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A razão do fracasso da revolução Russa, conduzida como foi pelo partido comunista, é agora clara. O poder político do partido, organizado e centralizado no Estado, procurou se manter por todos os meios à sua disposição. As autoridades centrais tentaram conduzir as atividades populares a uma via que correspondesse aos projetos do partido. O único objetivo deste ultimo era reforçar o Estado e estabelecer seu monopólio sobre a atividade econômica, política e social, e todas as formas de manifestação intelectual. A revolução tinha um objetivo bem diferente; seu caráter essencial era a negação da autoridade e da centralização. Ela lutava para ampliar o campo da iniciativa do proletariado e multiplicar as formas do esforço individual e coletivo. Os objetivos e tendências da Revolução eram diametralmente opostos àqueles do partido político dirigente.
Igualmente opostos eram os métodos da revolução e do estado. Os da revolução
estavam impregnados do espírito da própria revolução, quer dizer, procuravam
emancipar-se de todas as forças opressivas; em resumo, estavam transformados
pelos princípios libertários. O método do estado, ao contrario – não
só do estado bolchevique, como de qualquer outro governo – estava baseado
na coerção, que, lógica e necessariamente, desenvolveu-se em violência
sistemática, opressão e terrorismo. Assim, duas tendências opostas lutavam
pela supremacia: o estado bolchevique contra a Revolução. Esta luta era
um combate em que um dos dois devia perecer. As duas tendências, contrarias
em seus objetivos e métodos, não podiam trabalhar em comum acordo: o
triunfo do estado foi o fracasso da Revolução.
Seria, entretanto, um erro pretender que a não realização dos objetivos
da revolução deveu-se somente às práticas bolchevistas. Fundamentalmente,
foi o resultado dos princípios e métodos do bolchevismo. Foram os princípios
autoritários do Estado que sufocaram o espírito libertário e as aspirações
rumo à liberdade. Qualquer outro partido político que tivesse estado
no poder, o resultado teria sido completamente idêntico. Não foram os
bolchevistas que mataram a revolução, mas sim a idéia bolchevista. Foi
o marxismo ou, em resumo, o sectarismo governamental. Somente a compreensão
dessas forças ocultas, subterrâneas, que esmagaram a revolução, pode
lançar luz sobre a verdadeira lição deste evento que agitou o mundo inteiro.
A revolução russa refletiu, em pequena escala, a luta secular entre dois
princípios: libertário e autoritário. O progresso não consiste na aceitação
dos princípios de liberdade contra os de coerção? A revolução russa foi
uma tentativa libertária, vencida pelo Estado bolchevista, pela vitória
temporária
da idéia governamental e reacionária.
Esta vitória deve-se a um certo numero de causas, das quais a principal,
entretanto, era a situação retardatária da indústria russa, como muitos
escritores ressaltaram. A cultura intelectual do povo russo foi também
uma outra causa que, se lhe dava vantagens sobre os povos vizinhos contaminados
pela política, tinha também grandes desvantagens. A Rússia estava preservada
da imundice e da corrupção política e parlamentar. Por outro lado, esta
ignorância comportava a inexperiência no jogo político e uma fé ingênua
no poder milagroso do partido que gritava mais alto e fazia mais promessas.
Esta crença no poder governamental serviu para acorrentar o povo russo
ao partido comunista, antes que as grandes massas tivessem podido notar
que o jugo fora de novo colocado sobre seus ombros.
O principio libertário foi poderoso nos primeiros dias da revolução, a
necessidade de livre opinião exprimindo-se em todos os lugares. Mas quando
a primeira onde de entusiasmo deu lugar às necessidades prosaicas de
vida cotidiana, foi preciso grande firmeza de convicção para manter ardente
a chama da liberdade. Houve apenas, comparado à vasta extensão da Rússia,
um punhado de homens, os anarquistas, que empreenderam esta tarefa. Mas
seu numero era pequeno, e sua propaganda, sufocada sob o regime czarista,
não pudera ainda dar seus frutos. O povo russo, ainda que parcialmente
anarquista por instinto, estava ainda muito pouco familiarizado com os
verdadeiros princípios e métodos libertários para tentar aplicá-los positivamente.
A maioria dos anarquistas russos estava, infelizmente, ainda mais preocupada
com a atividade limitada dos grupos e com o esforço individual do que
com uma ação coletiva e social. Os anarquistas – os historiadores probos
do futuro o admitirão – representaram um papel muito importante na revolução
russa, um papel muito mais fecundo e significativo do que seu numero
poderia fazer supor. Entretanto, a sinceridade e a honestidade obrigam-me
a constatar que seu trabalho teria sido de valor infinitamente mais prático
se eles estivessem mais bem organizados e preparados para guiar as energias
desamparadas do povo no sentido de uma organização social sobre as bases
libertárias.
Mas o insucesso dos anarquistas na revolução russa – no sentido acima indicado
– não significa de modo algum o fracasso do ideal libertário. Ao contrário,
a revolução russa demonstrou incontestavelmente que a idéia de estado,
o socialismo de estado, em todas suas manifestações( econômica, política,
social, educativa), fracassou por completo. Ela é a antítese da revolução.
Permanece verdadeiro, como em todo tipo de progresso, que apenas o espírito
e o método libertários podem conduzir os homens a dar um passo adiante
em sua luta por uma vida melhor, mais bela e mais livre. Aplicada às
grandes revoltas sociais conhecidas sob o nome de revolução, esta tendência
é tão fecunda em resultados quanto em um período de processo da evolução
ordinária. O método autoritário jamais obterá sucesso na história, como
mostrou a revolução russa. O espírito humano não descobriu outro principio
além do libertário, pois o homem pronunciou a mais elevada palavra de
sabedoria quando disse que a liberdade era a mãe da ordem e não sua filha.
Apesar de todas as seitas e partidos políticos, nenhuma revolução pode
resultar em verdadeiro e permanente sucesso se não vetar toda tirania
e centralização, e se não se esforçar em fazer completamente uma real
reclassificação de todos os valores econômicos, sociais e intelectuais.
Não uma simples substituição de um partido político por outro à frente
do governo; não
mascarando a autocracia com formulas proletárias; não a ditadura de uma
nova classe no lugar de uma antiga; não uma comedia política qualquer,
mas a total derrubada de todos esses princípios autoritários servirá
à revolução.
Sobre o terreno econômico, essa transformação deve ser feita pelas mãos
das massas industriais: estas ultimas podendo escolher entre o estado
industrial e o anarco-sindicalismo. No primeiro caso, a ameaça contra
a reconstrução da nova estrutura social desenvolver-se-á com o estado
político. Isto se tornaria um peso morto, entravando o crescimento de
novas formas de vida. Por esta razão, o sindicalismo (ou o industrialismo)
é suficiente para realizar a tarefa, assim como proclamam seus partidários.
Somente quando o espírito libertário tiver penetrado na organização econômicas
dos trabalhadores as múltiplas energias criadoras do povo poderão manifestar-se,
e a revolução será defendida e salvaguardada.
Somente a livre iniciativa e a participação popular nos interesses da revolução
poderão impedir que os terríveis erros cometidos na Rússia reproduzam-se.
Por exemplo, com combustível disponível a uma centena de quilômetros
de Petrogrado, não havia nenhuma razão para que essa cidade sofresse
frio, se as organizações de trabalhadores tivessem podido exercer livremente
sua iniciativa para o bem-estar de todos. Os camponeses da Ucrânia teriam
podido cultivar suas terras se tivessem tido acesso aos implementos agrícolas
armazenados em kharkov e outros centros industriais que, esperavam, para
distribui-los, ordens de Moscou. Estes são exemplos característicos da
centralização bolchevique, que deveriam servir de advertência aos trabalhadores
da Europa e da América, e preveni-los contra os efeitos destrutivos do
estado.
Só a potência industrial das massas, realizada por associações de bases
libertarias – anarco-sindicalismo – é capaz de organizar com sucesso
a vida econômica e a produção. Por outro lado as cooperativas, trabalhando
de acordo com as organizações industriais, sevem de meio de troca e de
repartição entre a cidade e o campo, e ao mesmo tempo unem as massas
agrárias e industriais. Um elo comum de serviços recíproco e de ajuda
mutua é criado, constituindo a melhor possibilidade da revolução bem
mais efetiva que o trabalho obrigatório, o exército vermelho ou o terrorismo.
Só nesta via a revolução pode agir e desenvolver rapidamente as novas
formas sociais e inspirar às massas a maior vontade de aperfeiçoamento.
Mas as organizações industriais (ou sindicais) libertárias e as cooperativas
não são os únicos meios para resolver as fases complexas da vida social.
Há também as forças intelectuais, as quais, ainda que intimamente ligadas
às atividades econômicas, têm, entretanto, suas próprias funções a exercer.
Na Rússia, o estado comunista tornou-se o único árbitro de todas as necessidades
do corpo social. O resultado, como descrevi anteriormente, foi uma complete
estagnação intelectual e a paralisia de todo esforço criativo. Se quisermos
evitar no futuro semelhante derrota, as forças intelectuais, que permanecem
enraizadas na vida econômica, devem ainda ter certa independência e liberdade
de expressão. Não mais adesão ao partido político dirigente, mas sim
dedicação a revolução; capacidade, conhecimentos e – acima de tudo –
o impulso criador deveriam ser o único critério de capacidade para o
trabalho intelectual. Na Rússia, isso se tornou impossível desde o começo
da revolução de Outubro, pela separação da intelligentsia
e das massas. É verdade que a primeira a tomar a ofensiva foi a intelligentsia
(os intelectuais), especialmente os técnicos que, na Rússia, como em
muitos outros lugares, agarram-se à burguesia. Este elemento, incapaz
de compreender a significação dos eventos revolucionários, esforçou-se
em represar a torrente de revolta por uma completa sabotagem. Mas, na
Rússia, havia também outra espécie de intelectuais com um glorioso passado
revolucionário de cem anos. Esta categoria de intelectuais manteve sua
fidelidade ao povo, ainda que não pudesse aceitar sem reserva a nova
ditadura. O erro fatal dos bolcheviques foi não ter feito nenhuma distinção
entre estes dois elementos. Eles combateram a sabotagem por um terror
que se aplicava a todos os intelectuais, enquanto classe, e inauguraram
uma campanha de ódio ainda mais intensa do que contra a burguesia, método
que cavouum abismo entre intelectuais e proletariado, e entravou o trabalho
construtivo.
Lênin foi o primeiro a compreender este erro criminoso. Ele fez notar que
era um grave erro levar os trabalhadores a crer que poderiam reconstruir
as industrias e engajar-se no trabalho intelectual sem a ajuda e a cooperação
da intelligentsia. O proletário não tinha os conhecimentos nem os treinamentos
para essa tarefa, e era preciso reconstituir a categoria dos técnicos
para restaurar a direção da vida industrial. Mas o reconhecimento deste
erro não impediu Lênin, nem seu partido, de cometer outro. Os técnicos
foram chamados em condições que aumentavam o antagonismo entre eles e
o regime.
Enquanto os trabalhadores continuavam a morrer de fome, os engenheiros,
os especialistas industriais, os técnicos, recebiam altos salários, privilégios
especiais e os melhores alimentos. Tornaram-se empregados mimados do
estado e novos condutores das massas escravas. Estas últimas, nutridas
durante anos com o falso ensinamento de que somente o músculo é necessário
para uma revolução triunfante, e de que somente o trabalho físico é produtivo,
e além do mais sugestionadas pela campanha de ódio que havia denunciado
em cada intelectual um contra-revolucionário e um especulador, não podiam
fazer a paz com aqueles que os bolcheviques tinham ensinado a detestar
e a odiar.
Infelizmente, a Rússia não é o único país onde prevalece essa atitude contra
os intelectuais, por parte dos proletários. Em todos os lugares os demagogos
da política jogam com a ignorância das massas, ensinando-lhes que a educação
e a cultura intelectual são preconceitos burgueses, que os operários
podem dispensá-las, e que apenas eles, trabalhadores, são capazes de
reconstruir a sociedade. A revolução russa estabeleceu muito claramente
que o músculo e o cérebro são indispensáveis na obra de regeneração social.
Os trabalhadores intelectuais e manuais estão em relação tão estreita
no corpo social quanto o cérebro e a mão no organismo humano. Um não
pode funcionar sem o outro.
É verdade que a maioria dos intelectuais considera-se como uma classe à
parte, superior aos operários; mas em todos os lugares as condições sociais
fizeram rapidamente a classe intelectual descer do seu pedestal. Eles
não têm essa facilidade do proletário físico, que pode juntar seus instrumentos
e caminhar pelo mundo à procura de uma mudança de situação. Os intelectuais
estão enraizados mais profundamente em seu meio social particular, e
não podem mudar de situação ou de vida com tanta facilidade. Se o mundo
ocidental quiser aproveitar as lições da Rússia, a bajulação demagógica
das massas e o cego antagonismo contra a intelligentsia devem cessar.
Isso não quer dizer, entretanto, que os trabalhadores devem estar completamente
sob dependência do elemento intelectual. Ao contrário, as massas devem,
desde agora, começar a se preparar para a grande obra que a revolução
lhes atribui. Elas deveriam adquirir os conhecimentos e as capacidades
técnicas necessárias para administrar e dirigir o mecanismo complexo
de estrutura
industrial e social de seus respectivos países. Mas, mesmo nas melhores
condições que tenham podido preparar, terão sempre necessidade da cooperação
do elemento profissional e intelectual. Assim, também este último deve
compreender que seus verdadeiros interesses são idênticos àqueles da
massa. Uma vez que estas duas forças tenham aprendido a fazer um todo
harmonioso, os aspectos trágicos da revolução russa poderão ser eliminados.
Ninguém deveria ser fuzilado porque “adquiriu, no passado, instrução. Os
cientistas, o engenheiro, o especialista, o educador, o pesquisador e
o artista, tanto quanto o carpinteiro, o maquinista ou qualquer outro
trabalhador manual são todos parcela da força coletiva que deve fazer
da revolução o grande arquiteto do novo edifício social.
Ao invés de ódio, unidade; ao invés de antagonismo, camaradagem; ao invés de fuzilamento, simpatia, é a lição que nos dá o desmoronamento da grande revolução russa, lição a ser apreendida tanto pelos intelectuais como pelos trabalhadores manuais. Todos devem saber o valor inapreciável da ajuda mútua e da cooperação libertária. Além disso, cada um deve permanecer independente de seu meio e ser capaz de colocar à disposição da sociedade o melhor de si mesmo. É somente por esse meio que o trabalho produtivo e o esforço intelectual exprimir-se-ão em formas continuamente mais novas e ricas. Para mim, este é o ensinamento de conjunto e a lição vital que a Revolução russa nos dá.
Nas páginas anteriores tentei indicar por que os princípios, os métodos
e a tática bolchevistas fracassaram, e que métodos e princípios similares
aplicados em outros países, até mesmo os mais evoluídos industrialmente,
deviam ter os mesmos resultados.
Mostrei que não foi apenas o bolchevismo que fracassou, mas também o próprio
marxismo. Significa dizer que a idéia Estado, o principio autoritário,
provaram sua total bancarrota na experiência da revolução russa. Se eu
tivesse de resumir minha argumentação em uma fórmula, diria: a tendência,
inerente ao estado, é de concentrar, estreitar, monopolizar todas as
atividades sociais; a natureza da revolução, ao contrario, é desenvolver-se,
ampliar-se, disseminar a si própria em círculos cada vez maiores. Em
outros termos, o Estado é conservador e estático, a revolução é progressista
e dinâmica. Estas duas tendências são incompatíveis e tendem a se destruir
mutuamente. A idéia estatista matou a revolução russa e este será o mesmo
resultado para todas as outras revoluções, a menos que o ideal libertário
se imponha. Devo ainda ir mais longe. Não são apenas o bolchevismo, o
marxismo, e o estatismo que são fatais à revolução e ao progresso humano.
A principal causa da derrota da revolução é mais profunda. Encontra-se
na
concepção socialista da própria revolução.
A idéia revolucionária que domina, em geral, e de modo particular a idéia
socialista, é que a revolução é uma violenta transformação das condições
sociais, pela qual uma classe social, o proletário, torna-se mais poderoso
que qualquer outra classe, a classe capitalista. É a concepção de uma
mudança puramente física, e, como tal, necessita apenas de reorganização
das instituições e da cena política. A ditadura burguesa é substituída
pela “ditadura do proletário” ou pela da “vanguarda”, o partido comunista.
Lênin toma o lugar dos Romanov, o gabinete imperial é rebatizado de soviete dos comissários do povo, Trotsky é nomeado ministro da guerra, e um operário torna-se o governador militar geral de Moscou. Eis, em sua essência, a concepção bolchevique da revolução que é atualmente posta em prática. E, com algumas diferenças mínimas, étambém a idéia da revolução que fazem todos os outros partidos socialistas.
Esta concepção é completamente falsa. A revolução é, com efeito, um processo
violento. Mas, se tem como único resultado uma mudança de ditadura através
da substituição das personalidades políticas, ela não tem então nenhum
valor. Não vale, com toda certeza, a perde de vidas humanas e de valores
intelectuais que resultam de cada revolução. Mesmo que tal revolução
trouxesse um bem-estar social maior (o que não foi o caso na Rússia),
ainda assim não valeria o terrível preço que custa: uma simples reforma
pode ser obtida sem revolução sangrenta. Não são paliativos ou reformas
o verdadeiro motivo de uma revolução como eu concebo.
Na minha opinião, mil vezes fortalecida pela experiência russa, a grande
missão da revolução, “a revolução social”, é a reclassificação, não apenas
dos valores sociais, mas dos valores humanos. Estes últimos são até mesmo
mais importantes, pois são as bases dos valores sociais. Nossas instituições
e nossas condições de existência repousam sobre idéias profundamente
enraizadas. Querer mudar essas condições e, ao mesmo tempo, deixar estas
idéias e valores em sua situação de fundações sociais, representa simplesmente
uma transformação superficial, que não pode durar nem trazer real melhora.
É simples mudança de forma, ou de substância, como se viu de modo tão
trágico na Rússia.
Foi ao mesmo tempo o grande erro e a grande tragédia da revolução russa
o de tentar (pela direção do partido político governante) mudar apenas
as instituições e as condições de vida, ignorando totalmente os valores
sociais e humanos incluídos na Revolução.
Pior ainda, em sua louca paixão pelo poder, o Estado comunista até mesmo
trabalhou para fortalecer as idéias e as concepções que a Revolução tinha
tentado destruir. Ele encorajou todas as piores qualidades anti-sociais
e destruiu de maneira sistemática a concepção já clara dos novos valores
revolucionários.
O sentimento de justiça e igualdade, o amor à liberdade e à fraternidade
humana – estes fundamentos de toda verdadeira regeneração social -, o
Estado comunista suprimiu-os, exterminou-os. O sentimento instintivo
do homem pela igualdade foi marcado como uma fraqueza sentimental; a
dignidade humana e a liberdade tornaram-se superstições burguesas; o
respeito pela vida humana, que é a própria essência da reconstituição
social, foi condenado como contra-revolucionário. Esta terrível perversão
dos valores fundamentais trazia nela própria o germe da destruição. Com
esta concepção de que a revolução era somente um meio de assegurar o
poder político, foi inevitável que todos os valores revolucionários se
tornassem subordinados às necessidades do Estado socialista; ou que fossem
explorados para firmar a segurança do poder governamental recém-adiquirida.
A “razão de Estado”, disfarçada sob a máscara dos “Interesses da Revolução
e do Povo”, tornou-se o único critério de ação, e mesmo de sentimento.
A violência, esta coisa
inevitável nos movimentos revolucionários, foi admitida como costume
estabelecido, como um habito, e é agora glorificada como instituição
mais poderosa e ideal. Não foi os próprio Zinoviev quem canonizou Dzerjinsky,
o chefe da sangrenta Tcheca, com o titulo de “Santo da Revolução”? Não
é verdade que as maiores honrarias públicas foram concedidas a Uritsky,
o fundador e chefe cruelmente sádico da Tcheca de Petrogrado?
Esta perversão dos valores morais cristalizou-se em pouco tempo nesta super
fórmula do partido comunista: o fim justifica os meios. No passado, igualmente,
os jesuítas da Inquisição fizeram sua esta fórmula, e subordinaram-lhe
toda moralidade.
Ela se vingou dos jesuítas, da mesma forma que se vinga da revolução russa. À evocação dessa palavra de ordem, surgem a mentira, a falsidade, a hipocrisia, a traição, o assassinato público ou oculto. Seria de grande interesse para os estudantes de psicologia social estabelecer que dois movimentos, tão separados pelo tempo e pelas idéias quanto o jesuitismo e o bolchevismo, produziram os mesmos resultados na evolução do princípio de que o fim justifica os meios. O paralelo histórico, quase completamente ignorado, contém uma importante lição para todas as revoluções a ocorrer e para o futuro da humanidade.
Não há maior erro que esta crença que consiste em considerar objetivos
e projetos como uma coisa, e méritos e táticas como outra. Esta concepção
é uma ameaça latente para a regeneração social. Toda a experiência humana
ensina que métodos e meios não podem ser separados dos objetivos perseguidos.
Os meios empregados tornam-se, através de hábito individual e da pratica
social, parte do objetivo final; eles o influenciam, modificam-no, e
em pouco tempo objetivos e meios tornam-se idênticos. No dia em que coloquei
meus pés na Rússia, senti, vagamente no inicio, e de forma mais clara,
posteriormente. Os grandes objetivos da revolução tornaram-se tão nebulosos
e obscurecidos pelos métodos utilizados pelo poder político que em pouco
tempo foi difícil distinguir o que era meio temporário ou objetivo final.
Psicológica e socialmente, os meios influenciam, obrigatoriamente, e
alteram os objetivos. Toda a história do homem é uma prova contínua de
que separar os métodos da concepções morais resulta em uma queda nas
profundezas
da desmoralização. Nisto reside a verdadeira tragédia da revolução russa.
Possa esta lição não ter sido dada em vão.
Uma revolução só pode resultar em fator de libertação se os meios utilizados
forem idênticos aos objetivos buscados. A revolução é a negação do que
existe, é um violento processo contra a desumanidade do homem para com
o homem, com as mil e uma escravidões que ela comporta. É a destruição
dos valores dominantes em um sistema complicado de injustiça, de opressão,
e do mal que foi criado pela ignorância e brutalidade. É a anunciadora
dos novos valores, precipitando-se para a transformação das relações
humanas, não apenas para a nova distribuição do bem-estar social. É tudo
isso, e ainda mais, muito mais. É, de inicio e acima de tudo, o reclassificador,
o portador, dos novos valores. É o grande professor da nova moral, inspirando
os homens com nova concepção da vida e de suas manifestações nas relações
sociais. É o regenerador mental e espiritual.
Seu primeiro preceito moral está na identidade dos meios empregados e dos
objetivos buscados. O fim último de toda mudança social revolucionária
é o de estabelecer o respeito à vida, à dignidade humana, o direito de
cada ser humano à liberdade e ao bem-estar.
Se este não é o objetivo essencial da revolução, as transformações sociais
violentas não têm nenhuma justificativa.
Extraído da conclusão de My Further Disillusionment in Rússia, publicado
na “Revue Anarchiste”, n 33, abril de 1925.
Tradução: Plínio Augusto Coelho

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