Parece que nem um outro anarquista mostrou tanto
interesse no conceito de pensamento simbólico como
John Zerzan. Nas últimas décadas, John devotou seu
trabalho a um pensamento crítico da totalidade da
civilização, do pensamento simbólico à miséria diária
de sua forma de viver e as falhas da Esquerda. Seus
ensaios sobre a origem da civilização foram
organizados em "Elementos de Recusa", "Futuro
Primitivo" e mais recentemente em "Correndo
no Vazio -
a Falha do Pensamento simbólico".
Ele editou "Against
Civilization" (Contra a Civilização), e é
co-editor de
"
Questioning Technology" (Questionando a Tecnologia).
Kevin Tucker: Como você distinguiria a cultura
simbólica e o pensamento simbólico, e qual a relação
disso com a civilização?
John Zerzan: O que seguiu depois que as espécies
começaram a simbolizar constitui a cultura simbólica.
Essa mentalidade vem para definir o que o pensamento
é , e a parte sensorial da experiência vem para dar
caminho à experiência simbólica; isto é, a experiência
direta foi reduzida a zero.
Este limitado e projetado modo cultural é relacionado
diretamente com a civilização, que é o produto do
controle continuo visando a domesticação.
A cultura simbólica nas formas de arte e cultura, por
exemplo, envolve representar a realidade sendo assim
processado como substituto da experiência direta. Elas
emergem como sociedades desenvolvendo desigualdades
que expressam-se em papeis especializados e áreas de
autoridade separatista. O simbólico pode ser visto
como uma tecnologia, que trabalha para a realidade
como uma força de dominação. Uma perspectiva similar é
a "razão instrumental" de
Horkheimer e Adorno,
significando que a civilização vem para infundir ou
deformar a racionalidade em padrões da lógica do
controle.
Freud viu que a civilização é a condição necessária
para o trabalho e a cultura triunfar; a saber, a
renúncia forçada da liberdade de instinto e Eros.
Entendido nesse sentido, fica mais fácil compreender a
í ntima conexão entre a cultura simbólica e a
civilização.
Kevin Tucker: O quanto atrás devemos procurar com uma
crítica da civilização e por que? Qual é o significado
de buscar tão longe?
John Zerzan: Eu não penso que é possível desenterrar
as profundezas ou origens da civilização sem examinar
de forma crítica as divisões de trabalho ou a
especialização. No poder efetivo dos especialistas -
possívelmente o pajé como o primeiro caso a ser visto
- está o começo das desigualdades na sociedade humana.
Uma instituição desta simplicidade, é claro, foi
grandemente deixada de lado. Como é possível ter vida
moderna sem a divisão do trabalho? Mas certamente é
isto que estamos colocando em questão! A Modernidade é
vista de forma cada vez mais impossível e nós estamos
conduzindo admiravelmente das raízes ao extremo da
sociedade "avançada". O
que impulsiona essa
trajetória?
Divisão do trabalho conduz à produção em massa, mesmo
nos tempos antigos, e isso requer coordenação e
justificativas. Chefes, patrões, padres vem disto. No
começo gradual e sem alarde e depois o rápido
desenvolvimento da especialização direciona o trabalho
braçal para a domesticação, a base que define a
civilização.
O controle/contenção toma seu próximo passo com a
propriedade privada, mas certamente o poder para
dominar animais e plantas (domesticação) trouxe a
civilização rapidamente, em termos relativos. E as
elites nascentes que eram sustentadas pelo aumento da
divisão trabalho proveram a fundamentação para a
mudança definitiva para a domesticação.
Kevin Tucker: Na sua visão, como as pesquisas e
estudos científicos associadas com a antropologia e
arqueologia pesam comparado com o que sabemos hoje,
sobre nós mesmos ou sobre as tribos e bandos
remanescentes de vários níveis de existência
civilizada?
John Zerzan: Eu concordo com aqueles que dizem que
consultar nossas próprias vidas é mais ao ponto, mais
potente que considerar a literatura antropológica e
arqueológica. Mas eu penso que é válido também
considerar as evidências do passado que demonstram um
estado de "anarquia natural" que
foi obtida por um
longo tempo. Esse cenário é uma inspiração para mim, a
realização do prevalecimento de formas de viver não
hierarquizadas que constituem a única bem sucedida e
sustentável adaptação para o mundo que nossas espécies
conheceram. Nossa visão, nossa crítica da civilização
não depende de um cenário ou registro, mas pode ser
desenhado com base nisto.
Muitos de nós estamos significantemente longe de ser
removido da existência domesticada que qualquer
indígena vivente. Isto é importante para os ditos
anarquista verdes como eu para aprender com eles e
apoiar suas causas.
Kevin Tucker: Como como algo como a linguagem tomou
forma? VocÊ acha que a mudança com a linguagem e a
arte necessariamente trouxe-nos para a agricultura ou
há aí algum ponto de mediação em que nós estamos ainda
imbuídos pelo "outro" (estado
selvagem)?
John Zerzan: Ninguém sabe quando a linguagem se
originou. (A fala, mais exatamente; nós podemos datar
a linguagem escrita pela evidência de artefatos). É um
dos mais interessantes mistérios de todos, eu diria.
Só há realmente palpites, alguns dizendo que é bem
recente ( emergindo no Alto Paleolítico, digamos,
contemporâneo com as primeiras pinturas nas cavernas
aproximadamente 35 mil anos atrás) e outros figurando
que a fala humana começou mais aproximadamente na
ordem de milhões de anos atrás.
Se a linguagem e a arte apareceram mais ou menos
juntos aproximadamente recente com a véspera da
agricultura então uma forte ligação com a domesticação
é sugerida. E obviamente, se há um longo espaço entre
suas origens, então somente a arte deve ser ligada à
domesticação. Mas me parece muito possível que há uma
conexão - de novo, pelo menos, em termos de arte e
agricultura. Eles estão bem próximos em relação ao
tempo, afinal.
Se a fala é muito antiga - e nós podemos nunca saber -
então talvez o "ponto de mediação" é
aquele período
depois da fala e antes da arte. Aquele longo período
quando a divisão do trabalho não avançou e a cultura
simbólica como nós conhecemos não existia.
Kevin Tucker: Como você vê o futuro da civilização e
onde uma crítica do pensamento simbólico pode nos
levar?
John Zerzan: A civilização tecnológica está realizando
a eliminação do mundo natural e novos e profundos
choques individuais e sociais. Isto está consumindo,
empobrecendo e destruindo todo o planeta, como todos
podem ver. Não tem futuro.
A crítica do pensamento simbólico revela como esse
virus maligno originou e como poderemos agir para
evitar a réplica da civilização quando ela cair.
Kevin Tucker: Você sente que pode haver uma
consciência voltada contra o simbolismo e/ou a
civilização? Ou você sente que a totalidade da
civilização tenha criado um relacionamento de
dependência que os "domesticados" se
agarrarão
fortemente a isto? Você vê a anarquia sendo trazido
pelos domesticados ou por aqueles que se voltaram
contra sua domesticação revoltando-se contra os
agentes da civilização?
John Zerzan: Deve haver uma consciência voltada contra
o simbólico e a civilização, e eu penso que isto já
começou. O outro lado dessas dimensões, de fato,
esteve sempre presente e agora está crescendo com uma
crise generalizada que aumenta.
Um relacionamento de dependencia é obtido, na minha
opinião, ou isto pode ser facilmente chamado de "sendo
preso como refém". Nós temos todos que
desaprender a
domesticação, e a quebra mais radical com a
domesticação na sociedade irá ocorrer, eu diria,
quando se tornar claro que a civilização é mais uma
falácia que uma qualidade. Quando a miséria e a
devastação ecológica, por exemplo, alcançar um certo
nível e ao mesmo tempo, uma alternativa viável possa
ser vista como mais prazerosa, segura e razoável.

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