Configura-se o neoliberalismo como sistema político e econômico em quase todo o globo. Os Estados, aos poucos, vão perdendo suas autonomias para as grandes empresas e diminuindo suas ações intervencionistas nos setores econômicos e sociais de seus povos. É o enfraquecimento do Estado, visto por muitos como a solução para uma sociedade mais igualitária, sem organizações coativas, hierarquizadas e autoritárias. Mas será que está na globalização neoliberal a solução?
Há quase duzentos anos, Thoreau dizia que o melhor governo é aquele que, definitivamente, nada governa. A partir desta análise de Thoreau, criador da obra Desobediência Civil, não se pode inferir que este direcionava tais comentários ao processo de dissolução das forças dos Estados pela qual vivemos nos dias atuais. É incontestável a afirmação que qualquer Estado, em toda a História, independente das boas intenções ou não de seus governantes, acabou por representar os interesses de uma minoria participante das camadas mais privilegiadas de uma determinada classe social. Murray Bookchin, em sua obra Municipalismo Libertário, já afirmava que o existir na presença de um Estado é como tentar manter a paz mediante a posse de uma poderosa bomba de hidrogênio ou outras armas de efeitos escatológicos.
Porém, a dissolução das forças estatais através dos processos inerentes à globalização neoliberal nada tem a ver com as propostas libertárias de extinção do Estado. Um dos motivos desta dissertação é esclarecer a confusão feita por alguns acerca das conseqüências da globalização e dos objetivos libertários. Na conjuntura globalizada atual, o que presenciamos não é a destruição de uma instituição opressora realizada por uma sociedade capaz de sustentar-se de forma autônoma, livre, harmoniosa e solidária. Presenciamos, em contrapartida, uma gradativa substituição das forças intervencionistas estatais pela força do capital internacional através da aliança entre os interesses dos grandes empresários de multinacionais e os interesses dos governantes. Paralelo a este processo, agarra-se, de forma bruta e desumana, a destruição e desvalorização dos setores sociais, culturais, ecológicos e democráticos (não se pode confundir uma democracia libertária com o sentido limitado e cretino dado à esta palavra pelos demagogos e políticos tanto da direita liberal quanto da esquerda reformista). Como exemplo do abandono destes setores (que são essenciais para o bem estar de uma sociedade) podemos citar o desacordo do governo estadunidense em relação ao Tratado de Kyoto. Os Estados Unidos da América, vendo que a diminuição da emissão de gases poluentes na atmosfera iria diminuir também os lucros das grandes empresas nacionais e multinacionais, tratou logo de "dar uma banana" às causa ecológicas que deveriam (devem) ser tratadas com minuciosidade e preocupação.
Portanto, é de suma relevância uma militância libertária na conjuntura histórica atual. É ter a consciência de si quanto indivíduo atuante na política sem usar das máquinas burocráticas estatais (como as eleitorais, por exemplo) para seus objetivos. É assumir para si a responsabilidade de dedicar-se à própria liberdade e à liberdade social sem delegá-la a nenhuma instituição centralizada ou hierarquizada. É dar valor humano, harmônico e solidário nos campos locais de atuação como bairros, cidades, colégios, universidades etc. É destruir todo o autoritarismo sutil ou cara-de-pau presente em todas as formas de (des)organização por uma vida organizada, livre, pacífica e sem castrações. Este é o processo libertário de extinção do Estado que nada tem a ver com a dissolução do Estado pelo processo de globalização neoliberal. É a luta pela liberdade e pelo "tesão" de viver pois a vida sem "tesão" é vida sem solução.
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