Revista Utopia #1, primavera de 1988
As novas formas de "relações conjugais" e
de "relações domésticas" sugerem um novo modelo de feminilidade: o da "mulher liberada", segundo um tipo de liberação que convém a economia capitalista e as políticas
dos Estados governantes.
O princípio básico desta feminilidade é a igualdade na diferença. De um lado,
as mulheres adquiriram os mesmos direitos e deveres que os homens, no que
diz, respeito ao matrimônio, a família ao trabalho e à vida política social.
Do outro lado, as diferenças específicas homem - mulher devem e precisam
ser preservadas.
Esta especificidade refere-se a toda uma série de características físicas,
intelectuais e emocionais que são consideradas típicas da natureza feminina.
No entanto, tal conceituação de feminilidade não mais eficiente para descrever
a mulher no mundo atual Antes, impõe e estabelece um novo estereótipo normatizado
e normalizado da mulher.
Os componentes clássicos da mulher submissa eram: heterossexualidade, passividade,
narcisismo e sentimentalismo. Hoje, os componentes básicos da mulher liberada
camuflam os anteriores e adaptam a mulher às características deste novo
ser emergente: individualismo, autonomia, força, autocontrole, eficácia
e racionalidade.
Não obstante as suas contradições, este modelo e mulher justifica psicologicamente
e permite socialmente ao mesmo tempo a relação conjugal, a maternidade e,
na esfera das relações econômicas, a divisão do trabalho com o homem.
No contexto político, a feminilidade é objeto de negociações de todo tipo
entre os movimentos feministas e as instituições que produzem, difundem
e inculcam ideologias nas sociedades modernas: o Estado, os meios de comunicação
e o meio cultural.
O modelo da "mulher liberada" é,
basicamente, o reflexo das relações de poder entre esses dois agentes: Os
movimentos feministas e os Estados governantes. Este novo modelo de feminilidade
não só torna possível formas "avançadas" de opressão sobre a "mulher liberada", como também, constitui o fator - chave da reversibilidade do movimento de liberação
feminina, enquanto movimento cooptado pelo Estado.
A história das mulheres é uma história de avanços e recuos. Em certos períodos
históricos, as mulheres adquiriram direitos formais e informais que, em outros
períodos, foram perdidos. Por outro lado, outros foram conquistados, de maneiras
diversas e em contextos diversos, e assim por diante.
Toda mudança econômica, social e política relevante implica em conseqüências
positivas ou negativas para as mulheres. Melhorias em sua condição são
sempre fruto de uma mobilização ativa, inserida na contradição dessas mudanças.
A ideologia da feminilidade reflete a variação, no tempo, de uma essência
mantida imutável: "o
eterno feminino". A eficácia do feminismo, a curto e a longo prazos, depende, em grande parte,
da capacidade das mulher em impedir a formação e a institucionalizacão de
novas variantes do "eterno feminino", mesmo que venham apresentadas como parte integrante do processo de liberação
da mulher.
O potencial de força das mulheres somente poderá ser mobilizado e usado em
favor de sua verdadeira liberação, se o movimento feminista trilhar um caminho
verdadeiramente revolucionário. Em outras palavras, se optar por uma mudança
da ordem social e não na ordem social.
O anarquismo oferece instrumentos de organização e de luta revolucionária
capazes de tornar realidade o potencial subversivo do feminismo.
Em sua origem, o feminismo representou um sério golpe nas estruturas de poder,
em sua forma mais elementar e básica: o controle interpessoal, no jogo recíproco
de força e consenso.
Mas a força do protesto feminista pode-se voltar contra as mulheres, se,
em sua luta contra a dominação, decidirem aliar-se às instituições detentoras
de poder: os partidos políticos e os aparelhos de Estado.
O Estado tornou-se (ou foi convertido em) interlocutor privilegiado do movimento
feminista moderno, desde seu surgimento, e de forma cada vez mais íntima.
Em seu diálogo com o Estado, o movimento das mulheres, ao formular suas
reivindicações principais, terminou por assimilar-lhe a linguagem.
Dessa forma, adquiriram elas direitos que o Estado pode garantir, reformas
que o Estado pode realizar e recursos que o Estado pode distribuir.
Ainda o Estado apresenta-se como agente garantidor de mudanças em esferas
privadas que ele (Estado) não pode realizar diretamente, coma no caso de
relações sexuais e afetivas homem – mulher.
Da mesma maneira que a movimento operário, especialmente em suas formas sindicais
institucionalizadas, o movimento feminista é, a todo momento, levado a
negociar com o Estado. Por sen turno, o movimento feminista dispõe-se a
esse tipo de negociação porque lhe parece que somente esta forma mostra-se
capaz de impor respeito a maridos, patrões, pais, concidadãos, colégios,
dirigentes de todo tipo, intelectuais, etc.
Essa interação movimento feminista - Estado é coerente com a lógica dos sistemas
sociais vigentes. De fato, a função principal do Estado moderno é expressar
e neutralizar as tensões e os conflitos causados por atritos entre sujeitos
sociais, especialmente as relativos a classes sociais e sexos.
Todo movimento de protesto, a qualquer nível de luta, é necessariamente remetido
ao Estado. E este dispõe dos recursos e mecanismos necessários para neutralizá-lo.
Pode e tem reprimido protestos com o uso da violência, mas também tem e pode
determinar realizar modificações funcionais do sistema, com vistas a reduzir
as tensões, sem comprometer a sua autoridade e perpetuação.
A história do movimento operário, das lutas raciais, dos movimentos estudantis
oferecem uma farta ilustração de como opera o mecanismo estatal de controle
nas Sociedades modernas.
Sem dúvida, as mulheres obtiveram, sobretudo por parte do
Estado, o reconhecimento de certos direitos e melhorias parciais de sua condição.
Na maior parte dos casos, estas vitórias das mulheres tornaram-se, também,
vitórias do Estado, na medida em que significaram, em certa medida, um aumento
da capacidade do Estado de controlá-las e a seu movimento.
Alguns organismos instalados a nível governamental têm toda a aparência de
mecanismos permanentes de controle sobre as mulheres e seu movimento, como,
por exemplo, comitês, comissões, institutos montados para estudar a mulher,
formular soluções para seus problemas e, até, para montar e implantar projetos
feministas.
Estes organismos e instituições multiplicam-se e proliferam em sociedades
nas quais a movimento feminista tem provocado fortes impactos e possui articulações
regionais e internacionais.
A despeito dessa interação, as relações mulheres - Estado estão longe de
ser harmoniosas. Isso porque a Estado não resolveu - e nem pode resolver
- as contradições que alimentam a revolta e a resistência das mulheres.
Se, por um lado, oferece-se como um interlocutor e lhe fornece canais legais
de reivindicações, por outros neutraliza seu potencial revolucionário e
corrói seu potencial de libertação.
0 movimento feminista proclama, como principio, que o privado é político.
Séculos de opressão demonstram que a afirmação é verdadeira sob todos as
seus aspectos.
É chegado o momento, no entanto, de uma predominâcia da esfera privada sobre
a pública. A primeira é vida e desejo. A segunda é ordem e imposição. Imposição
que sempre vem sob a camuflagem de ajudar o desejo, desejo que é sempre posto
a serviço da ordem. Porque se trata, aqui, daquele desejo que a ordem programou
e daquela imposição que o desejo previu e a ela se sujeitou.
Para subverter este sistema, é necessário superar a linha imaginária que
se construiu entre esfera pública e esfera privada. São duas faces da mesma
moeda: a Estado - família e a família - Estado.
É necessário liberar a consciência para o fato de que, neste âmbito de solidão
e luta, a moeda corrente é o controle.
Além de outras formas que devem ser liberadas, está aquela a que me referi
no inicio - a feminilidade – e tal só pode ser feito se entendermos que é
o poder que a produz e que são as mulheres as suas prisioneiras.
Nicole Laurin-Frenette
Professora de Sociologia na Universidade de Montreal
Membro do Instituto Anarchos,
Montreal Canadá,
in "Volontà", no. 4, 1982.
revista anarquista trimestral
editada na Itália

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