" Eram 5 horas quando me levantei. O Passos, acordado não
sei desde que horas, estava sentado na cama, lendo o "Determinismo e Responsabilidade", de Hamon.. Tomei a toalha e desci, para banhar o rosto. Quando voltava do pateo,
enxugando-me, vi dois individuos, que logo tomei pelo que realmente eram,
de revolver em punho, dirigirem-se para mim, perguntando asperamente.
- Onde está o Domingos Passos?
Prevendo uma dessas violencias de que o nosso querido companheiro tem sido
tantas vezes victima, senti forte desejo de esconde-lo e neguei sua presença,
dizendo:
- Domingos Passos não mora aqui!"
Esse pequeno trecho do depoimento do operário Orlando Simoneck ao jornal
A Pátria, tomado em 16 de março de 1923, expressa claramente alguns aspectos
da situação então vivida por aquele rapaz negro, carpinteiro de profissão,
anarquista e membro ativo da União dos Operarios em Construcção Civil (U.O.C.C.):
o "camarada
Passos" era, já naquele ano, o alvo preferido da Polícia carioca e, se não o mais, um
dos mais queridos e respeitados militantes operários do Districto Federal.
Outra característica notável desse nosso companheiro, bem destacada por
Simoneck, era seu incansável autodidatismo, sua sede pela instrução e pela
cultura, que o fazia varar as madrugadas devorando os livros da pequena
biblioteca de Florentino de Carvalho, que morava naquela mesma casa da
Rua Barão de São Félix, a dois passos da sede do seu sindicato.
Não sabemos em que ano ele nasceu, provavelmente no final do século XIX.
Sabemos, através dos livros de Edgar Rodrigues, que ele era natural do Estado
do Rio de Janeiro. Registramos sua primeira aparição nos embates sociais
daquela época como delegado da U.O.C.C. no 3° Congresso Operário Brasileiro
(1920), quando foi eleito Secretário Excursionista da Confederação Operária
Brasileira. Ao ser escolhido para tal cargo, Passos certamente já se destacava
no campo do proletariado organizado por sua inteligência e oratória, cultivada
no cotidiano de lutas de sua categoria.
Nesse mesmo ano, Passos colaborou com a Federação dos Trabalhadores do Rio
de Janeiro (F.T.R.J.), cujo jornal diário era A Voz do Povo. A repressão
durante o governo Epitácio Pessoa foi brutal, com um sem número de deportações
de militantes anarquistas, prisões, torturas e assassinatos, fechamentos
de sindicatos e empastelamentos de jornais operários. Em outubro de 1920,
a polícia dissolveu à bala uma passeata de trabalhadores na Av. Rio Branco
e, não satisfeita, atacou a sede da U.O.C.C., ferindo 5 trabalhadores e
prendendo outros 30.
O movimento operário sentiu os golpes, e declinou a partir de 1921. Os sindicatos "amarelos" se
fortaleceram rapidamente, e passaram a disputar a hegemonia de diversas categorias
com os sindicatos revolucionários. Entre os anarquistas, desmoronaram as
esperanças na Revolução Russa, com a chegada das notícias sobre a repressão
bolchevique.
Em 16 de março de 1922, nove dias antes da fundação do Partido Comunista,
a U.O.C.C. publicou o documento Refutando as afirmações mentirozas do Grupo
Comunista, declarando sua incompatibilidade com os comunistas de estado,
os "bolxevistas".
Lá certamente estava o dedo de Domingos Passos. Os militantes da Construção
Civil foram, por toda a década de 1920, os oponentes mais ferrenhos e intransigentes
da doutrina bolchevista. Encarnaram a consciência crítica e, em determinados
aspectos, punitiva dos quadros comunistas.
Em julho de 1922, no rastro do esmagamento da revolta dos tenentes do Forte
Copacabana, a repressão fechou o jornal O Trabalho, órgão da U.O.C.C., do
qual Passos foi assíduo colaborador. Um novo bastião dos anarquistas na imprensa
ficou a cargo de outro militante da Construção Civil, Marques da Costa, redator
da Secção Trabalhista do jornal A Pátria.
Em 1923, perseguido pela repressão policial, Domingos Passos afastou-se da
Comissão Executiva da U.O.C.C. e passou a se dedicar à propaganda e à organização
sindical, tendo viajado duas vezes ao Paraná para colaborar com as organizações
locais. Passos, assim como os intelectuais José Oiticica, Carlos Dias e
Fábio Luz, era freqüentemente convidado para conferências nas sedes sindicais.
Também participava ativamente dos festivais operários, atuando nas peças
teatrais, declamando poesias e palestrando sobre temas sociais. Certamente,
foram esses festivais alguns dos poucos momentos de lazer que Passos usufruiu
em sua vida de rapaz trabalhador e ativista político.
Durante todo o primeiro semestre deste ano, foi um dos principais articuladores
da refundação da Federação Operária do Rio de Janeiro (F.O.R.J.), já que
a F.T.R.J. agonizava sob o controle dos bolchevistas. Quando a F.O.R.J.
reapareceu, em 19 de agosto de 1923, Passos foi eleito para o seu Comitê
Federal. A F.O.R.J., refundada por 6 associações de classe (construção
civil, sapateiros, tanoeiros, carpinteiros navais, gastronômicos e S.O.V.
Marechal Hermes), até meados de 1924 teve a adesão de mais 5 categorias
importantes: fundidores, ladrilheiros, ferradores, metalúrgicos e operários
em pedreiras. O sindicalismo revolucionário, a despeito da repressão estatal
e das canalhices bolchevistas, se fortalecia sob a orientação da F.O.R.J.,
que então cuidava da organização de uma conferência intersindical no Rio,
e planejava o 4° Congresso Operário Brasileiro. Em julho de 1924, todo
esse afã organizacional foi ceifado pela repressão que se seguiu à nova
revolta dos tenentes, agora em São Paulo. As sedes sindicais foram
invadidas e fechadas, e centenas de anarquistas encarcerados.
Domingos Passos foi um dos primeiros a serem presos e, após 20 dias de sofrimentos na Polícia Central, foi recolhido ao navio-prisão Campos, fundeado na Baía de Guanabara. Sua permanência por alguns meses na embarcação caracterizou-se por momentos de profunda privação e constrangimento. Seria transferido, juntamente com outros anarquistas e centenas de "desqualificados", para o "Inferno Verde" do Oiapoque, inaugurando a fase prisional da Colônia Agrícola de Clevelândia, no atual Estado do Amapá. Após alguns meses nessa "Sibéria Tropical", onde os maus tratos e as doenças dizimaram mais de mil vidas, Passos conseguiu fugir para Saint George, na Guiana Francesa. Entretanto, as febres o obrigaram a buscar medicamentos em Caiena, tendo sido acolhido fraternalmente por um "creoulo", que o ajudou a recuperar as forças. Da Guiana, seguiu para Belém, onde permaneceu por algum tempo amparado pela solidariedade ativa do proletariado organizado daquela capital.
Domingos Passos estava entre os que retornaram ao Distrito Federal, após
o estado de sítio imposto por quase todos os quatro anos do governo de
Arthur Bernardes (1922/1926). Ao chegar ao Rio de Janeiro, no início de
1927, retornou ao ativismo sindical, mesmo sofrendo das seqüelas do impaludismo.
Nesse mesmo ano, mudou-se para São Paulo, onde atuou na reorganização da
Federação Operária local (F.O.S.P.). Participou ainda do 4° Congresso Operário
do Rio Grande do Sul, realizado em Porto Alegre. Tomou à frente dos preparativos
dos diversos meetings e comícios pró-Sacco e Vanzetti organizados pela
F.O.S.P. e suas associações filiadas. Em agosto, foi preso e levado à temida "Bastilha
do Cambucí", onde permaneceu por três meses sujeito à toda sorte de maus tratos.
Segundo Pedro Catallo, seu companheiro de cela, Passos foi retirado do cárcere
com o corpo coberto de chagas e vestindo apenas trapos, e enviado para
morrer nas matas de Sengés, no interior ainda selvagem do Estado de São
Paulo. Algum tempo depois, conseguiu escrever para os camaradas solicitando
dinheiro, que foi-lhe levado em mãos por um emissário. Aí terminou a trajetória
conhecida deste que foi um dos mais influentes e respeitados ativistas
do anarquismo e do sindicalismo revolucionário de seu tempo. Nunca mais
se teve qualquer notícia dele, apenas boatos esporádicos e nunca confirmados.
Não foi à toa que Domingos Passos ganhou de seus contemporâneos a alcunha
de "Bakunin
brasileiro". Poucos como ele se entregaram de tal forma ao Ideal e sofreram tanto as conseqüências
dessa dedicação à luta pela emancipação dos homens e mulheres. Durante
apenas uma década, em grande parte passada nas prisões e nas selvas tropicais,
Passos tornou-se a grande referência de militância libertária e social
de seu tempo...e do nosso também!
Nossos passos seguirão os seus, Passos!
Texto retirado do site do Coletivo Domingos Passos.
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