A MÚSICA COMO UM PRINCÍPIO ORGANIZACIONAL
POR ORA, NO ENTANTO, voltemos para a história do
anarquismo clássico à luz do conceito da TAZ.
Antes do "fechamento do mapa",
uma boa quantidade de energia
anti-autoritária foi gasta em comunas "escapistas" tais
como a Modern
Times, os vários falanstérios, e assim por diante. De maneira interessante,
algumas delas não pretendiam durar "para
sempre", mas apenas enquanto o
projeto provasse ser eficaz. Para padrões socialistas/utópicos, esses
experimentos foram "fracassos" e,
portanto, sabemos muito pouco sobre
eles.
Quando a fuga para além das fronteiras provou-se impossível,
começou a era das comunas revolucionárias urbanas na Europa. As comunas
de Paris, Lion e Marselha não sobreviveram o suficiente para criar qualquer
característica de permanência, e nos perguntamos se elas foram de fato
criadas para serem permanentes. Do nosso ponto de vista, o principal
elemento de fascínio é o espírito das comunas. Durante e depois destes
anos, os anarquistas adquiriram a prática do nomadismo revolucionário,
perambulando de revolta em revolta, procurando manter viva em si mesmos
a intensidade do espírito que eles experimentaram no momento do levante.
Na verdade, certos anarquistas da estirpe stirneriana/nietzscheana
encontraram nessa atividade um fim em si mesmo, um modo de sempre ocupar
uma zona autônoma, a zona intermediária que se abre no meio ou no
despertar de uma guerra ou revolução (cf. a "zona" de
Pynchon em Arco-Íris da Gravidade). Eles declararam que se alguma revolução
socialista tivesse êxito, eles seriam os primeiros a se voltar contra ela.
Não tinham nenhuma
intenção de parar antes de alcançar o anarquismo universal. Em 1917, na
Rússia, eles saudaram os sovietes livres com alegria: esta era a sua meta.
Mas assim que os bolcheviques traíram a revolução, os anarcoindividualistas
foram os primeiros a voltar para as trincheiras. Lógico,
depois de Kronstadt14, todos os anarquistas condenaram a "União
Soviética"
(uma contradição em termos) e seguiram em busca de novas insurreições.
A Ucrânia de Makhno e a Espanha anarquista foram criadas para
terem duração e, apesar das exigências de guerras contínuas, ambas foram
relativamente bem-sucedidas: não duraram muito tempo, mas eram bem
organizadas e poderiam ter durado se não fosse pela agressão externa que
sofreram. Por isso, dentre os experimentos do período entre-guerras eu me
concentrarei na impulsiva República de Fiume, que é menos conhecida e não
foi criada para durar.
Gabriele D’Annunzio, poeta decadente, artista, músico, esteta,
mulherengo, doidivanas aeronauta pioneiro, bruxo negro, gênio e maleducado,
emergiu da Primeira Guerra Mundial como herói e com um
pequeno exército à sua disposição e comando: os arditi. Ávido por aventura,
ele decidiu capturar a cidade de Fiume, na Iugoslávia, e entregá-la para
a
Itália. Depois de uma cerimônia necromântica com sua amante num
cemitério de Veneza, ele partiu para a conquista de Fiume, e foi bemsucedido
sem nenhum problema digno de ser mencionado. Porém a Itália
recusou sua oferta generosa. O primeiro-ministro chamou-o de idiota.
Ofendido, D’Annunzio decidiu declarar independência e ver por
quanto tempo conseguiria mante-la. Ele e um de seus amigos anarquistas
escreveram a Constituição, que instituía a música como o principio central
do Estado. A Marinha (composta por desertores e sindicalistas anarquistas
dos estaleiros de Milão) se autonomeou Uscochi, em homenagem aos
antigos piratas que em tempos passados viviam nas ilhas da região e
saqueavam os navios venezianos e otomanos. Os modernos uscochi foram
bem-sucedidos em alguns de seus golpes malucos: vários polpudos navios
mercantes italianos de repente deram à República um futuro: dinheiro em
seus cofres! Artistas, boêmios, aventureiros, anarquistas (D’Annunzio se
correspondia com Malatesta), fugitivos e refugiados sem pátria,
homossexuais, dândis militares (o uniforme era preto com a caveira e os
ossos cruzados dos piratas - depois roubado pela SS) e excêntricos
reformadores de toda espécie (incluindo budistas, teosofístas e seguidores
do vedanta) começaram a aparecer em Fiume aos bandos. A festa não
acabava nunca. Toda manhã, do seu balcão, D’Annunzio lia poesia e
manifestos; toda noite havia um concerto, seguido por fogos de artifício.
Nisso se resumia toda a atividade do governo. Dezoito meses mais tarde,
quando o vinho e o dinheiro haviam terminado e a frota italiana finalmente
apareceu e arremessou alguns projéteis contra o Palácio Municipal, ninguém
tinha energia para resistir.
D’Annunzio, como muitos anarquistas italianos, voltou-se mais
tarde para o fascismo - na verdade, o próprio Mussolini (o ex-socialista)
seduziu o poeta para este caminho. Quando o poeta percebeu o seu erro já
era tarde: já estava muito doente e muito velho. Mas o Duce mandou matálo
de qualquer modo - foi empurrado de um balcão - e o transformou num
"
mártir". Quanto a Fiume, embora não tenha a seriedade
de uma Ucrânia ou
Barcelona liberadas, provavelmente pôde nos ensinar mais sobre certos
aspectos de nossa busca. Ela foi, de certo modo, a última das utopias piratas
(ou o único exemplo moderno), e também, talvez, algo muito próximo da
primeira TAZ moderna.
Acredito que se compararmos Fiume com a Paris revolucionária
de 1968 (e também com as insurreições urbanas da Itália dos anos 70),
assim como com as comunas contraculturais americanas e suas influências
anarco-New Left, poderíamos notar certas similaridades, tais como: a
importância da teoria estética (cf. os situacionistas) e o que poderia ser
chamado de "economia pirata",
viver bem, do excedente da super-produção
social - e até mesmo a popularidade dos uniformes militares coloridos; o
conceito de música como transformação social revolucionária; e, finalmente,
um certo ar de impermanência que compartilham, de estarem prontos para
seguir em frente, mudarem de forma, mudarem-se para outras universidades,
topos de montanhas, guetos, fábricas, "aparelhos",
fazendas abandonadas,
ou até mesmo para outros planos da realidade. Ninguém mais tentava impor
uma ditadura revolucionária, seja em Fiume, Paris ou Milibrook. Ou o
mundo mudaria, ou não. Enquanto isso, continue na estrada e viva intensamente.
O soviete de Munique (ou a "República
do Conselho") de 1919
apresentava certas características de TAZ, embora - como muitas revoluções
– suas metas declaradas não eram exatamente "temporárias".
A participação
de Gustav Landauer como ministro da Cultura, junto com Silvio Gesell
como ministro da Economia, e outros militantes contrários ao autoritarismo
e socialistas extremamente libertários, como os poetas/dramaturgos Erich
Mühsam e Ernst Toller e Ret Marut (o novelista B. Traven) emprestou ao
soviete um sabor distintamente anarquista. Landauer, que passou anos de
isolamento trabalhando em sua grande síntese de Nietzsche, Proudhon,
Kropotkin, Stirner, Meister Eckhardt, os místicos radicais e os românticos
filósofos populares, sabia desde o começo que o soviete estava condenado,
e
esperava apenas que durasse o suficiente para ser compreendido. Kurt
Eisner, o martirizado fundador do soviete, acreditava literalmente que os
poetas e a poesia deveriam formar a base da revolução. Foram feitos planos
para reservar uma grande parte da Bavária para um experimento em
comunidade e com economia anarco-socialista. Landauer redigiu propostas
para um sistema de Escola Livre e um Teatro do Povo. O apoio que o
soviete recebia era mais ou menos restrito às classes trabalhadoras mais
pobres, às vizinhanças boêmias de Munique e aos grupos como os
Wandervogel (o movimento jovem neo-romântico), os judeus radicais
(como Buber) e os expressionistas e outros marginais. Assim, os
historiadores o menosprezam denominando-o "República
dos Cafés" e
subestimam sua significância quando o comparam com a participação
marxista e espartaquista nas revoluções da Alemanha do pós-guerra.
Estrategicamente vencido pelos comunistas e assassinado por soldados
influenciados pela ocultista e fascista Sociedade Thule, Landauer merece
ser
lembrado como um santo. No entanto, até mesmo os anarquistas hoje em dia
tendem a não compreendê-lo e a condená-lo por "se
vender" a um "governo
socialista". Se o soviete tivesse durado pelo menos
um ano, nós agora
choraríamos diante da mera menção de sua beleza, mas antes mesmo que as
primeiras flores daquela primavera se murchassem, o Geist e o espírito da
poesia já estavam esmagados, e assim nós o esquecemos. Imagine o que
teria sido respirar o ar de uma cidade na qual o ministro da Cultura tivesse
acabado de declarar que as crianças na escola logo estariam memorizando
poemas de Wait Whitman. Ah, o que eu daria por uma máquina do tempo...
A ÂNSIA DE PODER COMO DESAPARECIMENTO
FOUCAULT, BAUDRILLARD, ET AL. têm discutido à exaustão vários
modos de "desaparecimento".
Aqui eu gostaria de sugerir que a TAZ é, em
certo sentido, uma tática de desaparecimento.
Quando os teóricos discursam sobre o desaparecimento do
social, eles se referem, em parte, à impossibilidade da "Revolução
Social", e
em parte à impossibilidade do "Estado" -
o abismo do poder, o fim do
discurso do poder. Neste caso, a questão anarquista deveria ser: Por que
se importar em enfrentar um "poder" que
perdeu todo o sentido e se tornou
pura Simulação? Tais confrontos resultarão apenas em perigosos e terríveis
espasmos de violência por parte dos cretinos cheios de merda na cabeça que
herdaram as chaves de todos os arsenais e prisões. (Talvez isso seja uma
grotesca interpretação americana de uma sublime e sutil teoria francogermânica.
Se for, tudo bem: quem foi que disse que a compreensão era
necessária para se usar uma ideia?)
A partir da minha interpretação, o desaparecimento parece ser
uma opção radical bastante lógica para o nosso tempo, de forma alguma um
desastre ou uma declaração de morte do projeto radical. Ao contrário da
interpretação niilista e mórbida da teoria, a minha pretende miná-la em
busca de estratégias úteis para a contínua "revolução
de todo dia": a luta que
não pode cessar mesmo com o fracasso final da revolução política ou social,
porque nada, exceto o fim do mundo, pode trazer um Fim para a vida
cotidiana, ou para as nossas aspirações pelas coisas boas, pelo Maravilhoso.
E, como disse Nietzsche, se o mundo pudesse chegar a um fim, logicamente
já o teria feito, e se não o fez é porque não pode. E assim como disse um
dos
sufis, não importa quantas taças do vinho proibido nós bebamos,
carregaremos essa sede violenta até a eternidade.
Zerzan e Black, independentemente um do outro, notaram
"
elementos de recusa" (para usar um termo
de Zerzan) que, de alguma
forma, talvez possam ser percebidos como sintomáticos de uma cultura
radical de desaparecimento, parcialmente inconsciente e parcialmente
consciente, que influencia mais pessoas do que qualquer idéia anarquista
ou
de esquerda. Esses gestos são feitos contra instituições, e nesse sentido
são
"
negativos" - mas cada gesto negativo também sugere
uma tática "positiva"
para substituir, em vez de simplesmente refutar, a instituição desprezada.
Por exemplo, o gesto negativo contra o ensino é o "analfabetismo
voluntário". Como eu não compartilho da adoração
que os liberais sentem
pela alfabetização como uma forma de melhoria social, não posso concordar
com os suspiros de desalento ouvidos por toda parte por causa desse
fenômeno: simpatizo com as crianças que se recusam a ler livros e todo o
lixo contido neles. Porém existem alternativas positivas que fazem uso da
mesma energia de desaparecimento. A educação oferecida em casa e o
aprendizado de um ofício, tanto quanto a vadiagem, resultam na ausência da
prisão escolar. Hacking é outra forma de "educação" com
certas
características de "invisibilidade".
Um gesto negativo em grande escala contra a política consiste
simplesmente em não votar. A "apatia" (ou
seja, um saudável sentimento de
tédio para com o Espetáculo desgastado) mantém mais da metade da nação
longe das eleições. O anarquismo nunca conseguiu tanto! (Nem o
anarquismo teve qualquer coisa a ver com o fracasso do último censo.)
Novamente, existem paralelos positivos: a formação de redes de conexões,
como uma alternativa para a política, é praticada em muitos níveis da
sociedade, e organizações não-hierárquicas têm conseguido bastante
popularidade mesmo fora do movimento anarquista, simplesmente porque
essas redes funcionam. (ACT UP e Earth First! são dois exemplos. Os
Alcoólicos Anônimos, estranhamente, é outro.)
A recusa do Trabalho pode tomar a forma de vadiagem,
embriaguez em serviço, sabotagem e pura falta de atenção, mas também
pode originar novos modos de rebelião: mais empregos de autônomos,
maior participação da economia "informal" e
lavoro nero, fraudes no
sistema previdenciário e outras opções criminosas, cultivo de maconha etc.
-
atividades mais ou menos invisíveis se comparadas com as táticas de
confronto tradicionais da esquerda, tal como a greve geral.
Recusa da Igreja? Bem, o "gesto
negativo" nesse caso
provavelmente consiste em... assistir televisão. Mas as alternativas positivas
incluem todo tipo de formas não-autoritárias de espiritualidade, desde o
cristianismo "sem igreja" até
o neo-paganismo. As "religiões livres", como
eu gosto de chamá-las - pequenas, autogeradas, com cultos meio sérios/meio
divertidos influenciados por correntes como o discordismo e o taoísmo
anárquico - estão sendo fundadas por toda a América marginal e oferecem
um crescente "quarto caminho" longe
das igrejas dominantes, dos fanáticos
televangelistas e do consumismo insípido do New Age. Podemos dizer
também que a principal recusa da ortodoxia consiste na construção de
"
moralidades privadas", no sentido dado
por Nietzsche: a espiritualidade dos
"
espíritos livres".
A recusa negativa do Lar é ser sem teto, o que muitos, não
querendo ser forçados ao nomadismo, consideram uma forma de
vitimização. Mas, "não ter teto" pode,
num certo sentido, ser uma virtude,
uma aventura - pelo menos é isso o que parece ao enorme movimento
internacional dos posseiros urbanos, nossos andarilhos modernos.
A recusa negativa da Família obviamente é o divórcio, ou algum
outro sintoma de "rompimento".
A alternativa positiva surge com a
percepção de que a vida pode ser mais feliz sem a família nuclear, e em
consequência disso uma centena de flores desabrocham - desde pais
solteiros a casamentos em grupo e grupos de afinidade erótica. O "projeto
europeu" trava uma grande batalha reacionária a favor
da "família" - a
miséria edipiana se esconde no coração do Controle. Existem alternativas,
mas elas devem permanecer ocultas, especialmente depois da guerra contra
o sexo nos anos 80 e 90.
O que é a recusa da Arte? O "gesto
negativo" não é encontrado
no tolo niilismo de uma "greve de
arte", ou na desmoralização de algumas
pinturas famosas, mas sim no tédio quase universal que se abate sobre a
maioria das pessoas na simples menção da palavra "arte".
Mas qual seria o
"
gesto positivo"? Seria possível imaginar uma
estética que não se comprometa, que se remova da História e mesmo do Mercado?
Ou que ao
menos tenda a fazer isso? Que queira substituir a representação pela presença?
Como a presença pode se fazer perceber mesmo na (ou através
da) representação?
O "caos linguístico" aspira
por uma presença que desaparece de
forma progressiva de todas as estruturações de linguagem e sistemas de
significação. Uma presença elusiva, evanescente, latif ("sutil",
um termo
usado pela alquimia sufi): o Estranho Atrator ao redor do qual mneme
advém, caoticamente formando novas e espontâneas ordens. Nesste ponto
encontramos a estética da fronteira entre o caos e a ordem, a margem, a área
de "catástrofe", onde o desmoronamento
do sistema pode significar
iluminação. (Nota: para uma explicação do que é "Caos
Linguístico", leia o
Apêndice A, e então por favor releia este parágrafo.)
Em termos situacionistas, desaparecimento do artista É "a
supressão e a realização da arte".
Mas de onde nós desaparecemos? E algum
dia seremos vistos ou ouvirão falar de nós outra vez? Iremos para Croatã:
qual é o nosso destino? Toda a nossa arte consiste em uma mensagem de
adeus para a história - "Fomos para
Croatã" - mas onde é isso, e o que faremos lá?
Em primeiro lugar: não estamos nos referindo a um
desaparecimento literal do mundo e do futuro: nenhuma fuga para o
passado, para uma "sociedade original de
lazer" paleolítica; nenhuma utopia
eterna, nenhum esconderijo na montanha, nenhuma ilha; e, também,
nenhuma utopia pós-revolucionária - provavelmente nenhuma revolução! - e
também nenhuma estação espacial anarquista. Nem aceitamos uma
"
desaparição baudriliardiana" no
silêncio de uma ironia hiper-conformista.
Não pretendo provocar discussões com os Rimbauds que fogem da Arte
para qualquer Abissínia que logram encontrar. Mas não podemos construir
uma estética, nem mesmo uma estética do desaparecimento, com a simples
ação de nunca mais voltar. Ao dizer que não fazemos parte da vanguarda e
que não há vanguarda, nós escrevemos nosso "Fomos
para Croatã". E então
a questão passa a ser: como conceber "a
vida cotidiana" em Croatã?
Especialmente se não podemos dizer que Croatã existe no Tempo (Idade da
Pedra ou Pós-Revolução) ou no Espaço, seja na forma de uma utopia ou em
algum vilarejo esquecido no meio-oeste ou na Abissínia. Onde e quando
existe o mundo da criatividade não-mediada? Se ele pode existir, ele existe,
mas talvez apenas como algum tipo de realidade paralela que até agora não
pudemos perceber. Onde poderíamos encontrar as sementes - ervas daninhas
brotando entre as rachaduras das nossas calçadas - desse outro mundo para
nosso mundo? As pistas, a direção correia? Um dedo apontando para a lua?
Acredito, ou ao menos gostaria de propor, que a única solução
para a "supressão e realização" da
arte está na emergência da TAZ. Rejeito
veementemente a crítica que diz que a própria TAZ não é "nada
além" de
uma obra de arte, muito embora ela possa vestir alguns de seus enfeites.
Eu
sugiro que a TAZ é o único "lugar" e "tempo" possível
para a arte acontecer
pelo mero prazer do jogo criativo, e como uma contribuição real para as
forças que permitem que a TAZ se forme e se manifeste.
A arte no Mundo da Arte tornou-se uma mercadoria. Porém,
ainda mais complexa é a questão da representação em si, e a recusa de toda
mediação. Na TAZ, arte como uma mercadoria será simplesmente
impossível. Ao contrário, a arte será uma condição de vida. A mediação é
difícil de ser superada, mas a remoção de todas as barreiras entre artistas
e
"
usuários" da arte tenderá a uma condição na qual
(como A.K.
Coomaraswamy escreveu) "o artista
não é um tipo especial de pessoa, mas
toda pessoa é um tipo especial de artista".
Em suma: o desaparecimento não é necessariamente uma
"
catástrofe", exceto no sentido matemático de "uma
repentina mudança
topológica". Todos os gestos positivos aqui esboçados
parecem envolver
vários graus de invisibilidade em vez da confrontação revolucionária
tradicional. A New Left nunca acreditou realmente em sua própria
existência até que viu seu nome no jornal. A Nova Autonomia, por sua vez,
ou conseguirá infiltrar-se na mídia e "subvertê-la" desde
dentro, ou nunca
será "vista". A TAZ não existe apenas
além do Controle, mas também além
da definição, além do olhar e da nomenclatura como atos de escravização,
além da possibilidade de compreensão do Estado, além da capacidade
perceptiva do Estado.
CAMINHOS DE RATO NA BABILÔNIA DA INFORMAÇÃO
A TAZ COMO UMA TÁTICA radical consciente emergirá sob
certas condições:
l. Liberação psicológica. Isto é, nós devemos perceber (tornar
reais) os momentos e espaços nos quais a liberdade não é apenas possível,
mas existente. Devemos saber de que maneiras somos de fato oprimidos, e
também de que maneiras nos auto-reprimimos ou estamos presos em
fantasias onde ideias nos oprimem. O TRABALHO, por exemplo, é uma
fonte muito mais real de sofrimento para a maioria de nós do que a política
legislativa. A alienação é muito mais perigosa para nós do que as velhas
ideologias desdentadas e moribundas. O vício mental em "ideais" -
que na
realidade tornaram-se meras projeções do nosso ressentimento e do nosso
complexo de vítima - nunca levará nosso projeto adiante. A TAZ não
defende uma utopia social feita de castelos nas nuvens que diz que devemos
sacrificar nossas vidas para que os filhos de nossos filhos possam respirar
um pouco de ar livre. A TAZ deve ser o cenário da nossa autonomia
presente, mas só pode existir seja nos considerarmos seres livres.
2. A contra-net deve se expandir. Atualmente, ela representa
mais abstração do que realidade. Zines e BBS trocam informações, o que é
parte do fundamento necessário para a TAZ, mas pouco dessas informações
lidam com os bens concretos e os serviços necessários para a vida
autônoma. Não vivemos no ciberespaço; sonhar que o fazemos é perder-se
na cibergnose, na falsa transcendência do corpo. A TAZ é um lugar físico,
no qual estamos ou não estamos. Todos os sentidos estão, necessariamente,
presentes. De certa maneira, a web é um novo sentido, mas que deve ser adicionado
aos outros; e os outros não podem ser subtraídos da web, como
em uma terrível paródia do transe místico. Sem a web, a completa realização
do complexo da TAZ não será possível. Mas a web não é um fim em si
mesma. É uma arma.
3. O aparato de controle - o "Estado" -
deve (ou pelo menos
assim devemos pressupor) continuar a desfazer-se e petrificar-se
simultaneamente, deve prosseguir em seu curso atual, onde a rigidez
histérica cada vez mais mascara um vazio, um abismo de poder. Como o
poder "desaparece", nossa ânsia
de poder deve ser o desaparecimento.
Já lidamos com a questão que discute se a TAZ pode ou não
pode ser considerada "meramente" uma
obra de arte. Mas as pessoas vão
querer saber também se a TAZ é mais do que um pobre caminho de rato no
meio de uma Babilônia da informação, talvez um labirinto de túneis, cada
vez mais bem conectados entre si, porém voltados unicamente ao beco-semsaída
econômico do parasitismo pirata? Responderei que prefiro ser um rato
num buraco de parede do que um rato na gaiola, mas insisto em dizer que a
TAZ transcende essas categorias.
Um mundo onde a TAZ consiga deitar raízes pode se assemelhar
ao mundo imaginado por "P.M" em
sua novela fantástica bolo’bolo. Talvez
a TAZ seja um "proto-bolo".
Já que a TAZ existe agora, ela significa muito
mais do que uma mundanalidade negativa ou um escapismo contracultural.
Mencionamos o aspecto festivo do momento descontrolado, e que se
concentra numa espontânea, ainda que breve, auto-organização. Ele é
"
epifânico": uma experiência de pico, tanto em nível
social quanto
individual.
A liberação é percebida durante o esforço: essa é a essência da
"
auto-superação" nietzscheana. Essa tese pode
também tomar como símbolo
o andarilho de Nietzsche. Ele é o precursor do vagar a esmo, no sentido
dado pelo situacionismo para dérive e da definição de Lyotard para driftwork.
Podemos antever uma geografia completamente nova, um tipo de
mapa de peregrinação no qual os lugares sagrados são substituídos por
experiências de pico e TAZ: uma ciência real de psicotopografia, para ser
chamada talvez de "geo-autonomia" ou "anarcomancia".
A TAZ pressupõe um certo tipo de ferocidade, uma evolução da
domesticalidade para a selvageria, um "retorno",
e ao mesmo tempo um
passo adiante. Ela também demanda uma "ioga" do
caos, um projeto de
ordens "mais elevadas" (de
consciência ou, simples-mente, de vida) das
quais uma pessoa se aproxima "surfando
a crista da onda do caos", do
dinamismo complexo. A TAZ é uma arte de viver em contínua elevação,
selvagem, mas gentil - um sedutor, não um estuprador, mais um
contrabandista do que um pirata sanguinário, um dançarino e não um
escatológico.
Vamos admitir que temos frequentado festas onde, por uma
breve noite, realizamos um império inteiro de desejos gratifícantes. Não
devemos confessar que a política daquela noite tem mais realidade e força
para nós do que, digamos, todo o governo dos Estados Unidos? Algumas
das "festas" que mencionamos duraram
dois ou três anos. Isto é algo que
vale a pena imaginar, para o qual vale a pena lutar? Estudemos
invisibilidade, conexões na web, nomadismo psíquico, e quem sabe o que
poderemos atingir?
Equinócio de Primavera, 1990
CAOS LINGUÍSTICO
AINDA NÃO UMA CIÊNCIA, mas uma proposição: que certos
problemas de linguística possam ser resolvidos através da abordagem da
linguagem como um sistema dinâmico complexo, ou "campo
caótico".
De todas as escolas originadas pela linguística de Saussure,
temos especial interesse por duas: a primeira, "antilingüística",
pode ser
encontrada - no período moderno - da partida de Rimbaud para a Abissínia
à
afirmação de Nietzsche "temo que,
enquanto tivermos gramática, não
teremos matado Deus"; passando pelo dadaísmo; "o
Mapa não é o
Território" de Korzybski; pelos cut ups e pela "ruptura
na sala cinza" de
Burroughs; pelo ataque de Zerzan à própria linguagem como representação
e mediação.
A segunda é a linguística de Chomsky que, com sua crença numa
"
gramática universal" e seus diagramas
em forma de árvores, representa (eu
acredito) uma tentativa de "salvar" a
linguagem através da descoberta de
"
invariáveis ocultas", do mesmo modo que
certos cientistas estão tentando
"
salvar" a física da "irracionalidade" da
mecânica quântica. Embora fosse de
se esperar que Chomsky, como anarquista, ficasse do lado dos niilistas, a
sua belíssima teoria em verdade tem mais a ver com o platonismo ou com o
sufísmo do que com o anarquismo. A metafísica tradicional descreve a
linguagem como luz pura brilhando através dos vidros coloridos dos
arquétipos; Chomsky fala de gramáticas "inatas".
As palavras são folhas, os
ramos são frases, os idiomas maternos são limbos, as famílias de linguagem
são troncos e as raízes estão no "céu"...
ou no DNA. Eu chamo a isso
"
hermetalingüística" - hermética e metafísica.
O niilismo (ou a
"
Metalingüística Pesada", em honra a
Burroughs) parece-me ter levado a
linguagem para um beco sem saída e ameaçado torná-la "impossível" (um
grande feito, mas deprimente), enquanto Chomsky mantém a promessa e a
esperança de uma revelação de última hora, o que eu acho igualmente difícil
de aceitar. Eu também gostaria de "salvar" a
linguagem, mas sem apelar
para nenhuma "Assombração",
ou supostas regras sobre Deus, dados e o
universo.
Voltando a Saussure e suas anotações, postumamente publicadas,
sobre anagramas na poesia latina, encontramos certas indicações de um
processo que, de alguma forma, foge da dinâmica signo/significante.
Saussure se deparou com a possibilidade de algum tipo de "meta"-
lingüística que acontece dentro da linguagem em vez de ser imposta desde
"
fora" como um imperativo categórico. Assim que a linguagem
começa a
atuar, como nos poemas acrósticos que ele examinou, ela parece ressonar
com uma complexidade autoexpansiva. Saussure tentou quantificar os
anagramas, mas os números escapavam dele (como se envolvessem
equações não-lineares). Além disso, ele começou a encontrar os anagramas
por todo lado, mesmo na prosa latina. Começou a se perguntar se estava
tendo alucinações, ou se os anagramas eram um processo natural
inconsciente da parole. Abandonou o projeto.
Eu me pergunto: se quantidades suficientes de informações desse
tipo fossem digeridas num computador, começaríamos a ser capazes de
modelar a linguagem em termos de sistemas dinâmicos complexos? As
gramáticas, então, não seriam "inatas",
mas emergiriam do caos
espontaneamente como "ordens superiores" que
evoluem, no sentido da
"
evolução criativa" de Prigogine. As gramáticas
poderiam ser pensadas
como "Estranhos Atratores",
como o padrão escondido que "causou" os
anagramas - padrões que são "reais",
mas que têm "existência" apenas em
termos dos sub-padrões que manifestam. Se o significado é elusivo, talvez
seja porque a própria consciência, e portanto a linguagem, seja fractal.
Considero essa teoria mais satisfatoriamente anarquista do que
qualquer antilingüistica ou chomskyanismo. Ela sugere que a linguagem
pode sobrepor-se à representação e à mediação, não porque seja inata, mas
porque é caótica. Ela sugere que toda experimentação dadaísta (Feyerabend
designou sua escola de epistemologia científica de "dadaísmo
anárquico")
com poesia sonora, gestos, chistes, linguagem bestial etc. não foi feita
com
o objetivo nem de descobrir nem de destruir o significado, mas de criá-lo.
O
niilismo afirma sombriamente que a linguagem cria significado de forma
"
arbitrária". O Caos Linguístico alegremente concorda
com isso, mas
adiciona que a linguagem pode superar a linguagem, que a linguagem pode
criar liberdade a partir da confusão e da decadência da tirania semântica.
HEDONISMO APLICADO
A GANG DE BONNOT15 era vegetariana e bebia apenas água.
Terminaram mal (embora de forma pitoresca). Vegetais e água, coisas
excelentes em si mesmas - pura realidade zen - não devem ser consumidas
como martírio, mas como uma epifania. A autonegação como práxis radical,
o impulso leveller, tem um quê de tristeza milenar, e esta facção da esquerda
compartilha o mesmo manancial histórico do fundamentalismo neo-puritano
e da reação moralista da nossa década. A Nova Ascese, não importa se
praticada por anoréxicos de saúde desequilibrada, sofisticados sociólogos
policiais, niilistas caretas do centro da cidade, fascistas batistas do sul,
militares socialistas, republicanos drug-free... a força motivadora é a
mesma: ressentimento.
Nas fuças do falso moralismo analgésico do mundo
contemporâneo, erigiremos uma galeria com os bustos de nossos
antepassados, heróis que mantiveram viva a luta contra a má consciência,
mas que também souberam se divertir: um genial banco de genes, uma
categoria rara e difícil de se definir, grandes mentes não apenas para a
Verdade, mas para a verdade do prazer, sérios mas não sóbrios, cuja
disposição ensolarada não os tornou indolentes, mas aguçados. Brilhantes,
mas não atormentados. Imagine um Nietzsche com uma boa digestão. Não
os epicuristas tépidos nem os sibaritas envaidecidos. Um tipo de hedonismo
espiritual, um verdadeiro Percurso do Prazer, a visão de uma vida que é boa
e ao mesmo tempo nobre e possível, enraizada na sensação da magnificente
superabundância da realidade.
Sheik Abu Sa'id
Charles Fouríer
BrílIat-Savarin
Rabelais
Abu Nuwas
Aga Khan III
R.Vaneigem
Oscar Wilde
Ornar Khayyam
Sir Richard Burton
Emma Goldman
adicione seus favoritos
CITAÇÕES EXTRAS
PARA NÓS, ELE TEM indicado o trabalho de permanente
desemprego.
Afinal, se Ele quisesse que nós trabalhássemos,
Não teria criado esse vinho.
Com o estômago cheio disso, Doutor, Você se apressaria em embrenhar-se na
economia?
Jalaloddin Rumi, Diwan-e Shams
Aqui, com um Pão debaixo dos Ramos, Um frasco de Vinho, Um Livro de Versos
- e Vós A meu lado cantando no Deserto E o Deserto é o Paraíso para nós.
Ah, meu Amor, encha a taça que redime O hoje das Lágrimas passadas e futuros
Temores - Amanhã? - Bem, Amanhã eu posso ser Eu mesmo com os Sete Mil Anos
d e Outrora. Ah, Amor! Poderíamos conspirar com as Moiras Para agarrar inteiro
este lamentáuel Esquema das Coisas, Não iríamos estilhaçá-lo em pedaços -
e então Remoldá-lo mais próximo do Desejo do Coração?!
Omar Fitz Gerald
História, materialismo, monismo, positivismo e todos os "ismos"
desse mundo são ferramentas velhas e enferrujadas que já não preciso ou
com as quais eu não me preocupo mais. Meu princípio é a vida, meu Fim é a
morte. Gostaria de viver minha vida intensamente para poder abraçar minha
morte tragicamente.
Você está esperando pela revolução? A minha começou muito
tempo atrás! Quando você estará preparado? (Meu Deus, que espera sem
fim!) Não me importo em acompanhá-lo por um tempo. Mas quando você
parar, eu prosseguirei em meu caminho insano e triunfal em direção à
grande e sublime conquista do nada!
Qualquer sociedade que você construir terá seus limites. E para
além dos limites de qualquer sociedade os desregrados e heróicos
vagabundos vagarão, com seus pensamentos selvagens e virgens - aqueles
que não podem viver sem constantemente planejar novas e terríveis
rebeliões!
Quero estar entre eles!
E atrás de mim, como à minha frente, estarão aqueles dizendo a
seus companheiros: "Voltem-se a si mesmos
em vez de aos seus deuses ou ídolos. Descubra o que existe em vocês; traga-o
à luz; mostrem-se!"
Porque toda pessoa que, procurando por sua própria
interioridade, descobre o que estava misteriosamente escondido dentro de
si, é uma sombra eclipsando qualquer forma de sociedade que possa existir
sob
o sol!
Todas as sociedades tremem quando a desdenhosa aristocracia
dos vagabundos, dos inacessíveis, dos únicos, dos que governam sobre o
ideal, e dos conquistadores do nada, avança resolutamente.
Iconoclastas, avante!
"
O céu em pressentimento já torna-se escuro e silencioso!"
Renzo Novatore Arcola, janeiro de 1920
DECLARAÇÃO PIRATA Capitão Bellamy
DANIEL DEFOE, escrevendo sob o pseudônimo de capitão
Charles Johnson, escreveu o que se tornou o primeiro texto histórico sobre
os piratas, A General History of the Robberies and Murders of the Most Notorious
Pirates (Uma História Geral dos Roubos e Assassinatos dos Mais
Notórios Piratas). De acordo com Jolly Roger (a bandeira pirata), de Patrick
Pringie, o recrutamento de piratas era mais efetivo entre os desempregados,
fugitivos e criminosos desterrados. O alto-mar contribuiu para um
instantâneo nivelamento das desigualdades de classe. Defoe relata que um
pirata chamado capitão Bellamy fez este discurso para o capitão de um
navio mercante que ele tomou como refém. O capitão tinha acabado de
recusar um convite para se juntar aos piratas:
Sinto muito que eles não vão deixar você ter sua chalupa de
volta, pois eu desaprovo fazer mesquinharia com qualquer um, quando não é
para minha vantagem. Dane-se a chalupa, nós vamos naufragá-la e ela
poderia ser de uso para você. Embora você seja um cachorrinho servil, e
assim são todos aqueles que se submetem a ser governados por leis que os
homens ricos fazem para sua própria segurança; pois os covardes não têm
coragem nem para defender eles mesmos o que conseguiram por vilania;
mas danem-se todos vocês: danem-se eles, um monte de patifes astutos e
vocês, que os servem, um bando de corações de galinha cabeças ocas. Eles
nos difamam, os canalhas, quando há apenas esta diferença: eles roubam os
pobres sob a cobertura da lei, sem dúvida, e nós roubamos os ricos sob a
proteção de nossa própria coragem.
Não é melhor tornar-se então um de nós, em vez de rastejar atrás
desses vilões por emprego?
Quando o capitão replicou que a sua consciência não o deixaria
romper com as regras de Deus e dos homens, o pirata Bellamy continuou:
Você é um patife de consciência diabólica, eu sou um príncipe
livre e tenho autoridade suficiente para levantar guerra contra o mundo todo,
como quem tem uma centena de navios no mar e um exército de 100 mil
homens no campo; e isto a minha consciência me diz: não há conversa com
tais cães chorões, que deixam os superiores chutá-los pelo convés a seu bel
prazer.
O JANTAR
NA ORDEM SOCIAL de hoje, o mais elevado tipo de sociedade
humana está nas salas de estar. Nas elegantes e refinadas reuniões das
classes aristocráticas não há nenhuma das impertinentes interferências da
legislação. A individualidade de cada um é totalmente admitida. O
intercurso, portanto, é perfeitamente livre. A conversação é contínua,
brilhante e variada. Grupos são formados por atração. E são continuamente
rompidos e reformados através da ação da mesma energia sutil e
onipresente. A deferência mútua permeia todas as classes, e a mais perfeita
harmonia jamais alcançada, nas complexas relações humanas, prevalece
precisamente sob aquelas circunstâncias que os legisladores e homens de
Estado temem como condições de inevitável anarquia e confusão. Se
existem quaisquer leis de etiqueta, elas são meras sugestões de princípios,
admitidos e julgados por cada pessoa, pela mente de cada indivíduo.
Seria concebível que em todo o futuro progresso da humanidade,
com todos os inúmeros elementos de desenvolvimento que a época presente
vem desdobrando, a sociedade em geral, e em todas as suas relações, não
atingirá um grau de perfeição tão alto como certos segmentos da sociedade,
em certas relações especiais, já atingiu?
Suponha que o intercurso da sala de estar seja regulado por uma
legislação específica. Que o tempo permitido para cada cavalheiro dirigir-se
a cada dama seja fixado por lei; que as posições que eles possam sentar ou
ficar de pé sejam precisamente reguladas; que os assuntos sobre os quais
eles tenham permissão de discorrer, e o tom de voz e os gestos que cada um
possa fazer, sejam cuidadosamente definidos, tudo sob o pretexto de evitar
a
desordem e a violação dos privilégios e direitos uns dos outros. Poder-se-ia
conceber algo melhor calculado e mais certo de converter todo intercurso
social numa escravidão intolerável e numa confusão sem esperança?
S. Pearl Andrews A Ciência da Sociedade
fonte: Blog do Hakim Bey
![]() |
|||||||||
![]() |
|||||||||