O STATUS ONTOLÓGICO DA TEORIA DA CONSPIRAÇÃO
A teoria da conspiração é uma ilusão da Direita que também infectou a Esquerda? Teóricos da conspiração esquerdistas algumas vezes fazem um uso acrítico dos textos dos mais direitistas teóricos da conspiração – pesquisando por detalhes do Assassinato de JFK no trabalho do Liberty Lobby (1), adquirindo noções no estilo da John Birch Society (2) sobre os internacionalistas “liberais” CFR/Bilderberg/Rockefeller (3) etc. etc. Como o anti-semitismo pode ser encontrado tanto na Esquerda quanto na Direita, ecos dos Protocolos podem ser escutados de ambas as direções. Mesmo alguns anarquistas são atraídos pelo “Revisionismo Histórico”. O anticapitalismo (4) ou populismo econômico na Direita tem seu contraponto na Esquerda com o “Fascismo Vermelho”, que irrompeu na superfície da História no pacto Hitler/Stalin, e retornou para nos assombrar na bizarra combinação européia de “Terceira Onda” do extremismo de esquerda com o de direita, um fenômeno que aparece nos EUA com o niilismo libertino e o “satanismo” de grupos anarco-fascistas como a Amok Press (5) e a Radio Werewolf (6) – e a teoria da conspiração desempenha um importante papel em todas estas ideologias.
Se a teoria da conspiração é essencialmente da facção da direita, só pode
ser assim por que ela pressupõe uma visão da História como o trabalho de
indivíduos mais que de grupos. De acordo com este argumento, uma teoria
no estilo de Mae Brussel (7) (ela acreditava que os nazistas tinham se
infiltrado na Inteligência e Governo americanos no nível administrativo)
poderia parecer esquerdista mas de fato não fornece nenhuma sustentação
para uma genuína análise dialética, uma vez que ignora a economia e a luta
de classes como forças causais, e em vez disso atribui todos os eventos
às maquinações de indivíduos “escondidos”.
Mesmo a Esquerda anti-autoritária pode algumas vezes adotar esta opinião rasa sobre a teoria da conspiração, apesar do fato de não estar presa a nenhuma crença dogmática no determinismo econômico. Tais anarquistas concordariam que acreditar em teoria da conspiração é acreditar que as elites podem influenciar a História. O anarquismo postula que as elites são simplesmente arrastadas pelo fluxo da História e que sua crença em seu próprio poder ou instrumentalidade é pura ilusão. Se fosse para se acreditar no contrário, tais anarquistas argumentam, então Marx e Lênin estariam certos, e o vanguardismo conspiratório seria a melhor estratégia para o “movimento do social”. (A existência do vanguardismo prova que a Esquerda – ou pelo menos a Esquerda autoritária – não foi simplesmente contaminada acidentalmente pela teoria da conspiração: o vanguardismo É conspiração!) Os Leninistas dizem que o estado é uma conspiração, seja de Direita ou de Esquerda – faça a sua escolha. Os anarquistas argumentam que o estado não “tem” poder em nenhum sentido absoluto ou essencial, mas que ele meramente ursupa o poder que, em essência, “pertence” a cada indivíduo, ou à sociedade em geral. O aspecto aparentemente conspiratório do estado é portanto ilusório – pura masturbação ideológica da parte de políticos, espiões, banqueiros e outras escórias, servindo cegamente aos interesses de sua classe. A teoria da conspiração é, por conseguinte, de interesse apenas como um tipo de sociologia da cultura, um rastreamento das fantasias ilusórias de certos grupos de incluídos e de excluídos – mas a própria teoria da conspiração não tem nenhum status ontológico.
Esta é uma hipótese interessante de muito valor, especialmente como uma ferramenta crítica. No entanto, como uma ideologia, ela sofre da mesma falha que qualquer outra ideologia. Ela constrói uma Idéia absoluta, então explica a realidade em termos de absolutos.
A Direita e a Esquerda autoritárias compartilham uma visão do status ontológico
das elites ou das vanguardas na História; a resposta anti-autoritária é
transferir o peso ontológico-histórico para indivíduos ou grupos; mas nenhuma
das teorias se importou em questionar o status ontológico da História,
ou, quanto a isso, da própria ontologia.
No sentido tanto de confirmar quanto de negar a teoria da conspiração categoricamente,
deve-se acreditar na categoria da “História”. Mas desde o século 19, a
“História” se fragmentou em dúzias de partículas conceituais – etno-história,
psico-história, história social, história das coisas e idéias e mentalidades,
cliometria ( 8 ), micro-história – tais não são ideologias históricas rivais,
mas simplesmente uma multiplicidade de histórias. A noção de que a História
é o resultado da luta cega entre interesses econômicos, ou de que a História
“É” sob qualquer condição algo específico, não pode realmente sobreviver
a esta fragmentação numa infinidade de narrativas. A abordagem produtiva
a uma tal idéia fixa não é ontológica mas epistemológica; ou seja, agora
perguntamos não o que a “História” “é”, mas de preferência o que e como
podemos saber sobre e a partir das muitíssimas estórias, supressões, aparecimentos
e desaparecimentos, palimpsestos e fragmentos dos múltiplos discursos e
múltiplas histórias das complexidades
inextricavelmente emaranhadas do devir humano.
Então deveríamos pressupor (como um exercício epistemológico, se nada mais)
a noção de que embora seres humanos sejam arrastados ou movidos por interesses
de classe, forças econômicas, etc., podemos também aceitar a possibilidade
de um mecanismo de feedback, por meio do qual as ideologias e ações tanto
de indivíduos quanto de grupos possam modificar as reais “forças” que as
produzem.
De fato, me parece que, como anarquistas de um tipo ou de outro, devemos
adotar uma tal visão das coisas, ou então aceitar que nossa agitação, educação,
propaganda, formas de organização, levantes, etc., são essencialmente fúteis,
e que só a “evolução” pode ou irá ocasionar qualquer mudança significativa
na estrutura da sociedade e da vida. Isto pode ou não ser verdade a respeito
da longa duração do devir humano, mas é evidentemente falso no nível da
experiência individual da vida cotidiana. Aqui, uma espécie de existencialismo
tosco prevalece, de tal forma que devemos agir como se nossas ações pudessem
ser efetivas, ou então sofrer em nós mesmos uma escassez de devir. Sem
a vontade da auto-expressão em ação, somos reduzidos a nada. Isto é inaceitável.
Portanto, mesmo que se pudesse provar que toda ação é ilusão (e não acredito
que qualquer evidência nesse sentido esteja disponível), ainda nos defrontaríamos
com o problema do desejo. Paradoxalmente somos forçados (sob a pena da
total negação) a agir como se livremente
escolhêssemos agir, e como se a ação pudesse causar mudança.
Com base nisso, parece possível elaborar uma teoria da conspiração não-autoritária
que nem negue isso completamente, nem o eleve ao status de uma ideologia.
Em seu sentido literal de “respirar junto”, a conspiração pode até ser
pensada como um princípio natural de organização anarquista. Face a face,
não mediados por qualquer controle, juntos construímos nossa realidade
social para nós mesmos. Se devemos portanto fazê-lo clandestinamente, no
sentido de evitar os mecanismos de mediação e controle, então perpetramos
um tipo de conspiração. Mas tem mais: podemos também ver que outros grupos
podem se organizar clandestinamente não para evitar o controle mas para
tentar impô-lo. É inútil fingir que tais tentativas são sempre fúteis,
porque mesmo que eles fracassem em influenciar a “História” (ou o que quer
que isso seja), eles podem certamente ter impacto e se intersectar com
nossas vidas cotidianas.
Para tomar um exemplo, qualquer um que negue a realidade da conspiração deve certamente encarar uma difícil tarefa quando tentar justificar as atividades de certos elementos dentro da Inteligência e do Partido Republicano nos EUA durante as últimas poucas décadas. Não importa o Assassinato de Kennedy, esta perda de tempo espetacular; esqueça os remanescentes da Organização Gehlen (9) que estavam à espreita em Dallas; porém, como se pode sequer começar a discutir sobre os arapongas de Nixon, o Irã-Contra, a “crise” das poupanças e empréstimos (S&L) (10), as guerras-show contra a Líbia, Granada, Panamá e Iraque, sem alguma recorrência ao conceito de “conspiração”? E mesmo que acreditemos que os conspiradores estavam agindo como agentes de forças ocultas, etc., etc., podemos negar que suas ações tenham realmente produzido ramificações no nível de nossas próprias vidas cotidianas? Os Republicanos lançaram uma aberta “Guerra às Drogas”, por exemplo, enquanto secretamente usaram dinheiro da cocaína para financiar insurreições de direita na América Latina. Alguém que você conhecia morreu na Nicarágua? Alguém que você conhecia foi apanhado na hipócrita “guerra” à maconha? Alguém que você conhecia caiu na desgraça do vício em crack? (Não vamos nem mencionar os negócios da CIA com heroína no sudeste da Ásia ou no Afeganistão).
Como aponta Carl Oglesby, a teoria da conspiração mais sofisticada não pressupõe nenhuma trama singular, todo-poderosa, suprema, a cargo da “História”.
Isso com certeza seria uma forma de paranóia estúpida, seja da Esquerda ou
da Direita. Conspirações ascendem e caem, brotam e decaem, migram de um
grupo para outro, competem entre si, fazem conluio, se colidem, implodem,
explodem, falham, têm sucesso, suprimem, forjam, esquecem, desaparecem.
Conspirações são sintomas das grandes “forças ocultas” (e portanto úteis
como metáforas, se nada mais), mas elas também realimentam essas forças
e algumas vezes até afetam ou infectam ou têm efeito sobre elas. Conspirações,
de fato, não são A forma com que a história é feita, mas são antes partes
de um vasto conjunto de miríades de formas nas quais nossas múltiplas estórias
são construídas. A Teoria da Conspiração não pode explicar tudo mas pode
explicar algo. Se ela não tem status ontológico, ainda assim ela realmente
tem seus usos epistemológicos.
Aqui vai uma hipótese:
A história (com “h” minúsculo) é um tipo de caos. Dentro da história estão
embutidos outros caos, se se pode usar um tal termo. O capitalismo “democrático”
tardio é mais um destes caos, no qual o poder e o controle se tornaram
extraordinariamente sutis, quase alquímicos, difíceis de localizar, talvez
impossíveis de definir. Os escritos de Debord, Foucault, e Baudrillard,
levantaram a possibilidade de que o “poder em si” está vazio, “desaparecido”,
e foi substituído pela mera violência do espetáculo. Mas se a história
é um caos, o espetáculo só pode ser visto como um “atrator estranho” (11),
mais que como algum tipo de força causadora. A idéia de “força” pertence
à física clássica e tem pouca função a desempenhar na teoria do caos. E
se o capitalismo é um caos e o espetáculo um atrator estranho, então a
metáfora pode ser ampliada – podemos dizer que as conspirações “Republicanas”
são como os reais padrões gerados pelo atrator estranho. As conspirações
não são causais – mas, então, nada é realmente “causal” no velho
sentido clássico do termo.
Uma maneira útil pela qual podemos, por assim dizer, investigar no caos que é a história, é olhar através das lentes fornecidas pelas conspirações. Podemos ou não acreditar que as conspirações são meras simulações do poder, meros sintomas do espetáculo – mas não podemos rejeitá-las como desprovidas de qualquer significação.
Mais que falar da teoria da conspiração, poderíamos em vez disso tentar elaborar
uma poética da conspiração. Uma conspiração seria tratada como um constructo
estético, ou constructo de linguagem, e poderia ser analisada como um texto.
Robert Anton Wilson fez isso com sua longa e divertida fantasia “Illuminatti”.
Podemos também usar a teoria da conspiração como uma arma de agit-prop.
Conspirações do “poder” fazem uso da pura desinformação; o mínimo que podemos
fazer em retaliação é rastreá-la até sua origem. Sem dúvida deveríamos
evitar a mística da teoria da conspiração, a ilusão de que a conspiração
é todo-poderosa. Conspirações podem ser dinamitadas. Elas podem até mesmo
ser impedidas. Mas temo que elas não possam simplesmente ser ignoradas.
A recusa em admitir qualquer validez à teoria da conspiração é ela mesma
uma forma de ilusão espetacular – crença cega no mundo cor-de-rosa liberal,
racional, no qual todos temos “direitos”, no qual “o sistema funciona”,
no qual “valores democráticos prevalecerão a longo
prazo” por que a natureza assim o determinou.
A História é uma grande bagunça. Talvez conspirações não funcionem. Mas temos
de agir como se elas realmente funcionassem. Na realidade, o movimento
não-autoritário não somente necessita de sua própria teoria da conspiração,
ele necessita de suas próprias conspirações. “Funcionem” elas ou não. Ou
respiramos juntos ou nos sufocamos todos por iniciativa própria. “Eles”
estão conspirando, nunca duvide disso, esses palhaços sinistros. Não apenas
deveríamos nos armar com a teoria da conspiração, deveríamos ter nossas
próprias conspirações – nossas TAZ – nosso comando de mercenários da guerrilha
ontológica – nossos Terroristas Poéticos – nossas maquinações do caos –
nossas sociedades secretas. Proudhon assim o disse. Bakunin assim o disse.
Malatesta assim o disse. É a tradição anarquista.
POR UM CONGRESSO DE RELIGIÕES ESQUISITAS - por Hakim Bey
Nós aprendemos a desconfiar do verbo ser, da palavra é -- digamos assim:
notem a impressionante semelhança entre o conceito de SATORI e o conceito
de REVOLUÇÃO DA VIDA COTIDIANA -- em ambos os casos: a percepção do "ordinário" com
conseqüências extraordinárias para consciência e ação. Não podemos usar
a frase "é como" porque ambos os conceitos (como todos os conceitos, todas as palavras para esta
matéria) vêm encrustadas de acréscimos -- cada um sobrecarregado com toda
sua bagagem psico-cultural, como convidados que chegam suspeitamente bem
supridos demais para o fim de semana.
Então, permitam-me o velho uso Beat-Zen do satori, enquanto simultaneamente enfatizando -- no caso do slogan Situacionista -- que uma das raízes de sua dialética pode ser traçada até a noção dadaísta e surrealista do "maravilhoso" irrompendo de (ou dentro de ) uma vida que apenas parece sufocada pelo banal, pelas misérias da abstração e alienação. Eu defino meus termos fazendo-os mais vagos, precisamente a fim de evitar as ortodoxias do Budismo e do Situacionismo, para evitar suas armadilhas ideológico-semânticas -- aquelas máquinas quebradas de linguagem! Ao invés disso, proponho que os devastemos por partes, um ato de bricolage cultural. "Revolução" significa apenas outra volta da manivela -- enquanto a ortodoxia religiosa de qualquer tipo leva logicamente a um autêntico governo de manivelas. Não vamos idolatrar o satori imaginando que seja monopólio de monges místicos, ou como contingente a qualquer código moral; e melhor que fetichizar o Esquerdismo de 68, nós preferimos o termo de Stirner "insurreição" ou "levante", o qual escapa das implicações embutidas de uma reles mudança de autoridade.
Esta constelação de conceitos envolve "quebrar regras" de percepção ordenada para chegar à experiência direta, de alguma forma análoga ao processo pelo qual o caos espontaneamente resolve-se em ordens fractais não-lineares, ou a forma em que energia criativa "selvagem" resolve-se como brincadeira e poesia. "Ordem espontânea" saída do "caos", por sua vez, evoca o Taoísmo anarquista de Chuang Tzu. O zen pode ser acusado de falta de consciência das implicações "revolucionárias" do satori, enquanto que os Situacionistas podem ser criticados por ignorar uma certa "espiritualidade" inerente à auto-realização e sociabilidade que suas causas exigem. Idenficando o satori com a revolução da vida cotidiana, estamos desempenhando um pouco de casamento de espingarda tão memorável quanto o famoso encontro surrealista entre um guarda-chuva e uma máquina de costura, ou o que quer que fosse. Miscigenação. A mistura de raças defendida por Nietzsche, que era atraído, sem dúvida, pelo erotismo mestiço.
Estou tentado a descrever a forma pela qual o satori "é" como a revolução da vida cotidiana -- mas não posso. Ou, para colocar de outra forma: quase tudo que escrevo gira em torno deste tema; eu teria de repetir quase tudo a fim de elucidar este único ponto. Ao invés disso, como um apêndice, ofereço mais uma curiosa coincidência ou interpenetração de 2 termos, um do Situacionismo, de novo, e outro, desta vez, do sufismo. A dérive ou "vagar" foi concebida como um exercício para deliberadamente revolucionar a vida cotidiana -- um tipo de perambulação a esmo pelas ruas da cidade, um nomadismo urbano visionário envolvendo uma franqueza quanto à "cultura como natureza" (se eu compreendi corretamente a idéia) -- pelo qual sua absoluta duração inculca nos perambuladores uma propensão para experimentar o maravilhoso; nem sempre em sua forma benéfica, talvez, mas confiantemente sempre produtiva de compreensão -- seja através da arquitetura, do erótico, da aventura, das bebidas e drogas, do perigo, da inspiração, o que for -- em direção à intensidade da percepção e experiência não mediadas.
O termo correspondente no sufismo seria "viajar aos distantes horizontes" ou simplesmente "viajar", um exercício espiritual que combina as energias urbanas e nômades do Islã numa única trajetória, às vezes chamada "a Caravana do Verão". O dervixe promete viajar a uma certa velocidade, não passando mais do que 7 noites ou 40 noites em uma cidade, aceitando o que vier, movendo-se para onde quer que sinais e coincidências ou simplesmente caprichos possam guiá-lo, rumando de lugar de poder a lugar de poder, consciente da "geografia sagrada", do itinerário como significado, da topologia como simbologia. Aqui está outra constelação: Ibn Khaldun; On the Road ["Pé na Estrada"] (tanto o de Jack Kerouac quanto o de Jack London); a forma da novela picaresca em geral; Barão de Munchausen; wanderjahr; Marco Polo; garotos numa floresta suburbana no verão; cavaleiros arturianos buscando encrenca; viados caçando rapazes; de bar em bar com Melville, Poe, Baudelaire -- ou canoagem com Thoreau no Maine... viagem como a antítese do turismo, espaço ao invés de tempo. Projeto de arte: a construção de um "mapa" apresentando uma razão de 1:1 em relação ao "território" explorado. Projeto político: a construção de "zonas autônomas" móveis dentro de uma rede nômade invisível (igual aos Encontros do Arco-íris). Projeto espiritual: a criação ou descoberta de peregrinações nas quais o conceito de "santuário" tenha sido substituído (ou esoterizado) pelo conceito de "experiência de pico".
O que estou tentando fazer aqui (como de costume) é fornecer uma base sonora irracional, uma estranha filosofia, se você preferir, para o que eu chamo de Religiões Livres, incluindo as correntes Psicodélica e Discordianista, neo-paganismo não-hierárquico, heresias antinomianas, caos e Magia do Kaos, Vodu revolucionário, cristãos anarquistas e "sem igreja", Judaísmo Mágico, a Igreja Ortodoxa Moura, a Igreja do SubGênio, as Fadas, Taoístas radicais, místicos da cerveja, povo da Erva, etc, etc.
Ao contrário das expectativas dos radicais do século XIX, a religião não desapareceu -- talvez estivéssemos melhor se tivesse desaparecido -- mas ao invés disso aumentou seu poder, semelhante em proporção ao crescimento global no reino da tecnolgia e do controle racional. Tanto o fundamentalismo quanto a Nova Era obtêm alguma força da profunda e disseminada insatisfação com o Sistema que trabalha contra toda percepção da maravilha da vida cotidiana -- pode chamar de Babilônia ou o Espetáculo, Capital ou Império, Sociedade da Simulação ou do mecanismo desalmado -- como quiser. Mas essas duas forças religiosas desviam o próprio desejo pelo autêntico em direção a novas abstrações esmagadoras e opressivas (moralidade no caso do fundamentalismo, mercantilização no caso da Nova Era) e por esta razão podem ser muito apropriadamente chamadas de "reacionárias".
Assim como radicais culturais procurarão se infiltrar e subverter a mídia popular e assim como radicais políticos desempenharão funções similares nas esferas do Trabalho, Família e outras organizações sociais, também existe uma necessidade de que radicais penetrem a própria instituição da religião, ao invés de meramente continuar a proferir chavões do século XIX sobre materialismo ateu. Vai acontecer de qualquer forma -- melhor chegarmos a isto com consciência, com encanto e estilo.
Tendo certa vez vivido perto do Quartel-general do Conselho Mundial de Igrejas, eu gosto da possibilidade de uma versão paródica das Igrejas Livres -- a paródia sendo uma das nossas principais estratégias (ou chame de detournement ou desconstrução ou destruição criativa) -- uma espécie de rede frouxa (não gosto desta palavra; vamos chamar de "teia de aranha") de cultos esquisitos e indivíduos fornecendo palestras e serviços uns aos outros, de onde pode começar a emergir uma direção ou tendência ou "corrente" (em termos mágicos) forte o suficiente para descarregar uma devastação psíquica nos Fundamentalistas e nos adeptos da Nova Era, mesmo nos aiatolás e no Papado, jovial o bastante para discordarmos uns dos outros e ainda assim darmos grandes festas -- ou conclaves, ou conselhos ecumênicos, ou Congressos Mundiais -- os quais antecipamos com alegria.
As Religiões Livres podem oferecer algumas das únicas alternativas espirituais possíveis em relação às tropas de assalto dos televangelistas e palermas manipuladores de cristais (sem falar das religiões estabelecidas), e desta maneira se tornarão mais e mais importantes, mais e mais vitais em um futuro onde a demanda pela erupção do maravilhoso dentro do comum se tornará a mais retumbante, pungente e tumultuosa de todas as demandas políticas -- um futuro que começará (espere, deixe eu ver meu relógio)... 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1... AGORA.
"
FOMOS PARA CROATÃ"
NÃO QUEREMOS DEFINIR a TAZ ou elaborar dogmas sobre
como ela deve ser criada. O nosso argumento é que ela foi criada, será
criada e está sendo criada. Portanto, será mais proveitoso e mais interessante
olharmos para algumas TAZ passadas e presentes, e especular sobre
manifestações futuras. Evocando alguns protótipos podemos vir a ser
capazes de avaliar o escopo potencial deste complexo, e talvez até mesmo
vislumbrar um "arquétipo".
Em vez de tentar qualquer tipo de
enciclopedismo, adotaremos uma técnica franco-atiradora, um mosaico de
vislumbres, começando de forma arbitrária com os séculos XVI/XVII e o
estabelecimento do Novo Mundo.
A abertura do "novo" mundo foi
concebida desde o principio
como uma operação ocultista. O mago John Dee, consultor espiritual da
rainha Elizabeth I, parece ter inventado o conceito de "imperialismo
mágico" e infectado toda uma geração com ele. Halkyut
e Raleigh caíram
sob seu feitiço e Raleigh usou suas conexões na "Escola
da Noite" - uma
ordem secreta de pensadores de vanguarda, aristocratas e iniciados - para
incentivar as causas da exploração, colonização e mapeamento. A Tempestade
foi uma peça de propaganda para esta nova ideologia, e a
colônia Roanoke7 seu primeiro experimento.
A visão alquímica do Novo Mundo o associou com matéria- prima ou hyle (o
nada), o "estado
da Natureza", inocência e possibilidade
total ("Virgínia"), um caos ou
essencialidade que o iniciado transmutaria em
"
ouro", isto é, em perfeição espiritual assim como em
abundância material.
Mas essa visão alquímica é, em parte, também, gerada por uma
real fascinação pelo incipiente, uma secreta simpatia por ele, um sentimento
de ternura por sua forma sem forma, que tomou como símbolo para seu foco
o "Índio": o "Homem" em
seu estado natural, ainda não corrompido por
nenhum "governo". Caliban, o Homem
Selvagem, é instalado como um
vírus dentro da própria máquina do Imperialismo Oculto.
Florestas/animais/seres humanos são investidos desde o início com o poder
mágico do marginal, do desprezado e do proscrito. Se, por um lado, Caliban
é feio e a natureza é uma "imensa
selvageria", por outro, Caliban é nobre e
livre e a Natureza é um Éden. Essa divisão na consciência europeia antecede
a dicotomia romântica/clássica. Está enraizada na Alta Magia da
Renascença. A descoberta da América (o Eldorado, a fonte da juventude) a
cristalizou, e sua precipitação aconteceu na forma de esquemas reais de
colonização.
Na escola primária nos ensinam que a primeira tentativa de
colonização em Roanoke fracassou, que os colonizadores desapareceram,
deixando para trás apenas a mensagem críptica: "Fomos
para Croatã". Mais
tarde, relatos de "índios de olhos cinzentos" foram
descartados como lenda.
De acordo com os livros escolares, o que aconteceu foi que os índios
massacraram os colonos indefesos. No entanto, "Croatã" não
era nenhum
Eldorado, era o nome de uma tribo local de índios amigáveis.
Aparentemente, o povoado simplesmente mudou-se do litoral para a região
do Grande Pântano Sombrio e foi absorvido pela tribo. E os índios de olhos
cinzentos eram reais - eles ainda estão lá, e ainda se conhecem por Croatãs.
Então - a primeira colônia do Novo Mundo resolveu renunciar ao
seu contrato com Próspero (Dee/Raleigh/o Império) e se uniu aos Homens
Selvagens como Caliban. Eles deserdaram. Eles se tornaram "índios",
viraram nativos, optaram pelo caos em detrimento dos atrozes sofrimentos
de servir aos plutocratas e intelectuais de Londres. À medida que os Estados
Unidos surgiam onde antes havia sido
a "Ilha da Tartaruga", Croatã
permanecia embutida em seu inconsciente
coletivo. Além da fronteira, o estado da Natureza (i.e., sem Estado) ainda
prevalecia, e dentro da consciência dos colonizadores a opção pelo estado
selvagem sempre esteve à espreita, a tentação de abandonar a Igreja, o
trabalho no campo, a alfabetização e os impostos - todos os fardos da
civilização - e, de um jeito ou de outro, "ir
para Croatã". Ademais, como a
revolução na Inglaterra foi traída, primeiro por Cromwell e depois pela
Restauração, levas de protestantes radicais fugiram ou foram transportados
para o Novo Mundo (que se tornou uma prisão, um lugar de exílio).
Antinomianos8, familistas, quakers patifes, levellers9, diggers10 e ranters11
foram então apresentados à sombra oculta do estado selvagem, e
apressaram-se em abraçá-lo.
Anne Hutchinson e seus amigos foram apenas os mais
conhecidos (ou seja, pertenciam à classe alta) entre os antinomianos - tendo
tido a má sorte de se envolverem nas questões políticas da colônia - mas
uma facção muito mais radical do movimento sem dúvida existiu. Os
incidentes que Hawthorne narra em "The
Maypole of Merry Mount" (O
Mastro da Primavera do Monte Alegre) são totalmente históricos:
aparentemente os extremistas haviam decidido renunciar totalmente ao
cristianismo e adotar o paganismo. Se tivessem conseguido êxito em se unir
aos seus aliados indígenas, o resultado poderia ter sido uma religião
sincrética com elementos antinomianos, celtas e algonquinos12, uma espécie
de Santería norte-americana do século XVII.
As seitas puderam prosperar melhor sob as administrações
menos rígidas e mais corruptas do Caribe, onde os interesses dos rivais
europeus tinham deixado muitas ilhas desertas ou mesmo não-reclamadas.
Especialmente as ilhas de Barbados e Jamaica parecem ter sido colonizadas
por um grande número de extremistas, e acredito que influências igualitárias
e ranterianas contribuíram para a "utopia" dos
bucaneiros em Tortuga. Neste
ponto, pela primeira vez, graças a Esquemelin, podemos estudar com
alguma profundidade uma bem-sucedida proto-TAZ do Mundo Novo.
Fugindo dos horríveis "benefícios" do
imperialismo, como a escravidão, o
servilismo, o racismo e a intolerância, das torturas do recrutamento
compulsório e da morte em vida nas plantações, os bucaneiros adotaram os
costumes dos índios, casaram-se com Caraíbas, aceitaram negros e
espanhóis como seus iguais, rejeitaram toda nacionalidade, elegeram seus
capitães democraticamente e se voltaram para o "estado
da Natureza".
Declarando-se "em guerra contra o mundo todo",
eles navegaram os mares
saqueando sob contratos mútuos chamados "Artigos",
que eram tão
igualitários que cada membro recebia uma parte integral e o capitão
geralmente apenas 1 1/4 ou l 1/2. O uso de açoites e outros tipos de punição
eram proibidos - desentendimentos eram resolvidos por voto ou por duelo
regulamentado.
Simplesmente não é correio rotular os piratas de meros ladrões
de alto-mar ou mesmo de proto-capitalistas, como alguns historiadores tem
feito. De certo modo, eles foram "bandidos
sociais", embora a base de suas
comunidades não se constituíssem como sociedades rurais tradicionais e
eram, de fato, "utopias" criadas
quase que ex nihilo in terra incógnita,
enclaves da total liberdade ocupando espaços vazios do mapa. Depois da
queda de Tortuga, o ideal dos bucaneiros permaneceu vivo durante toda a
"
Idade de Ouro" da pirataria (c. de 1660 a 1720),
e resultou em colônias
continentais em Belize, por exemplo, fundadas pelos próprios bucaneiros.
Com a mudança de cenário para Madagascar - uma ilha ainda nãoreclamada
por nenhum poder imperial e governada apenas por uma
miscelânea de reis nativos (chefes), ávidos por aliados piratas -, a utopia
pirata atingiu sua forma mais elevada.
A narrativa de Defoe sobre capitão Mission e a fundação de
Libertatia pode ser, como alguns historiadores proclamam, uma peça
literária criada para fazer propaganda para a teoria radical dos membros
do
Whig - mas está inserida em The General History of the Pyrates (A História
Geral dos Piratas), que em grande parte ainda é aceita como verdadeira e
acurada. Além disso, a história do capitão Mission não foi criticada quando
o livro apareceu, e muitos dos antigos marujos de Madagascar ainda
estavam vivos. Eles pareciam ter acreditado nela, sem dúvida porque
haviam experimentado enclaves piratas muito parecidos com a de Libertatia.
Mais uma vez, escravos libertos, nativos e mesmo inimigos tradicionais
como os portugueses eram convidados para se juntar a eles como iguais.
(Libertar navios negreiros era uma de suas prioridades.) A propriedade da
terra era comunitária, os representantes eram eleitos por períodos curtos,
os
saques eram repartidos. As doutrinas de liberdade pregadas eram ainda mais
radicais do que aquelas do Common Sense13.
Libertatia esperava durar e Mission morreu em sua defesa. Mas a
maioria das utopias piratas foram criadas para serem temporárias. As
verdadeiras "repúblicas" dos
corsários eram seus navios, que navegavam
sob o código dos Artigos. Os enclaves costeiros geralmente não tinham lei
alguma. O último exemplo clássico, Nassau, nas Bahamas, uma estação
balnearia com barracas e tendas devotadas ao vinho, mulheres (e
provavelmente garotos também, a julgar por Sodomy and Piracy - Sodomia
e Pirataria - de Birge), canções (os piratas eram grandes amantes da música
e costumavam contratar bandas por cruzeiros inteiros) e todos os tipos de
excessos, desapareceu da noite para o dia quando a frota britânica apareceu
na baía. Blackbeard e "Calico Jack" Rackham
e sua tripulação de mulheres
piratas moveram-se para costas mais selvagens e destinos mais cruéis,
enquanto outros humildemente aceitaram o Perdão e se regeneraram. Mas a
tradição bucaneira perdurou, tanto em Madagascar, onde os filhos mestiços
dos piratas começaram a construir seus próprios reinos, quanto no Caribe,
onde escravos fugidos e grupos mestiços de negros, brancos e índios
conseguiram prosperar nas montanhas e no campo como maroons. A
comunidade maroon da Jamaica ainda retinha um certo grau de autonomia e
muitos dos antigos hábitos persistiam quando Zora Neale Hurston visitou a
região nos anos 20 (veja o livro Tell my Horse - Diga ao meu Cavalo). Os
maroons de Suriname ainda praticam o "paganismo" africano.
Através de todo o século XVIII, a América do Norte também
produziu um certo número de "comunidades
isoladas tri-raciais" (este termo
que soa clínico foi inventado pelo movimento eugenista, que produziu os
primeiros estudos científicos sobre essas comunidades. Infelizmente, a
"
ciência" serviu como uma justificativa para o ódio
racial pelos "híbridos" e
pelos pobres, e a "solução para o problema" geralmente
era a esterilização
forçada). Esses núcleos invariavelmente eram formados por servos e
escravos fugidos, "criminosos" (isto
é, muito pobres), "prostitutas" (isto é,
mulheres brancas que se casaram com não-brancos) e membros das várias
tribos nativas. Em alguns casos, como o dos seminoles e cherokees, a
estrutura tribal tradicional absorvia os recém-chegados; em outros, novas
tribos eram formadas. Dessa forma, nós temos os maroons do Grande
Pântano Sombrio, que persistiram através dos séculos XVIII e XIX,
adotando escravos fugitivos, funcionando como parada no caminho secreto
para a liberdade e servindo como um centro ideológico e religioso para as
rebeliões de escravos. A religião era o vodu, uma mistura de elementos
africanos, nativos e cristãos e, de acordo com o historiador H. Leaming-Bey,
os mais velhos da seita e os líderes dos maroons do Grande Pântano eram
conhecidos como "os Sete Dedos do Alto Resplendor".
Os ramapaughs do norte de Nova Jersey (incorretamente
chamados de "Jackson Whites")
apresentam outra genealogia romântica e
arquetípica: escravos libertos dos poltrões holandeses, vários clãs dos índios
de Delaware e algonquinos, as usuais "prostitutas",
os "hessianos" (uma
palavra de efeito para denominar os mercenários ingleses perdidos,
legalistas desertores etc.) e bandos locais de bandidos sociais, como o de
Claudius Smith.
Alguns dos grupos, como os mouros de Delaware e os benismaelitas,
que migraram de Kentucky para Ohio em meados do século
XVIII, declaram ter origens afro-islâmicas. Os ismaelitas praticavam a
poligamia, jamais ingeriam bebidas alcoólicas, viviam como menestréis,
casavam-se com índios e adotavam seus costumes, e eram tão devotados ao
nomadismo que construíam suas casas sobre rodas. Sua migração anual
percorria um triângulo que incluía cidades fronteiriças com nomes como
Meca e Medina. No século XIX, alguns desses grupos abraçaram ideais
anarquistas e foram alvo de um programa de extermínio particularmente
perverso concebido pelos eugenistas. Algumas das primeiras leis eugênicas
foram aprovadas em sua "honra".
Como tribo, eles "desapareceram" nos
anos 20, mas provavelmente engordaram as fileiras das primeiras seitas
"
afro-islâmicas", como o Templo da Ciência Islâmica.
Eu mesmo cresci ouvindo as lendas sobre os "kallikaks" da
região de Pine Barrens em Nova Jersey (e, é claro, as histórias de Lovecraft,
um racista enfurecido que era fascinado por comunidades isoladas). A lenda
acabou por tornar-se parte da memória popular gerada pelas calúnias dos
eugenistas, cuja sede ficava em Vineland, Nova Jersey, e que empreenderam
as suas usuais "reformas" contra
a "miscigenação" e a "debilidade mental"
na região de Pine Barrens (incluindo a publicação de fotografias dos
kallikaks, cruel e descaradamente retocadas para fazê-los parecer monstros
degenerados).
As "comunidades isoladas" -
ao menos aquelas que mantiveram
sua identidade até o século XX - sistematicamente recusavam-se a ser
absorvidas tanto pela cultura dominante quanto pela "sub-cultura" negra
na
qual os sociólogos modernos preferem incluílas. Nos anos 70, inspirados
pela renascença dos índios americanos, alguns grupos - incluindo os mouros
e os ramapaughs - inscreveram-se no Departamento dos Negócios Indígenas
para serem reconhecidos como tribos indígenas. Eles receberam o apoio dos
ativistas, mas o status oficial foi-lhes negado. Se tivessem ganho, afinal,
poderiam ter aberto um perigoso precedente para desertores de todos os
tipos, desde consumidores de peiote a hippies e nacionalistas negros,
arianos, anarquistas e libertários - uma "reserva" para
todos! O "projeto
europeu" não pode reconhecer a existência do Homem
Selvagem - o caos
verde é ainda uma ameaça muito grande para o sonho imperial de ordem.
Essencialmente, os mouros e os ramapaughs rejeitaram a
explicação histórica ou "diacrônica" de
suas origens em favor de uma autoidentidade
"
sincrônica" baseada no "mito" de
uma adoção indígena. Ou, em
outras palavras, eles se autonomearam " índios".
Se todo mundo que
quisesse "ser um índio" pudesse
consegui-lo através de um ato de
autonomeação, imagine a retirada em massa para Croatã que aconteceria!
Aquela antiga sombra oculta ainda assombra a área remanescente de nossas
florestas (que, aliás, tem crescido significativamente no nordeste desde
os
séculos XVIII e XIX, à medida que vastas extensões de terras produtivas
são abandonadas. Thoreau, em seu leito de morte, sonhou com o retorno de
"
...indígenas... florestas...":
o retorno dos reprimidos). É claro que os mouros e os ramapaughs possuem
razões
concretas para pensar em si mesmos como índios - afinal, têm de fato
ancestrais índios - mas, se analisarmos sua autonomeação tanto em termos
"
míticos" quanto em termos históricos, aprenderemos
algo de relevância
para nossa busca da TAZ. Em sociedades tribais existe o que alguns
antropólogos chamam de mannenbunden: sociedades totêmicas voltadas a
uma identidade com a "Natureza" através
de um ato de transmutação de
formas, de se transformarem no animal-totem (lobisomens, pajés-onça,
homens-leopardo, feiticeiras-gato etc.). No contexto de uma sociedade
colonial (como Taussig aponta em seu Shamanism, Colonialism and the Wild
Man - Xamanismo, Colonialismo e o Homem Selvagem), o poder da
transformação é percebido como algo inerente à cultura nativa como um
todo. Dessa forma, a camada mais reprimida da sociedade adquire um poder
paradoxal através do mito de seu conhecimento oculto, que é temido e
desejado pelo colonizador. É claro que os nativos realmente possuem um
certo conhecimento oculto. Mas em resposta a essa percepção imperial de
sua cultura como uma espécie de "espiritismo
selvagem", os nativos
começam a se enxergar neste papel de forma cada vez mais consciente.
Durante o próprio processo de se tornarem marginalizados, a margem
assume uma aura mágica. Antes do homem branco, eles eram simplesmente
tribos formadas por pessoas - agora, eles são "guardiões
da natureza",
habitantes do "estado da Natureza".
Finalmente, o próprio colonizador é
seduzido por esse "mito".
Sempre que um americano deseja largar tudo ou
voltar para a natureza, invariavelmente ele "se
torna um índio". Os
democratas radicais de Massachusetts (descendentes espirituais dos
protestantes radicais), que organizaram o Tea Party, e que literalmente
acreditavam que governos podiam ser abolidos (toda a região de Berkshire
declarou-se um "estado da Natureza"!),
disfarçaram-se de "moicanos".
Assim, colonizadores que de súbito se encontravam marginalizados por sua
pátria-mãe adotaram a representação de nativos marginalizados, procurando
portanto (num certo sentido) compartilhar de seu poder oculto, de sua
radiância mítica. Dos "homens das montanhas" aos
escoteiros-mirins, o
sonho de "se tornar um índio" flui
sob uma miríade de expressões da
história, cultura e consciência norte-americana.
O imaginário sexual associado aos grupos "tri-raciais" também
sustenta essa ideia. Os "nativos",
é claro, são sempre imorais, mas os
renegados raciais e os desertores devem ser completamente polimorfosperversos.
Os bucaneiros eram sodomitas, os maroons e os homens das
montanhas eram miscigenistas, os kallikaks praticavam a fornicação e o
incesto (o que originava mutações tais como a polidactilia), as crianças
corriam nuas e se masturbavam abertamente etc. etc. O retorno a um "estado
natural" paradoxalmente parece permitir a prática
de todo tipo de ato
"
Antinatural"; ou pelo menos assim pareceria se
fossemos acreditar nos
puritanos e eugenistas. E já que grande parte das pessoas que vivem em
sociedades racistas e moralmente repressoras secretamente desejam
exatamente esses atos licenciosos, elas os projetam sobre os marginalizados,
e assim convencem a si mesmos que permanecem civilizadas e puras. E
realmente algumas comunidades marginalizadas rejeitaram a moralidade
consensual - os piratas certamente o fizeram! - e sem dúvida realizaram
alguns dos desejos reprimidos da civilização. (Você não faria o mesmo?)
Tornar-se "selvagem" é sempre
um ato erótico, um ato de desnudamento.
Antes de deixar o assunto dos "tri-raciais
isolados", eu gostaria
de relembrar o entusiasmo de Nietzsche pela "mistura
das raças".
Impressionado pela beleza e vigor de culturas híbridas, ele enxergou na
miscigenação não só uma solução para o problema da raça, mas também o
princípio para uma nova humanidade, livre dos preconceitos étnicos e
nacionalistas - um precursor do "nômade
psíquico", talvez. O sonho de
Nietzsche ainda parece tão remoto agora como o parecia para ele. O
chauvinismo mantém seu domínio. Culturas mestiças permanecem
submersas. Mas as zonas autônomas dos bucaneiros e dos maroons,
ismaelitas e mouros, ramapaughs e kallikaks permanecem, ou suas histórias
permanecem, como indicações do que Nietzsche poderia ter chamado de
"
Ânsia de Poder como Desaparecimento".
Devemos voltar a este tema.
Notas:
1. Controversa organização política direitista de Washington, DC, conhecida
como anti-comunista e anti-semita, e que através de seu jornal Spotlight
lançou uma campanha contra o agente da CIA E. Howard Hunt, acusando-o de
conspirador no assassinato de J. F. Kennedy. (Nota do Tradutor)
2. Organização de ultradireita criada em 1958 em Indianápolis em homenagem
a um agente da CIA e também missionário protestante. (N. do T.)
3. Conta a lenda que o CFR (Council on Foreign Relations), o Conselho de
Relações Exteriores, é o braço americano de uma sociedade ultra-secreta
originalmente organizada na Inglaterra, com os planos de instruir e governar
todas as fases da política externa americana, e o objetivo final de dissolver
as fronteiras mundiais e estabelecer um governo mundial único. Do CFR teriam
participado quase todos os diretores da CIA e todos os secretários da Defesa
dos EUA. Os Bilderberg seriam uma poderosíssima e semi-secreta sociedade
da elite internacional que se reúne anualmente para definir os programas
econômicos e políticos mundiais, com representantes somente do mundo anglo-saxão
e da Europa ocidental. David Rockefeller, por sua vez, teria sido patrono
do CFR, membro dos Bilderberg e criador da denominada Comissão Trilateral,
outra dessas sociedades secretas da elite mundial que incluiria aqui membros
do Japão. Teorias conspiratórias “clássicas” ligam essas três organizações
ao grupo dos Illuminati, numa trama de dominação
mundial. (N. do T.)
4. O anticapitalismo de direita se traduz, entre outras coisas, pela nostalgia aristocrática de um passado pré-industrial por certos grupos ultradireitistas, como, por exemplo, a TFP no Brasil, ou certos grupos monarquistas. (N. Do T.)
5. Editora underground de Los Angeles, célebre nos meios contraculturais
por publicar os Amok Dispatches, verdadeiras fontes bibliográficas de todo
tipo de material subterrâneo, conspiratório, transgressor, banido. (N.
do T.)
6. Banda gótico-eletrônica de tendência satanista formada por Nickolas Schreck e Zeena LaVey, filha de Anton LaVey, fundador da Igreja de Satã.(N. do T.)
7. Mae Magnin Russel é tida como a “rainha das teorias da conspiração”. Ela acreditava, por exemplo, que os assassinatos de Kennedy e de Martin Luther King, os assassinatos perpertrados por Charles Manson e seu grupo, e o sequestro de Patty Hearst tinham todos sido planejados pela extrema direita juntamente com a CIA, o FBI e a Máfia numa massiva conspiração feita para desacreditar a esquerda e estabelecer um estado fascista. (N. do T.)
8. Cliometrics ou “história social-científica quantitativa” designa uma técnica
de análise histórica fundada na quantificação de dados empíricos. Seus
defensores mais radicais consideram-na o método científico por excelência
da análise histórica.
9. Organização de inteligência baseada na Alemanha, a Gehlen Org seria composta de antigos agentes da SS e da Gestapo - incluindo, entre outros, Klaus Barbie -, tendo sido fundada, na Alemanha do pós-guerra, com a ajuda do advogado dos Rockfeller, Allen Dulles, que teria contratado o espião alemão Reinhart Gehlen para reviver a agência de espionagem SS e se tornaria depois a agência espiã BND da Alemanha Ocidental. Na verdade, a CIA teria sido formada a partir da Gehlen. (N. do T.)
10. S & L (Savings and Loans) - No final da década de 80 e início da de 90, as “poupanças e empréstimos” norte-americanos faliram. Em 1984, a administração e o Congresso dos EUA acreditavam que a crise das poupanças e depósitos era em torno de 20 a 30 milhões de dólares. Operadores do setor então inundaram Washington com lobistas, contribuições para campanhas, e viagens gratuitas de avião para recantos paradisíacos, entre outros agrados. Como resultado, o problema foi varrido para debaixo do tapete. Ele só voltou a aparecer nas eleições presidenciais de 1988, quando se descobriu uma crise que alcançava entre 400 e 500 bilhões de dólares. (N. do T.)
10. Na teoria do caos, atratores estranhos são sistemas dinâmicos atraentes e magnéticos que quando entram em estado de caos passam a ser designados como tais. Em 1970, físicos passaram a estudar os sistemas dinâmicos do imprevisível, denominando-os de atratores estranhos, expressão usada por David Ruelle e Floris Takens. Pelo fato dos atratores não serem nem curvas e nem superfícies lisas, mas objetos de dimensões não inteiras, Benoît Mandelbrot denominou-os de fractais. (N. do T.)
ir para a 3ª parte.
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