Nas décadas de 60 e 70, o americano Múmia Abu-Jamal lutou
contra a discriminação racial ao lado dos Panteras Negras. Hoje,
sua luta é outra: condenado por assassinato, ele tenta sair do
corredor da morte.
Na cela de segurança máxima do americano Múmia Abu-Jamal, de 52 anos, a luz nunca se apaga. Câmeras monitoram todos os seus passos. Preso na State Correctional Institution Greene, no estado da Pensilvânia, ele aguarda a execução desde 1982. Foi condenado à morte pelo assassinato do policial Daniel Faulkner na Filadélfia, em 9 de dezembro do ano anterior. Mesmo isolado, Múmia (ou Wesley Cook, seu nome antes de se converter ao islamismo) continua com a atitude militante que tinha no final dos anos 60, quando aderiu ao Partido dos Panteras Negras - movimento radical pelos direitos dos negros que, algumas vezes, entrou em conflitos sangrentos com policiais americanos.
Naquela época, começou a trabalhar como jornalista - por criticar a situação
dos pobres e das minorias nos Estados Unidos, ficou conhecido como "a
voz dos que não têm voz", ou "The Voice of the Voiceless", título de uma música que o Rage Against The Machine gravou para Múmia no álbum
The Battle of Los Angeles, de 1999. Escute aqui um trecho:
Enquanto busca um novo julgamento, Múmia grava programas semanais de rádio
e continua escrevendo. A autorização para que ele receba a injeção letal
já foi dada duas vezes, mas a pressão internacional e o trabalho de seu advogado
conseguiram adiar a execução indefinidamente - sua defesa alega inocência
e diz que ele foi condenado por suas idéias políticas.
Em 2003, a luta de Múmia rendeu-lhe o título de cidadão honorário de Paris (antes dele, o último a receber a rara homenagem tinha sido o pintor espanhol Pablo Picasso, em 1971). A seguir, ele fala sobre os Panteras Negras, a condenação e a vida no corredor da morte. As respostas foram enviadas para História em duas cartas datilografadas, escritas dentro da cadeia.
História - Como você entrou no Partido dos Panteras Negras?
Múmia Abu-Jamal - Eu estava com uns 14 anos e nunca tinha visto nada igual.
Os caras mostravam uma atitude desafiadora com o mundo e protetora na comunidade
negra. Eles tinham um apelo enorme com os jovens. Quando me dei conta, eu
estava me vestindo como eles, falando como eles, trabalhando com eles. Aos
15 anos, enfrentava o governo e todo o sistema opressor com minhas palavras.
Lia muitos livros e escrevia para toda a comunidade sobre a violência da
polícia local, o capitalismo americano, o racismo etc. Logo virei o responsável
pela comunicação do Partido dos Panteras Negras na Filadélfia. Produzia,
escrevia, editava e cuidava da distribuição do jornal do partido ao lado
de outros jovens. A gente vendia cerca de 150 mil cópias por semana nos guetos.
Fizemos uma revolução. Viramos um grande incômodo para a polícia.
Os Panteras Negras foram chamados de revolucionários. Vocês tinham a sensação
de estar participando mesmo de uma revolução mundial?
A gente se identificava com toda luta antiimperialista e tentava trocar apoio
e impressões, dentro das limitações tecnológicas da época. O partido tinha
uma ligação forte com Cuba. Alguns membros viajaram para o exterior e também
recebemos visitantes. Todos os líderes comunistas do mundo eram grandes influências.
Alguns livros, como o Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung, viraram referência.
Não tenho dúvida de que o partido me deu uma educação internacional - Huey
(Huey P. Newton, que fundou o partido ao lado de Bobby Seale na Califórnia
em 1966) diria "intercomunitária".
Não trocaria aquela experiência por nada.
Na sua opinião, quais foram os erros do partido?
Nossos erros foram muitas vezes provocados pelos egos, pelas paixões, pela
falta de compaixão entre os membros do partido. Eu realmente acho que a separação
de Huey e Eldridge poderia ter sido evitada se, em vez de falarem um do outro,
eles falassem um com o outro (Eldridge Cleaver, fundador da sede internacional
dos Panteras Negras, se desentendeu com Huey Newton em 1971. Cleaver queria
continuar pregando a luta armada, enquanto os fundadores do grupo defendiam
uma postura mais pacífica). Essa separação foi seguida de outras separações
que acabaram com a organização - além das forças externas que nós, de várias
maneiras, permitimos que entrassem no partido. Também errei ao deixar o partido
prematuramente, depois de ficar enojado com as lutas internas. Se eu e alguns
outros continuássemos unidos por mais alguns anos, a história do partido
seria diferente. Os negros americanos teriam uma grande revolução alternativa
para representar seus interesses. Mas é difícil saber o
quanto resistiríamos. No caso Malcolm X, por exemplo, o Estado teve um papel
importante na briga entre ele e a Nação do Islã e no próprio assassinato
dele. Li arquivos do FBI que foram abertos ao público em que se pode concluir
que o Estado jogou para isolá-lo e dar um fim à vida dele.
O que aconteceu em 9 de dezembro de 1981, data do assassinato do policial
pelo qual você foi condenado?
Estava trabalhando de madrugada, no meu táxi, quando vi um policial agredindo
meu irmão e decidi me aproximar (Danny Faulkner parou William Cook, que estava
dirigindo um fusca na contramão com os faróis apagados às 3h50 da manhã,
numa área de bares e boates). Não tinha outra opção. Não poderia seguir em
frente depois de ver alguém batendo no meu irmão. E então aconteceu uma série
de injustiças que culminaram com a minha condenação (segundo testemunhas,
William foi agredido brutalmente e Múmia trocou tiros com Faulkner. Um outro
homem estaria envolvido na briga, mas teria fugido do local antes da chegada
dos policiais que prenderam Múmia e nunca foi achado. Múmia levou dois tiros
e teve hemorragias no pulmão e no fígado).
Como foi o julgamento?
Não pude fazer minha própria defesa, fui expulso do tribunal e tive que aceitar
um defensor público que sequer me perguntou o que aconteceu naquela madrugada
- e também não falou com as testemunhas. O júri era racista e me condenou.
Depois meus direitos constitucionais foram violados porque eu nunca pude
recorrer.
Qual a situação atual do seu caso?
Conseguimos adiar minha morte duas vezes, mas não conseguimos um novo julgamento
ainda. No começo deste ano, o meu advogado obteve uma vitória que pode levar
a um novo julgamento e a minha liberdade. O caso agora parece estar andando
mais rapidamente.
Como é a vida de um condenado à morte?
Há câmeras ligadas 24 horas por dia sobre a minha cabeça e não apenas porque
eles temem que eu fuja. Elas estão ligadas para que os guardas monitorem
tentativas de suicídio. Certamente todos os presos que um dia entraram no
corredor da morte já pensaram em suicídio, por mais ridículo que isso possa
parecer. Tenho duas horas por dia fora da cela. O corredor da morte, assim
como a vida, é como você quer que seja. É um lugar de isolamento extremo
e sua saúde mental depende muito de como você gasta seu tempo. Homens diferentes
têm maneiras diferentes de lidar com a vida - ou, francamente, de falhar
em lidar com a vida. Eu tento me manter sempre muito ocupado. Fiz faculdade
de Psicologia e mestrado em História aqui dentro. Leio livros de história,
ciência política, atualidades... Escrevo, estudo, pinto. Alguns caras gastam
dias travando argumentos amargos com outros caras no corredor da morte. Alguns
se perdem praticando esporte ou fazendo cultos religiosos. A alienação é
um mal
terrível. Quando fico sabendo que um político quer acabar com pequenos luxos,
como TV e aparelhos de musculação na prisão, acho bom. Se os presos vivessem
sem TV, livros, jornais, cultos, exercícios, eles passariam mais tempo na
companhia de si mesmos e teriam mais consciência da realidade.
Você acha que os Estados Unidos são um país melhor ou pior do que aquele
que você conhecia há 25 anos?
O jeito americano de aplicar a pena de morte nada mais é hoje do que uma
forma moderna do linchamento nas árvores (tipo muito comum de assassinato
cometido no sul dos Estados Unidos contra os negros - antes das reformas
que lhes garantiram direitos civis, nos anos 60). Mudou a tecnologia, mas
ainda temos o mesmo espírito de mentiras sangrentas por baixo da máscara.
É por isso que o corredor da morte é tão negro e, cada vez mais, pardo.
Na sua opinião, os americanos ainda são racistas?
Se eu disser que sim, é apenas a opinião de um cara. Mas estudiosos que têm
olhado para a questão também têm chegado à mesma conclusão. A toxina da escravidão
deixou marcas profundas na alma americana. Até o presidente Bush disse há
pouco tempo (no dia 20 de julho, na Associação Nacional para o Progresso
das Pessoas de Cor, nos Estados Unidos) que racismo e discriminação são uma
mancha na América. É impossível achar uma figura histórica que não tenha
explorado o trabalho de negros, a vida, a saúde e a esperança de nossa gente
para fazer um altar próprio de lucros. George Washington, Thomas Jefferson,
James Madison, Patrick Henry, que talvez os brasileiros não conheçam, mas
está em todos os livros escolares daqui (Henry foi um importante líder da
independência americana). Ele fez um agitado discurso revolucionário: "Me
dê liberdade ou me dê a morte!". Claro que isso não se aplicava aos escravos dele.
Em todo o mundo, milhares de pessoas torcem para vê-lo livre da prisão. Até
no Brasil, no fim dos anos 90, manifestantes fizeram cartazes a favor da
sua liberdade. Onde você gostaria de viver ao deixar a prisão?
Penso muito sobre isso. Definitivamente não vou ficar nos Estados Unidos.
A França tem me dado muito apoio e é claro que eu também penso nos países
da África. Adoraria conhecer Gana, Nigéria, Quênia... Só para mencionar alguns.
Quanto ao Brasil, quando eu penso no seu país, as primeiras imagens que me
vêm à cabeça são óbvias: as lindas mulheres, o Rio de Janeiro, o Carnaval
etc. Mas o Brasil também me faz pensar em outras coisas. É o país que tem
a maior comunidade negra fora da África, que tinha Palmares e que tinha Zumbi.
Eu penso nos orixás, no candomblé, nas criações dos povos africanos. Deve
ser um país bonito.
Como o seu relacionamento com Wadiya, sua esposa, resiste ao corredor da
morte?
Eu a amo como a amava 25 anos atrás. Nós não estamos juntos porque temos
que estar juntos, estamos juntos porque queremos. Um relacionamento sem nenhum
contato físico é difícil de entender e de explicar. Mas eu poderia dizer
que continuamos totalmente conectados. É assim que eu sinto.
Depois de quase um quarto de século no corredor da morte, você ainda acredita
que vai sair daí vivo?
Nunca deixei de acreditar na liberdade. Nem por um segundo.
Quais são suas lembranças mais fortes daquela época?
No Partido dos Panteras Negras, o sentimento mais forte era o de esperança.
Eu me lembro mais da camaradagem, do companheirismo dentro do grupo do
que os eventos. Todos trabalhavam duro para fazer algo positivo pela comunidade.
Cada pessoa dava o máximo de si pelo partido e pelas outras pessoas em
volta. Aqueles foram longos e duros dias de trabalho. Eu aprendi a escrever
da perspectiva das pessoas e não da do sistema, como fazem muitos jornalistas.
Eu aprendi a trabalhar em conjunto, com gente que tinha visões e perspectivas
diferentes das minhas. Aprendi a falar, a relatar, a enfatizar e a ouvir
os outros, o que me ajudou muito no jornalismo e na vida.
Você ainda tem amigos que pertenceram aos Panteras Negras?
Sim, eu ainda tenho grandes amigos que fiz no partido. Depois de passar por
tantas situações juntos, sob um estresse incrível, seria difícil não virarmos
amigos para a vida toda. Muitas irmãs - e irmãos - do partido me ajudaram
a escrever We want Freedom: A life in the Black Panther Party (publicado
em 2004, este foi o quinto livro de Múmia). Eu já conheci muitas, muitas
pessoas mesmo que se apresentaram como companheiros do partido. Como eu cuidava
dos arquivos de membros da Filadélfia e prestava muita atenção neles, sei
que não era verdade. Ou pelo menos que não era totalmente verdade. Acho que
muitos negros sentiam orgulho do partido, mas medo de participar. E, se eles
fossem sinceros, diriam apenas "eu
gostaria de ter participado, eu realmente queria" ou "eu fui um fã de vocês" ou "eu usei um bottom do Partido dos Panteras Negras" etc. Tudo bem, eu entendo.
Você se converteu ao islamismo nos primeiros anos na prisão, como fez a maioria
dos presos que eram do movimento negro. Continua praticando a religião?
Eu me dediquei nos primeiros anos. Mas, por causa do isolamento, a religião
deixou de ter importância. Quando eu penso nas pessoas lutando na Venezuela
contra a repressão imperialista, estou praticando minha religião. Quando
escrevo alguma coisa em apoio ao esforço popular contra a opressão em qualquer
lugar do mundo, estou praticando minha religião. Quando escrevo uma carta
que serve de inspiração para um jovem, e esse jovem fala para outros o que
se passa em sua cabeça sobre os atos sem pé nem cabeça do sistema, estou
praticando minha religião. John Africa (fundador da organização negra MOVE,
que surgiu em 1972 com uma filosofia naturalista, da qual Múmia faz parte)
costumava dizer que muitas pessoas só pensam em suas religiões quando vão
para a igreja aos domingos, fazem suas preces e tomam um copo de vinho. Quando
elas voltam para o mundo lá fora, de segunda a sexta-feira, trabalham em
favor do sistema. Não é o que você faz aos sábados ou domingos que define
sua
religião. É o que você faz de segunda a sexta-feira que conta. Infelizmente
as pessoas realmente acreditam no sistema. Esta é a religião delas. O que
você pensa no dia-a-dia, que drogas você toma, que trabalho você aceita,
o dinheiro que você ganha, o sexo que você faz... Essas são suas verdadeiras
religiões.
Como é a sua relação com seus filhos e netos? com que freqüência vocês se
vêem?
Meus filhos e netos não me visitam tantas vezes quanto nós gostaríamos, por
causa da imensa distância, mais de 300 milhas (cerca de 480 quilômetros).
Então, nós falamos por telefone duas ou três vezes por mês. Eu gosto de mandar
livros de presente para meus netos. Sei que eles não lêem a maioria, mas
quando eu pergunto se leram, sempre dizem: "Claro,
vovô!".
ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA
Múmia Abu-Jamal
AM 8335,
SCI Greene
175 Progress Dr.
Waynesburg, PA
15370
[Revista Aventuras na História - edição 38 - outubro de 2006]

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