base de retaguarda ou a inspiração dos terroristas - continua o seu inimigo essencial, assim como o outro dirá a mesma coisa do primeiro; apesar das provas inumeráveis da sua aliança e solidariedade profundas. De facto, todos os poderes instalados apesar de algumas reais rivalidades locais, e sem querer dizê-lo nunca, pensam continuamente aquilo que soube recordar um dia, do lado da subversão e sem grande sucesso no momento, um dos raros internacionalistas alemães depois do inicio da guerra de 1914: «O inimigo principal está dentro do nosso pais». A desinformação é finalmente o equivalente daquilo que representava, no discurso da guerra social do século XIX, «as más paixões». É tudo aquilo que é obscuro e arriscaria querer opôr-se à extraordinária felicidade com que esta sociedade, sabemo-lo bem, faz beneficiar aqueles que se têm fiado nela; felicidade que ignoraria ser excessivamente paga por diferentes riscos ou dissabores insignificantes. E todos aqueles que vêem essa felicidade no espectáculo admitem que não há que regatear o seu custo; enquanto que os outros desinformam.

Outra vantagem que se encontra ao denunciar, digamos assim, uma desinformação muito particular, é que em consequência o discurso global do espectáculo não será suspeito de a conter, já que pode designar, com a mais cientifica segurança, o terreno onde se reconhece a única desinformação: é tudo aquilo que pode dizer-se e que não Ihe agrada.

Sem dúvida por erro - a menos que este não fosse mais do que um logro deliberado - foi ventilado recentemente em França o projecto de atribuir oficialmente uma espécie de marca ao mediático «garantido sem desinformação»: isto melindrava alguns profissionais dos media, que queriam ainda acreditar, ou mais modestamente fazer crer, que não são efectivamente censurados no momento presente. Mas, sobretudo, o conceito de desinformação não tem evidentemente de ser utilizado defensivamente, e ainda menos numa defensiva estática, guarnecendo uma Muralha da China, uma Linha Maginot, que deveria cobrir absolutamente um espaço considerado como estando interdito à desinformação. É necessário que haja desinformação, e que ela se mantenha fluida, podendo passar per todo o lado. Lá onde o discurso espectacular não é atacado seria estúpido defendê-lo; e este conceito, contra a evidência, usar-se-ia rápidamente para o defender a respeito de assuntos que, pelo contrário, devem evitar chamar as atenções. Além disso, as autoridades não têm nenhuma necessidade real de garantir que uma informação precisa não conterá desinformação. Nem têm sequer os meios para fazê-lo: as autoridades não são tão respeitadas e não fariam mais que atrair a suspeita sobre a informação em causa. O conceito de desinformação só é bom no contra-ataque. Há que mante-lo em segunda linha, depois lançá-lo instantaneamente para a frente para repelir toda a verdade que venha a surgir.

Se por vezes uma espécie de desinformação desordenada, ao serviço de alguns interesses particulares passageiramente em conflito, arrisca aparecer e ser ela também credível, tornando-se incontrolável e opondo-se por isso ao trabalho de conjunto de uma desinformação menos irresponsável, isto não é porque haja motivos para temer que, naquela desinformação, se encontrem empenhados outros manipuladores mais expertos ou mais subtis: é simplesmente porque a desinformação desdobra-se agora num mundo onde já não há lugar para nenhuma verificação.

O conceito confusionista de desinformação foi posto em alerta para refutar instantaneamente, ao simples sussurro do seu nome, toda a critica que as diversas agências de organização do silêncio não foram capazes de fazer desaparecer. Por exemplo, poder-se-ia dizer um dia, se isso se revelasse desejável, que este escrito é um empreendimento de desinformação sobre o espectáculo; ou então, o que é a mesma coisa, de desinformação em detrimento da democracia.

Contrariamente aquilo que afirma o seu conceito espectacular invertido, a prática da desinformação só, pode servir o Estado aqui e agora, sob a sua condução directa ou por iniciativa daqueles que defendem os mesmos valores. De facto, a desinformação reside em toda a informação existente; e como seu carácter principal. Só é nomeada à onde é preciso manter, pela intimidação, a passividade. Lá onde a desinformação é nomeada não existe. Lá onde existe, não se a nomeia.

Quando ainda havia ideologias que se afrontavam, que se proclamavam por ou contra certo aspecto conhecido da realidade, havia fanáticos e mentirosos, mas não «desinformadores». Quando já não é permitido, pelo respeito do consenso espectacular ou ao menos por uma vontade de gloríola espectacular, dizer verdadeiramente aquilo a que alguém se opõe, ou também aquilo que alguém aprova em todas as suas consequências; mas onde alguém encontra muitas vezes a obrigação de dissimular um aspecto que se considera, por qualquer razão, como perigoso dentro daquilo que é suposto admitir-se, neste caso pratica-se a desinformação; como por irreflexão, ou como por esquecimento, ou como por pretendido falso raciocínio. E, por exemplo, no terreno da contestação depois de 1968, os recuperadores incapazes denominados então de «prositus» foram os primeiros desinformadores, porque dissimulavam tanto quanto possível as manifestações práticas através das quais se afirmou a crítica que se gabavam de adoptar; e, sem qualquer vergonha de enfraquecer-lhe a expressão não citavam nunca nada em ninguém, para ter o ar de terem eles próprios encontrado qualquer coisa.

XVII
Invertendo uma fórmula famosa de Hegel, já em 1967 notava eu que «num mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso». Os anos passados desde então demonstraram os progressos deste princípio em cada domínio particular, sem excepção.

Assim, numa época em que não pode mais existir arte contemporânea, torna-se difícil julgar as artes clássicas. Aqui, como em tudo o resto, a ignorância só é produzida para ser explorada. Ao mesmo tempo que se perdem simultaneamente o sentido da história e o gosto, organizam-se as redes da falsificação. Basta ter os expertos e os avaliadores, o que é bastante fácil, para fazer passar tudo, já que nos negócios desta natureza, como finalmente em todos os outros, é a venda que autentifica todo o valor. Depois, são os coleccionadores ou os museus, particularmente americanos, que, abarrotados de falso, terão interesse em manter a boa reputação, do mesmo modo que o Fundo Monetário Internacional mantém a ficção do valor positivo das imensas dívidas de cem nações.

O falso forma o gosto, e sustenta o falso, fazendo cientemente desaparecer a possibilidade de referência com o autêntico. Refaz-se mesmo o verdadeiro, desde que seja possível, para fazê-lo assemelhar-se ao falso. Os americanos, sendo os mais ricos e os mais modernos, têm sido os maiores papalvos deste comércio do falso na arte. E são precisamente eles próprios quem financia os trabalhos de restauro de Versalhes ou da Capela Sistina. Por esta razão os frescos de Miguel Angelo deverão tomar as cores avivadas da banda desenhada, e os móveis autênticos de Versalhes o vivo brilho do dourado que os fará assemelhar-se muito ao falso mobiliário da época de Luís XIV importado pelo Texas a altos custos.

O julgamento de Feuerbach sobre o facto de que o seu tempo preferia «a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade», foi inteiramente confirmado pelo século do espectáculo, e isto nos diversos domínios em que o século XIX quisera ficar à margem daquilo que era já a sua natureza profunda: a produção industrial capitalista. Foi assim que a burguesia propagou bastante o espírito rigoroso do museu, do objecto original, da crítica histórica exacta, do documento autêntico. Mas hoje é por todo o lado que o copiado tem tendência a substituir o verdadeiro. Neste ponto, é muito oportunamente que a poluição devida à circulação dos automóveis obriga a substituir por réplicas em plástico os cavalos de Marly ou as estátuas romanas da fachada de Saint-Trophine. Em suma, tudo será mais belo que antes, para ser fotografado pelos turistas.

O ponto culminante é sem dúvida atingido pelo risível falso burocrático chinês das grandes estátuas do vasto exército industrial do Primeiro Imperador, que tantos homens de Estado em viagem foram, convidados a admirar in situ. Isto prova portanto que nenhuma dispunha, no conjunto dos seus conselheiros, de um só indivíduo que conhecesse a história da arte na China ou fora dela, visto que puderam gozar com eles tão cruelmente. Sabe-se que a sua instrução foi outra: «O computador de Vossa Excelência não foi informado». Esta constatação, de que pela primeira vez se pode governar sem ter nenhum conhecimento artístico nem nenhum sentido do autêntico ou do impossível, poderia por si só bastar para conjecturar que todos estes ingénuos patetas da economia e da administração vão provavelmente conduzir o mundo para uma grande catástrofe; se a sua prática efectiva não o tivesse já demonstrado.

XVIII
A nossa sociedade é construída no segredo, desde as «sociedades-ecrãs» que põem às escuras os bens concentrados dos possuidores, até ao «segredo-defesa» que cobre hoje um imenso domínio de plena liberdade extra-judicial do Estado; desde os segredos, muitas vezes assustadores, da fabricação-pobre, que se escondem atrás da publicidade, até às projecções das variantes do futuro extrapolado, sobre as quais só a dominação lê a marcha mais provável daquilo que ela afirma não ter nenhum tipo de existência, calculando as respostas que então empregará misteriosamente. A este propósito podem fazer-se algumas observações.

Cada vez há um maior número de lugares, tanto nas grandes cidades como nalguns espaços reservados da província, que são inacessíveis, isto é, guardados e protegidos de todo e qualquer olhar; colocados fora do alcance da curiosidade inocente, e fortemente abrigados da espionagem. Sem serem todos propriamente militares, inspiram-se nesse modelo colocando-se para lá do alcance de qualquer risco de verificação pelos transeuntes ou pelos habitantes; ou mesmo pela polícia, que viu desde há muito tempo as suas funções reconduzidas à simples vigilância e repressão da delinquência mais comum. Foi assim que, em Itália, quando Aldo Moro estava prisioneiro do Potere Due, não esteve detido num edifício mais ou menos difícil de encontrar, mas simplesmente num edifício impenetrável.

Cada vez há um maior número de homens formados para agir no segredo; instruídos e adestrados para só fazer isso. Trata-se de destacamentos especiais de homens armados de arquivos reservados, isto é, de observações e análises secretas. Outros estão armados de diversas técnicas para exploração e manipulação desses assuntos secretos. Finalmente, quando se trata dos seus ramos «Acção», eles podem igualmente estar equipados de outras capacidades de simplificação dos problemas estudados.
Enquanto que os meios atribuídos a estes homens especializados na vigilância e na influência se tornam maiores, também encontram as circunstâncias gerais que Ihe são de ano para ano mais favoráveis. Quando, por exemplo, as novas condições da sociedade do espectacular integrado forçaram a sua crítica a permanecer realmente clandestina, não porque se esconda mas porque é escondida pela pesada encenação do pensamento da diversão, aqueles que estão encarregados de vigiar esta crítica e na necessidade de a desmentir, podem finalmente empregar contra ela os recursos tradicionais no meio da clandestinidade: provocação, infiltração e diversas formas de eliminação da crítica autêntica em proveito de uma falsa que poderá ser colocada no seu lugar para esse efeito. A incerteza aumenta, a propósito de tudo, quando a impostura geral do espectáculo se enriquece com a possibilidade de recurso a mil imposturas particulares. Um crime inexplicado pode também ser chamado suicídio, na prisão como em qualquer outro lugar; e a dissolução da lógica permite investigações e processos que descolam verticalmente no absurdo, e que são frequentemente falsificados desde o princípio por extravagantes autópsias, executadas por singulares expertos.

Desde há muito tempo que estamos habituados a ver por todo o lado executar sumariamente todo o tipo de gente. Os terroristas conhecidos, ou considerados como tais, são combatidos abertamente duma maneira terrorista. A Mossad vai matar longe Abou Jihad, ou os S.A.S. ingleses os Irlandeses, ou a polícia paralela do «G.A.L.» os Bascos. Aqueles que são mortos por supostos terroristas, não são eles mesmos escolhidos sem razão; mas é geralmente impossível estar seguro de conhecer estas razões. Sabe-se que a estacão dos caminhos de ferro de Bolonha foi pelos ares, à bomba, para que a Itália continue a ser bem governada; e o que são os «Esquadrões da morte» no Brasil; e que a Mafia pode incendiar um hotel nos Estados Unidos para apoiar uma extorsão. Mas como saber para que puderam servir, no fundo, os «assassinos loucos de Brabante»? É difícil aplicar o princípio cui prodest? num mundo onde tantos interesses activos estão tão bem escondidos. De tal modo que, sob o espectacular integrado, vive-se e morre-se no ponto de confluência de um grande número de mistérios.

Os rumores mediático-policiais adquirem num instante, ou no pior dos casos depois de terem sido repetidos três ou quatro vezes, o peso indiscutível de provas históricas seculares. Segundo a autoridade lendária do espectáculo do dia, estranhos personagens eliminados no silêncio reaparecem como sobreviventes fictícios, cujo retorno poderá sempre ser evocado ou calculado, e provado pela mais simples diz-se dos especialistas. Algures entre Aqueronte e Letes estão estes mortos que não foram regularmente enterrados pelo espectáculo; é suposto estarem adormecidos, esperando que se queira acordá-los, todos, o terrorista descido de novo das colinas, e o pirata regressado do mar, e o ladrão que já não tem necessidade de roubar.

A incerteza está, assim, organizada por toda a parte. A protecção da dominação precede muitas vezes por falsos ataques, cujo tratamento mediático fará perder de vista a verdadeira operação: tal como o bizarro golpe de forca de Tejero e dos seus guardas civis nas Cortes espanholas em 1981, cujo fracasso deveria esconder um outro pronunciamento mais moderno, isto é, dissimulado, e que foi bem sucedido. Igualmente vistoso, o fracasso de uma sabotagem pelos serviços especiais franceses, em 1985, na Nova Zelândia, foi por vezes considerado como um estratagema, talvez destinado a desviar a atenção das numerosas novas funções destes serviços, pretendendo convencer da sua caricatural imperícia na escolha dos objectivos como nas modalidades de execução. E com mais segurança foi avaliado, quase por todo o lado, que as pesquisas geológicas de um jazigo petrolífero no subsolo da cidade de Paris, que foram ruidosamente levadas a cabo no Outono de 1986, não tinham outra intenção mais séria que a de medir o ponto que tinha podido alcançar a capacidade de embrutecimento e de submissão dos habitantes, mostrando-lhes uma pretendida pesquisa tão perfeitamente demencial no plano económico.

O poder tornou-se tão misterioso que, depois do assunto das vendas ilegais de armas ao Irão pela Presidência dos Estados Unidos, pode perguntar-se quem governa verdadeiramente nos Estados Unidos, a mais forte potência do mundo dito democrático? E, portanto, que diabo pode comandar o mundo democrático?

Mais profundamente, neste mundo oficialmente tão cheio de respeito por todas as necessidades económicas, ninguém sabe quanto custa verdadeiramente qualquer das coisas que se produzem: com efeito, a parte mais importante do custo real nunca é calculada; e o resto é mantido secreto.

XIX
O general Noriega tornou-se num instante conhecido mundialmente no princípio do ano de 1988. Era ditador sem título do Panamá, país sem exército, onde comandava a Guarda Nacional. Pois o Panamá não é verdadeiramente um Estado soberano: foi escavado pelo seu canal e não o contrário. O dólar é a sua moeda, e o verdadeiro exército ali estacionado é igualmente estrangeiro. Noriega tinha feito toda a sua carreira, nisto perfeitamente idêntica à de Jaruzelski na Polónia, como general-polícia ao serviço do ocupante. Era importador de droga para os Estados Unidos, pois o Panamá não produz o suficiente, e exportava para a Suíça os seus capitais «panamianos».Tinha trabalhado com a C.I.A. contra Cuba e, para ter a cobertura adequada às suas actividades económicas, tinha também denunciado às autoridades americanas, tão obcecadas por este problema, um certo número dos seus rivais na importação. O seu principal conselheiro em matéria de segurança, que provocava inveja em Washington, era o melhor do mercado, Michael Harari, antigo oficial da Mossad, o serviço secreto de Israel. Quando os americanos quiseram desfazer-se do personagem, porque alguns dos seus tribunais o tinham imprudentemente condenado, Noriega declarou-se disposto a defender-se durante mil anos, por patriotismo panamiano, simultaneamente contra o seu povo em revolta e contra o estrangeiro, e rapidamente recebeu a aprovação pública dos ditadores burocráticos mais austeros de Cuba e da Nicarágua, em nome do anti-imperialismo.

Longe de ser uma estranheza estritamente panamiana, este general Noriega, que vende tudo e simula tudo num mundo que por todo o lado faz o mesmo, era, ao mesmo tempo, como espécie de homem duma espécie de Estado, como espécie de general, como capitalista, perfeitamente representativo do espectacular integrado; e dos êxitos que este permite nas direcções mais variadas da sua política interior e internacional. É um modelo do príncipe do nosso tempo; e entre aqueles que se destinam a chegar e a ficar no poder, em qualquer sítio onde este possa estar, os mais capazes assemelham-se-lhe bastante. Não é o Panamá que produz tais maravilhas, é esta época.

XX
Para todo o serviço de informações, neste ponto em concordância com a justa teoria clausewitziana da guerra, um saber deve tornar-se um poder. Daqui este serviço obtém presentemente o seu prestígio, a sua espécie de poesia especial. Quando a inteligência foi tão absolutamente expulsa do espectáculo que não permite agir e nem diz grande coisa de verdade sobre a acção dos outros, quase parece ter-se refugiado entre aqueles que analisam as realidades e agem secretamente sobre as realidades. Recentemente, revelações que Margaret Thatcher tudo fez para abafar, mas em vão, autentificando-as deste modo, mostraram que em Inglaterra estes serviços tinham já sido capazes de levar à queda dum ministério cuja política consideravam perigosa. O desprezo geral que suscita o espectáculo restitui, assim, por novas razões, uma atracção para aquilo que pôde ser chamado, no tempo de Kipling, «o grande jogo».

A «concepção policial da história» era no século XIX uma explicação reaccionária, e ridícula, quando tantos e tão poderosos movimentos sociais agitavam as massas. Os pseudo-contestatários de hoje sabem-no bem, por ouvir dizer ou através de alguns livros, e julgam que esta conclusão permaneceu verdadeira para a eternidade. Eles nunca querem ver a prática real do seu tempo. Porque ela é triste demais para as suas frias esperanças. O Estado não o ignora e joga com isso.

No momento em que quase todos os aspectos da vida política internacional, e um número sempre crescente daqueles que contarn na política interna, são conduzidos e mostrados no estilo dos serviços secretos, com enganos, desinformação, dupla explicação - aquela que pode esconder uma outra, ou apenas parecê-lo -, o espectáculo limita-se a dar a conhecer o mundo fatigante do incompreensível obrigatório, uma aborrecida série de romances policiais privados de vida e onde sempre falta a conclusão. É então que a encenação realista de um combate de negros, de noite, num túnel, deve passar por um efeito dramático suficiente.

A imbecilidade crê que tudo é claro, quando a televisão mostrou uma bela imagem e a comentou com uma audaciosa mentira. A semi-élite contenta-se em saber que quase tudo é obscuro, ambivalente, «montado» em função de códigos desconhecidos. Uma elite mais fechada quereria saber o verdadeiro, muito difícil de distinguir claramente em cada caso particular, apesar de todos os dados reservados e das confidências de que pode dispor. É por isto que ela amaria conhecer o método da verdade, ainda que no seu seio este amor continue a ser geralmente infeliz.

XXI
O segredo domina este mundo, e em primeiro lugar como segredo da dominação. Segundo o espectáculo o segredo não seria mais que uma necessária excepção à regra da informação abundantemente oferecida por toda a superfície da sociedade, do mesmo modo que a dominação, neste «mundo livre» do espectacular integrado, se reduziria a não ser mais que um Departamento executivo ao serviço da democracia. Mas ninguém acredita verdadeiramente no espectáculo. Como aceitariam os espectadores a existência do segredo, que garante, por si só, que não podem gerir um mundo do qual ignoram as principais realidades, se a título extraordinário se Ihes pedisse verdadeiramente a sua opinião sobre a maneira de preceder? É um facto que o segredo não aparece a quase ninguém na sua pureza inacessível, e na sua generalidade funcional. Todos admitem que haja uma pequena zona de segredo reservada aos especialistas; e para a generalidade das coisas, muitos acreditam estar no segredo.

La Boétie demonstrou, no Discurso sobre a servidão voluntária, como o poder de um tirano deve encontrar numerosos apoios entre os círculos concêntricos dos indivíduos que nele encontram, ou crêem encontrar, o seu proveito. Da mesma maneira muitos, entre os políticos ou mediáticos que estão convencidos de que não se pode suspeitar deles como sendo irresponsáveis, conhecem muitas coisas pelas relações e pelas confidências. Aquele que se contenta com estar dentro da confidência, não é muito impelido a criticá-la; nem portanto a reparar que, em todas as confidências, a parte principal da realidade ser-lhe-á sempre escondida. Pela benevolente protecção dos trapaceiros, conhece umas poucas cartas mais, mas que podem ser falsas; e nunca o método que dirige e explica o jogo. Identifica-se, assim, em seguida com os manipuladores e despreza a ignorância que no fundo partilha. Pois as migalhas da informação oferecidas a estes familiares da tirania mentirosa estão normalmente infectadas de mentira, incontroláveis, manipuladas: Contudo, satisfazem aqueles que a elas acedem, porque se sentem superiores a todos os que não sabem nada. De resto, não valem senão para melhor fazer aceitar a dominação, e nunca para a compreender efectivamente. Elas constituem o privilégio dos espectadores de primeira classe: aqueles que têm a palermice de acreditar que podem compreender algo, não servindo-se daquilo que se Ihes esconde, mas acreditando naquilo que se Ihes revela !

A dominação é lúcida pelo menos naquilo que espera da sua própria gestão, livre e sem entraves, um número bastante grande de catástrofes de primeira grandeza para muito em breve; e isto tanto nos campos ecológicos, químico, por exemplo, como nos domínios económicos, bancário, por exemplo. Desde há algum tempo, a dominação colocou-se em situação de tratar estas desgraças excepcionais de forma diferente do habitual manejo da doce desinformação.

XXII
Quanto aos assassinatos, em número crescente desde há mais de duas décadas, que ficaram inteiramente por explicar, - pois, se foi por vezes sacrificado algum comparsa, jamais esteve em questão chegar aos comandatários -, o seu carácter de produção em série tem marca própria: as mentiras evidentes, e variáveis, das declarações oficiais; Kennedy, Aldo Moro, Olof Palme, ministros ou financeiros, um ou dois papas, e outros que valiam mais do que eles. Este síndroma de uma doença social recentemente adquirida espalhou-se rapidamente um pouco por toda a parte, como se a partir dos primeiros casos observados, ele descesse dos píncaros dos Estados, esfera tradicional deste género de atentados, e como se, ao mesmo tempo, ele subisse do bas-fond, outro lugar tradicional de tráficos ilegais e protecções entre profissionais, onde sempre se desenrolou este género de guerra. Estas práticas tendem a encontrar-se na meio de todos os negócios da sociedade, como se de facto o Estado não desdenhasse misturar-se nelas, e a Mafia conseguisse elevar-se até ele, operando-se, assim, uma espécie de junção.

Ouviu-se já dizer de tudo para tentar explicar acidentalmente este novo género de mistérios: incompetência das polícias, palermice dos juizes de instrução, inoportunas revelações da imprensa, crise de crescimento dos serviços secretos, má vontade das testemunhas, greve categórica dos delatores. Todavia, Edgar Poe tinha já encontrado a direcção certa da verdade, no seu célebre raciocínio no Duplo assassinato na rua Morgue

«Parece-me que o mistério é considerado como irresolúvel, pela mesma razão que deveria fazer vê-lo como fácil de resolver - refiro-me ao carácter excessivo sob o qual se manifesta... Em investigações do género desta que nos ocupa, não é tão necessário saber-se como se passaram as coisas, mas antes estudar em que é que elas se destinguem de tudo aquilo que aconteceu até ao presente.»

XXIII
Em Janeiro de 1988, a Mafia colombiana da droga publicava um comunicado destinado a rectificar a opinião pública sobre a sua pretendida existência. A maior exigência duma Mafia, onde quer que possa estar constituída, é naturalmente estabelecer que não existe, ou que foi vítima de calúnias pouco científicas; esta é a primeira semelhança com o capitalismo. Mas na circunstância, esta Mafia irritada por ser a única posta em evidência chegou a evocar os outros agrupamentos que queriam fazer-se esquecer, tornando-a abusivamente por bode expiatório. Declarava: «Nós não pertencemos à Mafia burocrática e política, nem à dos banqueiros e financeiros, nem à dos milionários, nem à Mafia dos grandes contratos fraudulentos, à dos monopólios ou à do petróleo, nem à dos grandes meios de comunicação.»

Pode seguramente considerar-se que os autores desta declaração, como os outros, têm interesse em verter as suas práticas no vasto rio de águas turvas da criminalidade e das ilegalidades banais, que inunda em toda a sua extensão a sociedade actual; mas também é justo reconhecer que se trata de pessoas que, por profissão, sabem melhor que ninguém do que falam. A Mafia desenvolve-se por todo o lado e ainda melhor no terreno da sociedade moderna. Está em crescimento tão rápido como os outros produtos do trabalho pelo qual a sociedade do espectacular integrado talha o seu mundo. A Mafia cresce com os imensos progressos dos computadores e da alimentação industrial, da completa reconstrução urbana e dos bairros-da-lata, dos serviços especiais e do analfabetismo.

XXIV
A Mafia não era mais que um arcaísmo transplantado, quando no princípio do século começou a manifestar-se nos Estados Unidos, com a imigração de trabalhadores sicilianos; na mesma altura em que apareciam na costa oeste as guerras de gangs entre as sociedades secretas chinesas. Fundada no obscurantismo e na miséria, a Mafia não podia implantar-se na mesma altura na Itália do Norte. Parecia condenada a desaparecer por todo o lado perante o Estado moderno. Era uma forma de crime organizado que não podia prosperar senão na «protecção» de minorias atrasadas, fora do mundo urbano, lá onde não podia penetrar o controlo duma polícia racional e das leis da burguesia. A táctica defensiva da Mafia nunca podia ser outra que não fosse a supressão das testemunhas, para neutralizar a polícia e a justiça, e fazer reinar na sua esfera de actividade o segredo que Ihe é necessário. Em seguida encontrou um campo novo no novo obscurantismo da sociedade do espectacular difuso, depois integrado: com a vitória total do segredo, a demissão geral dos cidadãos, a perda completa da lógica, os progressos da corrupção e da cobardia universais, todas as condições favoráveis foram reunidas para que ela chegasse a ser uma potência moderna e ofensiva.

A Proibição americana - grande exemplo das pretensões dos Estados deste século no controlo autoritário de tudo, e dos resultados que daqui decorrem - deixou ao crime organizado, durante mais de uma década, a gestão do comércio do álcool. A partir daí, a Mafia, enriquecida e exercitada, ligou-se à política eleitoral, aos negócios, ao desenvolvimento do mercado de assassinos profissionais, a certos detalhes da política internacional. Deste modo a Mafia foi favorecida pelo governo de Washington durante a Segunda Guerra Mundial, para ajudar à invasão da Sicília. O álcool legalizado foi substituído pelos estupefacientes, que se constituíram então como mercadoria-vedeta dos consumos ilegais. Depois a Mafia adquiriu uma importância considerável no ramo imobiliário, nos bancos, na alta política e nos altos negócios de Estado, por fim nas indústrias do espectáculo: televisão, cinema, edição. É também já uma realidade, pelo menos nos Estados Unidos, na própria indústria discográfica, corno em todos os ramos em que a publicidade de um produto depende de um número bastante concentrado de indivíduos. Pode-se, pois, facilmente fazer pressão sobre eles, comprando-os ou intimidando-os, já que se dispõe evidentemente de capitais suficientes, ou de homens de mão que não podem ser reconhecidos nem punidos. Corrompendo os disc-jokeys, decide-se, assim, daquilo que deverá ser o êxito, entre mercadorias tão igualmente miseráveis.

Foi sem dúvida em Itália que a Mafia, no regresso das suas experiências e conquistas americanas alcançou a maior força: depois da época do seu compromisso histórico com o governo paralelo, encontrou-se em situação de mandar matar juizes de instrução ou chefes da polícia; prática que ela tinha podido inaugurar durante a sua participação nas montagens do «terrorismo» político. Em condições relativamente independentes, a evolução similar do equivalente japonês da Mafia prova bem a unidade da época.

É enganador querer explicar qualquer coisa opondo a Mafia ao Estado: nunca estão em rivalidade. A teoria verifica com facilidade aquilo que todos os rumores da vida prática tinham muito facilmente demonstrado. A Mafia não é estranha neste mundo; ela está nele como em sua casa. No momento do espectacular integrado, a Mafia reina de facto como o modelo de todas as empresas comerciais avançadas.

XXV
Com as novas condições que predominam actualmente na sociedade esmagada pelo tacão de ferro do espectáculo, sabe-se que, por exemplo, um assassinato político é visto a uma outra luz; de algum modo velada. Há em toda a parte muitos mais loucos que outrora, mas o que é infinitamente mais cómodo é que pode falar-se disso loucamente. E não é um terror reinante qualquer quem imporia tais explicações mediáticas. Pelo contrário, é a existência passiva de tais explicações que deve causar terror.
Quando em 1914, estando eminente a guerra, Villain assassinou Jaurés, ninguém duvidou que Villain, indivíduo sem dúvida bem pouco equilibrado, acreditou dever matar Jaurés porque este aparecia, aos olhos dos extremistas da direita patriótica que tinham influenciado profundamente Villain, como alguém que seria certamente nocivo para a defesa do país. Estes extremistas apenas tinham subestimado a imensa força do consenso patriótico no partido socialista, que devia impeli-lo instantaneamente à «união sagrada»; que Jaurés fosse assassinado ou, pelo contrário, se Ihe deixasse a ocasião de manter firme a sua posição internacionalista ao recusar a guerra. Hoje, em presença de um tal acontecimento, os jornalistas-policiais, expertos notórios em «factos de sociedade» e em «terrorismo», diriam imediatamente que Villain era sobejamente conhecido por ter várias vezes esboçado tentativas de homicídio, impulso visando em todas elas homens, que podiam professar opiniões políticas muito diversas, mas que tinham por acaso uma parecença, física ou de vestuário, com Jaurés. Psiquiatras atestá-lo-iam e os media, afirmando nem mais nem menos o que aqueles Ihes tinham dito, atestariam com este mesmo facto a sua competência e imparcialidade de expertos incomparavelmente autorizados. Depois, a investigação policial oficial poderia estabelecer, a partir do dia seguinte, que se acabavam de descobrir diversos homens honrados prontos a testemunhar o facto deste mesmo Villain, considerando-se um dia mal servido na «Chope du Croissant», ter, na presença deles, exuberantemente ameaçado vingar-se proximamente do dono do café abatendo à vista de toda a gente, naquele mesmo lugar, um dos seus melhores clientes.

Isto não quer dizer que, no passado, a verdade se impunha muitas vezes e sem demora; já que Villain foi finalmente absolvido pela Justiça francesa. Não foi fuzilado senão em 1936, quando rebentou a revolução espanhola, pois tinha cometido a imprudência de residir nas ilhas Baleares.

XXVI
E porque as novas condições dum manejo proveitoso dos assuntos económicos o exigem imperativamente, no momento em que o Estado detém uma parte hegemónica na orientação da produção e onde a procura para todas as mercadorias depende estreitamente da centralização realizada na informação-incitação espectacular, à qual deverão também adaptar-se as formas de distribuição, que por todo o lado se vê constituírem-se redes de influência ou sociedades secretas. Não é mais que um produto natural do movimento de concentração de capitais, da produção, da distribuição. Nesta matéria, aquilo que não se estende deve desaparecer; e nenhuma empresa pode estender-se sem os valores, as técnicas, os meios, daquilo que são hoje a indústria, o espectáculo, o Estado. Em última análise é o desenvolvimento particular escolhido pela economia da nossa época, que vem impor por toda a parte a formação de novos laços pessoais de dependência e de protecção.

É justamente neste ponto que reside a profunda verdade desta fórmula, tão bem compreendida em toda a Itália, usada pela Mafia siciliana: «Quem tem dinheiro e amigos ri-se da Justiça». No espectacular integrado, as leis dormem; porque não foram feitas para as novas técnicas de produção, e porque elas são torneadas na distribuição por acordos de um tipo novo. O que pensa ou prefere o público não tem importância. Eis o que é escondido pelo espectáculo de tantas sondagens de opinião, de eleições, de restruturações modernizantes. Quem quer que sejam os vencedores, o menos bom será arrebatado pela amável clientela: já que terá sido exactamente isso que foi produzido para ela.

Só se fala continuamente de «Estado de Direito», a partir do momento em que o Estado moderno dito democrático deixou em geral de o ser. Não é de modo nenhum por acaso que a expressão só foi popularizada pouco depois de 1970 e, em primeiro lugar, justamente em Itália. Em muitos domínios, fazem-se mesmo leis precisamente para que sejam torneadas, por aqueles que justamente possuirão todos os meios para isso. A ilegalidade em certas circunstâncias, por exemplo, à volta do comércio mundial de todo o tipo de armamentos, e mais frequentemente envolvendo produtos da mais alta tecnologia, não é mais que uma espécie de força de apoio da operação económica, que se encontrará muito mais rentável. Hoje muitos negócios são necessariamente desonestos como o século, e não como eram outrora aqueles que praticavam, em séries claramente delimitadas, os homens que tinham escolhido os caminhos da desonestidade.

À medida que crescem as redes de promoção-controlo para balizar e dominar os sectores exploráveis do mercado, aumenta também o número de serviços pessoais que não podem ser recusados àqueles que estão ao corrente, e que não têm proveito em recusar essa ajuda; e nem sempre se trata de polícias ou dos guardiões dos interesses ou da segurança do Estado. As cumplicidades funcionais comunicam a grande distância, e por muito tempo, pois as suas redes dispõem de todos os meios para impôr estes sentimentos de reconhecimento ou de fidelidade que, infelizmente, foram sempre tão raros na actividade livre dos tempos burgueses.

Aprende-se sempre alguma coisa do adversário. É preciso acreditar que os homens de Estado foram levados, também eles, a ler as observações do jovem Lukàcs sobre os conceitos de legalidade e de ilegalidade, no momento em que tiveram de tratar da passagem efémera duma nova geração do negativo - Homero disse que «uma geração de homens passa tão rápida como uma geração de folhas». Os homens de Estado, desde então, puderam deixar, como nós, de embaraçar-se com qualquer tipo de ideologia sobre esta questão; a verdade é que as práticas da sociedade espectacular não favoreciam absolutamente nada as ilusões ideológicas deste tipo. A propósito de nós todos, finalmente, poder-se-á concluir que aquilo que nos impediu muitas vezes de nos envolvermos numa só actividade ilegal foi termos tido várias.

XXVII
Tucídides, no livro VIII, capítulo 66, da Historia da Guerra do Peloponeso diz, a propósito das operações de uma outra conspiração oligárquica, algo que tem muito de parecido com a situação em que nos encontramos: «Mas para além disso, aqueles que ali tomavam a palavra faziam parte da conspiração e os discursos que pronunciavam tinham sido submetidos ao exame prévio dos seus amigos. Nenhuma oposição se manifestava entre o resto dos cidadãos, que temiam o número de conjurados. Logo que algum ensaiava, apesar de tudo, contradizê-los, encontrava-se em seguida um meio cómodo de eliminá-lo. Os assassinos não eram procurados e nenhuma perseguição era iniciada contra aqueles de quem se suspeitava. O povo não reagia e as gentes estavam de tal forma aterrorizadas que se consideravam felizes, ainda que calando, por escapar às violências. Imaginando os conjurados bem mais numerosos do que eram na realidade, tinham o sentimento de uma impotência completa. A cidade era demasiado grande e eles não se conheciam o suficiente entre si para que Ihes fosse possível descobrir o que cada um era verdadeiramente. Nestas condições, por indignado que se estivesse, não se podia confiar estas queixas a ninguém. Devia portanto renunciar-se à preparação de uma acção contra os culpados, pois para isso seria necessário dirigir-se a um desconhecido ou a uma pessoa conhecida de quem se desconfiava. No partido democrático, as relações pessoais estavam por toda a parte marcadas pela desconfiança e sempre ficava a dúvida se aquele com quem se tinha relação não era conivente com os conjurados. Com efeito, entre estes últimos havia homens de quem nunca se teria acreditado que se unissem à oligarquia.»

Se a história nos deve regressar depois deste eclipse, o que depende de factores ainda em luta e, portanto, dum resultado que ninguém poderá excluir com certeza, estes Comentários poderão servir para escrever um dia a história do espectáculo; sem dúvida o mais importante acontecimento que se produziu neste século; e também aquele que menos se arriscou explicar. Em circunstâncias diferentes, creio que poderia considerar-me grandemente satisfeito pelo meu primeiro trabalho sobre este assunto e deixar a outros o cuidado de observar a continuação. Mas, no momento em que estamos, pareceu-me que nenhum outro o faria.

XXVIII
Das redes de promoção-controlo desliza-se insensivelmente para as redes de vigilância-desin-formação. Antigamente, apenas se conspirava contra uma ordem estabelecida. Hoje conspirar a seu favor é uma nova profissão em grande desenvolvimento. Sob a dominação espectacular, conspira-se para a manter, e para assegurar aquilo que só ela poderá chamar o seu bom rumo. Esta conspiração faz-parte do seu próprio funcionamento.

Começou-se já a colocar no sítio alguns meios de uma espécie de guerra civil preventiva, adaptados a diferentes projecções do futuro calculado. Trata-se das «organizações específicas» encarregadas de intervir nalguns pontos segundo as necessidades do espectacular integrado. Previu-se, assim, para a pior das eventualidades, uma táctica, dita por chalaça «das Três Culturas», em evocação duma praça do México no Verão de 1968, mas desta vez sem cerimónias e que, de resto, deveria ser aplicada antes do dia da revolta. E fora casos tão extremos, não é necessário, para ser um bom meio de governo, que o assassinato inexplicado toque muita gente ou reapareça frequentemente: o simples facto de saber-se que essa possibilidade existe, complica imediatamente os cálculos num vasto número de domínios. Não há sequer necessidade de ser inteligentemente selectivo, ad hominem. O emprego deste procedimento, duma maneira puramente aleatória, seria talvez mais produtivo.

Está-se também em situação de mandar compôr fragmentos de uma crítica social de domesticação que deixará de ser confiada aos universitários ou aos mediáticos, a quem mais vale daqui em diante manter afastados das mentiras demasiado tradicionais neste debate; mas será uma crítica melhor, lançada e explorada de uma forma nova, manejada por uma outra espécie de profissionais, melhor formados. Começam a aparecer, de urna maneira bastante confidencial, textos lúcidos, anónimos ou assinados por desconhecidos - táctica aliás facilitada pela concentração de conhecimentos de todos sobre os bobos do espectáculo; a qual faz com que os desconhecidos pareçam justamente os mais estimáveis -, não apenas sobre temas que nunca são abordados no espectáculo, mas ainda com argumentos cuja justeza é tornada mais marcante pela espécie de originalidade, calculável, que Ihes advém do facto de não serem em suma nunca utilizados, ainda que sejam bastante evidentes. Esta prática pode servir pelo menos de primeiro grau de iniciação para recrutar espíritos um pouco despertos, a quem se dirá mais tarde, se forem proveitosos, uma maior dose da continuação possível. E o que será para alguns, o primeiro passo de uma carreira, será para outros - menos bem classificados - o primeiro degrau da armadilha na qual serão apanhados.

Em certos casos, trata-se de criar, sobre questões que correriam o risco de tornar-se escaldantes, uma outra pseudo-opinião crítica; e entre as duas opiniões que, assim, surgiriam uma e outra estranhas às miseráveis convenções espectaculares, o juízo ingénuo poderá oscilar indefinidamente, e a discussão para as avaliar será relançada cada vez que convenha. Trata-se a maior parte das vezes de um discurso geral sobre aquilo que está mediaticamente escondido e este discurso poderá ser fortemente crítico, e nalguns pontes manifestamente inteligente, mas ficando curiosamente descentrado. Os temas e as palavras foram seleccionados artificialmente, com a ajuda de computadores informados em pensamento crítico. Há nestes textos algumas falhas, bem pouco visíveis, mas apesar disso dignas de ser assinaladas: neles, o ponto de fuga da perspectiva está sempre anormalmente ausente. Parecem-se com o fac-simile de uma arma célebre, a que falta apenas o percutor. É necessariamente uma crítica lateral que vê várias coisas com muita franqueza e justeza, mas colocando-se de lado. Isto não porque finja uma qualquer imparcialidade, pois é-lhe necessário pelo contrário ter ar de censurar muito, mas sem nunca mostrar sentir a necessidade de deixar aparecer qual é a sua causa; portanto, de dizer, mesmo implicitamente, donde vem e para onde desejaria ir.

A esta espécie de falsa crítica contra-jornalística, pode juntar-se a prática organizada do rumor, do qual se sabe ser originariamente uma espécie de resgate selvagem da informação espectacular, pois, toda a gente pressente nele, pelo menos vagamente, um carácter enganador, e daí a pouca confiança que merece. O rumor foi na sua origem supersticioso, ingénuo, auto-intoxicado. Mas, mais recentemente, a vigilância começou a colocar na população gente susceptível de lançar, ao primeiro sinal, os rumores que poderão convir-lhe. Aqui, decidiu-se aplicar na prática as observações de uma teoria formulada há perto de trinta anos, e cuja origem se encontrava na sociologia americana da publicidade: a teoria dos indivíduos a quem se pôde chamar de «locomotivas», isto é, que outros a sua volta vão ser levados a seguir e imitar, mas passando desta vez do espontâneo ao preparado. Presentemente também se libertaram os meios orçamentais ou extra-orçamentais para sustentar muitos supletivos, ao lado dos anteriores especialistas, universitários e mediáticos, sociólogos ou polícias, do passado recente. Acreditar que se aplicam ainda mecanicamente alguns modelos conhecidos do passado é tão enganador como a ignorância geral do passado. «Roma já não é Roma» e a Mafia já não é a ralé. E os serviços de vigilância e desinformação parecem-se cada vez menos com o trabalho dos policias e informadores de outrora - por exemplo, aos bófias e bufos do Segundo Império - assim como os serviços especiais actuais, em todos os países, se parecem pouco com as actividades dos oficiais da Segunda Divisão do Estado-Naior do Exército em 1914.

Desde que a arte morreu, sabe-se que se tornou extremamente fácil disfarçar polícias de artistas. Quando as últimas imitações dum neo-dadaismo regressado são autorizadas a pontificar gloriosamente no mediático, e, portanto, também a modificar um pouco a decoração dos palácios oficiais, como os bobos dos reis de pacotilha, vê-se que simultaneamente uma cobertura cultural se encontra garantida a todos os agentes ou auxiliares das redes de influência do Estado. Abrem-se pseudo-museus vazios, ou pseudo-centros de investigação sobre a obra completa duma personagem inexistente, tão depressa como se faz a reputação de jornalistas-policiais, ou historiadores-policiais, ou romancistas-policiais. Arthur Cravan via sem dúvida chegar este mundo quando escrevia em Maintenant: «Na rua em breve não se verá senão artistas, e ter-se-á todas as dificuldades do mundo para aí descobrir um homem.» Tal é também o sentido desta forma rejuvenescida dum antigo dito humorístico da vadiagem de Paris: «0lá artistas! Estou-me a cagar se me engano.»

Tendo chegado as coisas a serem aquilo que são, pode ver-se alguns autores colectivos empregados da edição mais moderna, quer dizer, aquela que dispõe da melhor difusão comercial. Sendo a autenticidade dos seus pseudónimos assegurada apenas pelos jornais, estes autores colectivos repetem-se, colaboram, substituem-se, empregam novos cérebros artificiais. Estão encarregados de exprimir o estilo de vida e de pensamento da época, não em virtude da sua personalidade, mas segundo ordens. Aqueles que pensam que eles são verdadeiramente empreendedores literários individuais, independentes, podem então chegar a assegurar sabiamente que, agora, Ducasse zangou-se com o conde de Lautréamont; que Dumas não é Macquet e que é preciso sobretudo não confundir Erckman com Chatrian; e que Censier e Daubenton já não se falam. Seria melhor dizer que este género de autores modernos quis seguir Rimbaud, pelo menos nisto, «Eu é um outro».

Os serviços secretos foram chamados por toda a história da sociedade espectacular a jogar nela o papel de placa giratória central, já que neles se concentram ao mais alto grau as características e os meios de execução duma semelhante sociedade. São também cada vez mais encarregados de arbitrar os interesses gerais desta sociedade, ainda que sob o seu modesto título de «serviços». Não se trata de abuso, já que eles exprimem fielmente os costumes ordinários do século do espectáculo. E é assim que vigilantes e vigiados se afastam rapidamente num oceano sem limites. O espectáculo fez triunfar o segredo, e este deverá permanecer cada vez mais nas mãos dos especialistas do segredo que, bem entendido, não são todos funcionários autonomizando-se, a diferentes níveis, do controlo do Estado; que não são todos funcionários.

XXIX
Uma lei geral do funcionamento do espectacular integrado, pelo menos para aqueles que Ihe gerem a conduta é que, neste quadro, tudo aquilo que pode fazer-se deve ser feito. Quer dizer que todo o novo instrumento deve ser utilizado, custe o que custar. A ferramenta nova torna-se em todo o lado o fim e o motor do sistema; e será a única a poder modificar consideravelmente a sua marcha, cada vez que o seu emprego é imposto sem outra reflexão. Os proprietários da sociedade, com efeito, querem antes de mais manter uma certa «relação social entre as pessoas» mas é-lhes necessário também continuar nela a renovação tecnológica incessante; porque esta foi uma das obrigações que aceitaram com a sua herança. Por conseguinte, esta lei aplica-se igualmente aos serviços que protegem a dominação. O instrumento que se pôs em estado de funcionamento deve ser utilizado e o seu uso reforçará as mesmas condições que favorecem este emprego. É assim que os procedimentos de urgência se tornam processes de sempre.

A coerência da sociedade do espectáculo tem, duma certa maneira, dado razão aos revolucionários, visto que se tornou claro que nela não pode reformar-se o mais pequeno detalhe sem desfazer o conjunto. Mas, ao mesmo tempo, esta coerência suprimiu toda a tendência revolucionária organizada suprimindo os terrenos sociais onde ela tinha podido, mais ou menos bem, exprimir-se: do sindicalismo aos jornais, da cidade aos livros. Num mesmo movimento pôs-se a claro a incompetência e a irreflexão de que esta tendência era naturalmente portadora. E no plano individual, a coerência que reina é bem capaz de eliminar, ou comprar, certas excepções eventuais.

XXX
A vigilância poderia ser muito mais perigosa se não tivesse sido empurrada, na via do controlo absoluto de todos, até a um ponto onde ela encontra dificuldades resultantes dos seus próprios progressos. Há contradição entre a massa de informações recolhidas sobre um número crescente de indivíduos, e o tempo e a inteligência disponíveis para as analisar; ou muito simplesmente o seu possível interesse. A abundância da matéria obriga a resumi-la a cada passo: muita desaparece, e a restante é ainda demasiado extensa para ser lida. A conduta da vigilância e da manipulação não esta unificada. Em todo o lado, com efeito, luta-se pela partilha dos benefícios; e, por conseguinte, também pelo desenvolvimento prioritário desta ou daquela virtualidade da sociedade existente, em detrimento de todas as suas outras virtualidades que, entretanto, são tidas por igualmente respeitáveis, contanto que sejam da mesma laia.

Luta-se também por jogo. Cada oficial implicado é levado a sobrevalorizar os seus agentes, e também os adversários de que se ocupa. Cada país, sem fazer menção das numerosas alianças supra-nacionais, possui presentemente um numero indeterminado de serviços de polícia ou contra-espionagem, e de serviços secretos estatais ou para-estatais. Existem também muitas companhias privadas que se ocupam da vigilância, protecção, informação. As grandes firmas multinacionais têm naturalmente os seus próprios serviços; mas igualmente as empresas nacionalizadas, mesmo de dimensão modesta, que não deixam de ter a sua política independente, no plano nacional e por vezes internacional. Pode ver-se um grupo industrial nuclear opor-se a um grupo petrolífero, ainda que sejam um e outro propriedade do mesmo Estado e, mais ainda, que estejam dialecticamente unidos um ao outro pelo seu apego em manter elevado o preço do petróleo no mercado mundial. Cada serviço de segurança duma indústria particular combate a sabotagem no seu seio, e em caso de necessidade organiza-a no seu rival: quem investe grandes interesses num túnel submarino é favorável à insegurança dos ferry-boats e pode pagar a jornais em dificuldades para a fazer sentir na primeira ocasião, e sem demorada reflexão; e quem faz concorrência à Sandoz é indiferente aos lençóis de água freáticos do Vale do Reno. Vigia-se secretamente o que é secreto. De maneira que cada um desses organismos, confederados com muita flexibilidade à volta daqueles que têm a seu cargo a razão de Estado, aspira por conta própria a uma espécie de hegemonia privada de sentido. Pois o sentido perdeu-se com o centro conhecível.

A sociedade moderna que, até 1968, ia de êxito em êxito e estava persuadida de que era amada, teve de renunciar desde então a estes sonhos; prefere ser temida. Sabe bem que «o seu ar de inocência já não voltará mais».

Assim, mil e uma conspirações a favor da ordem estabelecida enredam-se e combatem-se um pouco por todo o lado, com a imbricação cada vez mais estendida das redes e das questões ou acções secretas; e o seu processo de integração rápida em cada ramo da economia, da política, da cultura. O teor da mistura em observadores, em desinformadores, em serviços especiais, aumenta continuamente em todas as zonas da vida social. A conspiração geral tornou-se tão densa que se espalha quase às claras, cada um dos seus ramos pode começar a incomodar ou inquietar o outro, pois todos estes conspiradores profissionais chegam a observar-se sem saber exactamente porquê, ou encontram-se por acaso, sem poder recolher-se com segurança. Quem quer observar quem? Por conta de quem, aparentemente? Mas na realidade? As verdadeiras influências permanecem escondidas e as últimas intenções não podem ser senão muito dificilmente suspeitadas, quase nunca compreendidas. De modo que ninguém pode dizer que não é enganado ou manipulado, mas é só em raros instantes que o próprio manipulador pode saber se foi vencedor. E, por outro lado, encontrar-se do lado ganhador da manipulação não quer dizer que se tenha escolhido com justeza a perspectiva estratégica. É assim que êxitos tácticos podem atolar grandes forças em maus caminhos.
Numa mesma rede, perseguindo aparentemente um mesmo fim, aqueles que não constituem senão uma parte da rede são obrigados a ignorar todas as hipóteses e conclusões das outras partes, e sobretudo do seu núcleo dirigente. O facto bastante notório de que todas as informações sobre qualquer assunto observado podem ser também completamente imaginárias, ou gravemente falseadas, ou interpretadas muito inadequadamente, complica e torna pouco seguros, numa vasta medida, os cálculos dos inquisidores; pois aquilo que é suficiente para condenar alguém não é tão seguro quando se trata de o conhecer ou de o utilizar. Já que as fontes de informação são rivais, as falsificações são-no também.

É a partir de tais condições do seu exercício que pode falar-se de uma tendência para a rentabilidade decrescente do controlo, à medida que este se aproxima da totalidade do espaço social, e que consequentemente aumenta o seu pessoal e os seus meios. Pois aqui cada meio aspira, e trabalha, por transformar-se num fim. A vigilância vigia-se a si própria e conspira contra ela mesma.
Finalmente a sua principal contradição actual é que vigia, infiltra, influencia, um partido ausente: aquele que é suposto querer a subversão da ordem social. Mas onde se vê a sua obra? Porque é verdade que nunca as condições foram por todo o lado tão gravemente revolucionárias, foi tão perfeitamente privada do seu pensamento que está desde há muito tempo dispersa. Por isso ela não é mais do que uma ameaça vaga, porém muito inquietante, e a vigilância foi por sua vez privada do melhor campo da sua actividade. Esta força de vigilância e de intervenção é justamente conduzida pelas necessidades presentes, que comandam as condições do seu compromisso, a colocar-se no próprio terreno da ameaça para a combater de antemão. Eis porque a vigilância terá interesse em organizar ela própria pólos de negação que dará a conhecer fora dos meios desacreditados do espectáculo a fim de influenciar, já não os terroristas, mas, desta vez, as teorias.

XXXI
Baltasar Gracián, grande conhecedor do tempo histórico, diz com muita oportunidade no Oráculo manual y arte de prudência: «Seja a acção, seja o discurso, tudo deve ser medido na altura. E preciso querer quando se pode, pois nem a estacão nem o tempo esperam por ninguém».

Mas Omar Khayyan, menos optimista: «Falando claramente sem parábolas - Nós somos as peças do jogo que joga o Céu - Divertem-se connosco no tabuleiro do Ser - E depois voltamos, um a um, para a caixa do Nada.»

XXXII
A Revolução Francesa arrastou consigo grandes mudanças na arte da guerra. Foi depois desta experiência que Clausewitz pôde estabelecer a distinção segundo a qual, a táctica era o emprego das forças no combate para ai obter a vitória, enquanto que a estratégia era o emprego das vitórias para atingir os fins da guerra. A Europa foi subjugada, sem demora e por longo período, pelos resultados. Mas a teoria só mais tarde foi estabelecida, e desigualmente desenvolvida. Em primeiro lugar compreenderam-se os caracteres positivos trazidos directamente por uma profunda transformação social: o entusiasmo, a mobilidade em que vivia o pais tornando-se relativamente independente dos armazéns e comboios, a multiplicação dos efectivos. Estes elementos práticos acharam-se um dia equilibrados pela entrada em acção, do lado contrário, de elementos similares: Os exércitos franceses chocaram-se em Espanha com um outro entusiasmo popular; no espaço russo, com um pais no qual não puderam viver; depois do levantamento da Alemanha com efectivos muito superiores. Entretanto, o efeito de ruptura na nova táctica francesa, que foi a base simples sobre a qual Bonaparte fundou a sua estratégia - esta consistia em empregar as vitórias de antemão, como adquiridas a crédito: concebendo desde o inicio a manobra e as suas diversas variantes enquanto consequências duma vitória que não estava ainda obtida, mas sê-lo-ia seguramente ao primeiro cheque -, resultava também do abandono forçado de ideias falsas. Esta táctica tinha sido bruscamente obrigada a libertar-se destas ideias falsas, ao mesmo tempo que encontrava, pelo jogo concomitante das outras inovações citadas, os meios duma tal libertação. Os soldadas franceses, de recente leva, eram incapazes de combater em linha, quer dizer, de permanecer na sua fileira e fazer fogo à voz de comando. Eles vão então deslocar-se como caçadores e praticar o fogo à vontade marchando sobre o inimigo. Ora, o fogo à vontade descobria-se ser precisamente o único eficaz, aquele que operava realmente a destruição pelo fuzil, a mais decisiva nesta época no afrontamento dos exércitos. Contudo o pensamento militar tinha-se universalmente recusado a chegar a uma tal conclusão no século que finalizava, e a discussão desta questão pôde ainda prolongar-se durante quase um outro século, apesar dos exemplos constantes da prática dos combates, e os progressos incessantes no alcance e velocidade de tiro de fuzil.

Semelhantemente, o estabelecimento da dominação espectacular é uma transformação social tão profunda que mudou radicalmente a arte de governar. Esta simplificação, que tão depressa deu tais frutos na prática, ainda não foi plenamente compreendida teoricamente. Velhos preconceitos por todo o lado desmentidos, precauções tornadas inúteis, e até mesmo vestígios de escrúpulos doutros tempos, estorvam ainda um pouco no pensamento de numerosos governantes esta compreensão, que toda a prática estabelece e confirma dia a dia. Não somente se faz crer aos submetidos que ainda estão, no essencial, num mundo que se fez desaparecer, como os próprios governantes sofrem por vezes da inconsequência de ainda acreditarem nisso nalguns aspectos. Acontece-lhes pensar numa parte daquilo que suprimiram como se permanecesse uma realidade, e que deveria continuar presente nos seus cálculos. Este atraso não se prolongará muito. Quem pôde fazer tanto sem esforço ira forçosamente mais longe. Não se deve crer que possam manter-se duravelmente, como um arcaísmo, nas cercanias do poder real, aqueles que não tiverem muito rapidamente compreendido toda a plasticidade das novas regras do seu jogo, e a sua espécie de grandeza bárbara. O destino do espectáculo não é certamente acabar em despotismo esclarecido.

Falta concluir que uma substituição é iminente e inevitável na casta cooptada que gere a dominação, e particularmente naquela que dirige a protecção desta dominação. Numa tal matéria, a novidade, seguramente, nunca será exposta na cena do espectáculo. Somente aparece como o raio, que apenas se reconhece pelas suas consequências. Esta substituição que vai concluir decisivamente a obra dos tempos espectaculares, opera-se discretamente e, ainda que respeitante a indivíduos já todos instalados na própria esfera do poder, conspirativamente. Seleccionará aqueles que nela tomarão parte segundo esta exigência principal: que saibam claramente de que obstáculos se livraram, e do que são capazes.

XXXIII
O mesmo Sardou diz também: «Vãmente é relativo ao sujeito; em vão é relativo ao objecto; inutilmente, é sem utilidade para ninguém. Trabalhou-se vãmente quando se o fez sem êxito, de modo que se perdeu o seu tempo e o seu esforço: trabalhou-se em vão quando se o fez sem atingir o fim que se propunha, por causa da imperfeição da obra. Se eu não puder concluir a minha tarefa, trabalho vãmente; perco inutilmente o meu tempo e o meu esforço. Se a minha tarefa acabada não teve o efeito que esperava, se eu não atingi o meu fim, trabalhei em vão; quer dizer que fiz uma coisa inútil...

Também se diz que alguém trabalhou vãmente, quando não é recompensado pelo seu trabalho, ou porque este trabalho não agradou; pois nesse caso o trabalhador perdeu o seu tempo e o seu esforço, sem prejulgar de modo nenhum o valor do seu trabalho, que pode alias ser muito bom.»

GUY DEBORD
(Paris, Fevereiro-Abril 1988.)