A noite já tomou conta de tudo e os tiros e gritos que de vez em quando o vento traz a chuva trata de apagar. O dia de hoje passará a história como a primeira vez que as massas argentinas derrubaram um presidente que chegou ao governo por meio das urnas. O que começou com uma onde de saques por fome derivou, logo depois da declaração de estado de sítio, em um levante espontâneo da classe média e amplos setores de trabalhadores e levou por terra o governo.
Durante todo o dia de hoje houve confrontos no centro da Capital Federal,
Mar del Plata, Córdoba, Rio Negro, Neuquén, Chubut e Mendoza segundo os
últimos informes. Depois do meio dia, uma marcha liderada pelas mães da
praça de maio tentou entrar em uma praça onde espontaneamente manifestantes
confrontavam a polícia. Apesar da repressão, das balas de borracha, dos
canhões de água e da cavalaria, centenas de pessoas continuavam a chegar
para somarem-se ao protesto. Do alto dos edifícios choviam todo tipo de
objeto atirados contra a polícia. Os manifestantes avançavam, atiravam
pedras e retrocediam para reagruparem-se.
Nos bastidores do poder se discutia que De la Rua estava para renunciar,
mas a polícia continuava reprimindo a todos. Propunham um governo comum
com o Partido Justicialista (oposição peronista). Mas ninguém queria saber
de nada.
É ramos milhares, e agora nos dirigíamos até o Obelisco. Outra vez a atirar,
avançar e retroceder frente aa cavalaria. Centenas de jovens na primeira
linha enfrentavam os gases, as balas de borracha e as correrias só duravam
o suficiente para que se reagrupassem.
As barricadas impediam a polícia devido a fumaça e o comércio nos arredores
- a maioria de grandes empresas - começava a perder seus móveis para que
as ruas continuassem ardendo.
A esta altura os mortos são cinco, todos feridos a bala, assassinados pela
repressão. Se vive cenas dramáticas quando as ambulâncias levam os corpos.
O descontentamento é maior porém e a indignação nos tira do estado de choque.
Ninguém vai esquecê-los, ninguém vai deixar que a sua morte tenha sido
em vão. Alguns choram mas a gente continua a chegar e a batalha continua.
Avançamos, retrocedemos, nos organizamos. Levantam-se barricadas em várias
esquinas para retardar o avanço da polícia. Nos movimentamos por algumas
ruas laterais mas rapidamente voltamos a Diagonal Norte. A polícia nos
persegue com agilidade usando motos e cavalaria. Agora estamos no obelisco
e o combate foi transferido para lá.
Aqui estamos, respirando gases, gritando que não vamos sair, que queremos
a renúncia de De la Rua. Alguém se lembra de cantar "Los
hijos del Cordobazo!". E aqui estamos, continuando sendo milhares. As camisetas esconde os rostos,
só para agüentar o gás e todos te oferecem um limão ou um gole d'água.
A polícia se posiciona em frente a nós. Quando o povo avança eles retrocedem
e então atacam com gás lacrimogêneo. Das agências de turismo, do McDonalds
e de uma casa de artigos eletrônicos não resta nada. Logo depois queima
a OCA e todos nos acenam para que tiremos uma foto; "coloque que dedicamos a Yabrán, que esta assistindo pela TV". Ainda há tempo para brincadeiras.
Logo depois, entre gás e barricadas, chega a notícia: caiu De la Rua! Explode
a felicidade, as pessoas pulam e cantam. Alguns se abraçam, mas a polícia
ainda continua la na frente e alguém avisa que há um grupo de 300 manifestantes
presos na Praça de Maio. Eles estão ali, sentados e cantando o hino. As
pessoas seguem avançando e durante a tarde aparece "A
Montada", mas a nossa: dezenas de carteiros de moto e bicicleta fazem rugir seus motores
contra a polícia. alguns levam bandeiras argentinas. Não sabemos por quê,
mas todos avançamos quando os escutamos chegando. Agora a organização é
um pouco melhor. A polícia atira; todos deitam no chão e alguns avançam
para enfrentá-los.
Vem um pelotão pela 9 de julho. Agüentamos. Retrocedemos um pouco. Ninguém
os obedece, como durante o dia inteiro, então a gente avança em dobro e
começa a caminhar pela Rua Corrientes direto ao Congresso. Seguimos caminhando
e em algumas esquinas derrubaram as árvores para parar o trânsito, e agora
só restam sementes.
A cena das pessoas aplaudindo das janelas e varandas se repete por todos
os lugares. Seguimos e logo depois do Congresso vemos barricadas e gente
nas ruas. Agora o panelaço se repete e a festa se espalha pelas ruas da
cidade.
Demos um passo nesse intrincado labirinto da História.
ARGENTINOS DESAFIAM ESTADO DE SÍTIO E DERRUBAM CAVALLO
"
Estado de Sitio? Qual estado de Sitio?" - A população de Buenos Aires desafiou o estado de sítio decretado ontem pelo
presidente Fernando de la Rúa. Desde ontem, as pessoas saíram às ruas para
pedir a renúncia de Domingo Cavallo. A Praça de Mayo (que fica em frente
ao palácio presidencial, a Casa Rosada) amanheceu cheia de grupos de pessoas.
Mal De la Rua havia terminado de dizer que para proteger a constituição e
suas instituições ele se via forçado a decretar estado de sítio, a população
começava a se reunir nas ruas.
Com tudo ainda muito fresco na memória, o discurso de De la Rua coroava um
dia de fúria que incluiu saques em todo o país (incluindo a capital), mobilizações
de trabalhadores estatais, repressão policial e e, até ontem, mais de 400
presos, 10 mortos e centenas de feridos.
O descontentamento geral explodiu tornando irrelevante o estado de sítio
decretado fazia pouco. Com o que tinha a mão as pessoas começaram a ocupar
as calçadas e em poucos minutos as ruas. Os policiais desprevenidos que
cuidavam de um supermercado COTO do bairro de San Cristibal observavam
atônitos o mar de pessoas com panelas, fôrmas de bolo e baldes que usavam
o barulho para expressar anos de insatisfação acumulada.
A imagem se repetia a cada 2 ou 3 quadras, o panelaço se misturava com o
piquete, queimando latas de lixo e gerando um barulho ensurdecedor que
encorajava mais as pessoas.
Na TV começavam a dizer que as pessoas se mobilizavam expontâneamente em
pontos diferentes da capital, uma senhora perguntava a outra:
- E o que o De la Rua falou?
- Nada, ele quer decretar Estado de Sítio por causa dos saques.
- Eles dizem que tem saque mas na verdade os que saqueiam as nossas contas, nossas poupanças e nos deixam morrendo de fome são eles. Que eles enfiam esse estado de sítio no cú...
" ...Que boludos, que boludos, el estado de sitio se lo meten en el culo...".
00:15h A "marcha de San Cristobal" chega
a praça do Congresso.
As pessoas haviam começado a se mobilizar maciçamente em direção a Praça
de Maio, ao Congresso e a casa de Cavallo (onde segundo uma fonte havia
entre 5.000 a 10.000 pessoas). Todos os grupos que havia se dispersados
por San Cristobal começaram a se agrupar e a marchar pela Av. Belgrano
em direção ao congresso.Alguns minutos depois da meia noite, quando o estado
de sítio estava em vigor, cerca de 10.000 manifestantes ocupavam a praça
do congresso e as escadarias centrais do edifício, cantando e gritando
palavras de ordem contra De la Rua e Cavallo.
Nesse momento os rumores da renúncia de todo o gabinete eram muito fortes
e só faltava a confirmação disso, a alegria das pessoas terminou ao saberem
que naquela hora estavam dispersando as pessoas da praça da maio (que também
estava cheia) com balas de borracha e gás lacrimogêneo. A decisão dos que
estavam no congresso foi unânime, todos olharam para as pessoas que estavam
a sua volta e e sem que ninguém dissesse algo (não havia nada a dizer)
os mais de 10.000 manifestantes começaram a deixar o Congresso em direção
a Praça de Maio.
A av. de Maio parecia um formigueiro, milhares de pessoas iam a vinham sem
saber bem para onde iam e nem para quê, mas os coros eram unânimes contra
o governo, Cavallo e o pacote. Na avenida 9 de julho se encontraram as
duas marchas, a que vinha do congresso e a da Praça de Maio explodindo
em gritos e palmas. Alguns começaram a dizer que Cavallo já havia caído
e que agora tinham que ir a Olivos. Milhares de pessoas começaram a marchar
para lá. Enquanto isso, no cruzamento da rua Florida e Maipú, umas 3.000
pessoas enfrentavam a polícia. Foi montada uma barreira pegando fogo, junto
a rua Cabildo, para atrasar o avanço da infantaria. Durante uma hora os
manifestantes avançavam e retrocediam enfrentando os gases e as balas de
borracha da polícia, entre a 9 de Julho e a Maipú. Logicamente as vitrines
das elegantes lojas e bancos que apareciam com enormes monstros que roubavam
o salário dos trabalhadores não permaneceram alheias ao descontentamento
geral.
"
...si este no es el pueblo, el pueblo donde esta..." "...el pueblo unido, jamas sera vencido...".
1:50h As pessoas se reagrupam e voltam ao Congresso.
Ninguém podia acreditar no que estava acontecendo, as pessoas caminhavam
por aí, sem bem saber para onde ir, nem o que dizer. Cavallo e todo o gabinete
haviam renunciado. Onde atrás do De la Rua? Não se sabia. Mas sim, De la
Ruá também tinha que ir. O coro no Congresso era, "que
se vão todos e não voltem mais". A imagem de quem chegava ao congresso era surpreendente. Era o melhor cartão
postal de "Argentina Feliz Ano Novo 2002", só que algumas semanas antecipado.
As escadarias e rampas do congresso estavam cheias de gente ainda que mais
15.000 pessoas estivessem lá embaixo olhando. A polícia esperava em uma
esquina mas não interveio e durante mais de uma hora as pessoas festejaram
e expressaram a descontentamento contra o governo e sua política. Contra
a política e os parlamentares, contra Menem e a corrupção. Assim, entre
gritos e cantos, as pessoas começavam a deixar o lugar, não sem incidentes,
é claro, como parece que vai ser comum daqui em diante.
O governo de De la Rua está moribundo e a oposição peronista está pensando
neste momento como será a transição. A saída que propõe não é muito diferente,
dolarizar ou desvalorizar, ajustar ou saquear diretamente do bolso dos
trabalhadores. Todos trabalham para o mesmo chefe, o FMI e o Banco Mundial.
Ontem o descontentamento se expressou na rua mas não chegou a avistar uma
saída para o país. E o que se necessita é uma saída para o país.
Problemas como o do pagamento da dívida externa, o desemprego do miseráveis,
estão na ordem do dia e se deve encontrar uma resposta a eles. Os trabalhadores
e desempregados que são os mais prejudicados numa virtual quebra da economia
podem se colocar de pé e dar uma resposta para todo o povo argentino. Nacionalizar
as empresas que fechem ou que demitam, dividir horas de trabalho entre
empregados e desempregados, deixar de pagar a dívida externa, nacionalizar
os bancos e acabar com empréstimos rapinantes a pequenos comerciantes e
pequenos agricultores arruinados, estas são as tarefas do momento.
As pessoas na rua demonstraram ter a gana e a decisão que não tem os burocratas
sindicais que seguem sustentando um governo em decadência e se negam a
chamar uma nova greve geral por tempo indeterminado até que caia o governo
e sejam os trabalhadores e o povo argentino os que decidam o futuro do
país.
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